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Política

Ex-agente do Dops foi “esculachado” neste sábado em SP

Carlinhos Metralha: “Não havia tortura na ditadura”

Ao site de CartaCapital, o hoje delegado de Itatiba admitiu participação no assassinato de 6 militantes em Pernambuco, em 1973. "Só prestei grandes serviços para a sociedade".
por Igor Ojeda — publicado 05/05/2013 21h05, última modificação 06/05/2013 10h43
Pôster Carlinhos Metralha

Cartaz sobre o delegado Carlos Alberto, espalhado em Itatiba no sábado

Conteúdo
Carlinhos Metralha, agente da ditadura, é "esculachado" no interior de SP
Ato foi neste sábado, 5 de maio; Carlos Alberto Augusto, acusado de ter torturado e assassinado militantes, hoje é delegado de segunda classe de Itatiba

Alvo de “esculacho” no sábado 4, em Itatiba (SP) - onde é delegado de segunda classe desde fevereiro - o ex-agente da ditadura Carlos Alberto Augusto, conhecido nos anos 1970 como Carlinhos Metralha, negou ter torturado ou assassinado ativistas políticos durante o regime autoritário. “Nesses 43 anos de trabalho, só prestei grandes serviços para a sociedade. Nunca fui processado, nunca cometi arbitrariedade nenhuma, sou cumpridor das leis”, disse, em entrevista por telefone a CartaCapital no domingo 5.

Ele afirmou que nunca presenciou sessões de tortura. Admitiu, no entanto, ter participado do chamado massacre da Chácara São Bento, na cidade de Paulista, na região metropolitana de Recife (PE), em 1973, quando seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram mortos. “Eles queriam matar o cabo Anselmo e eu”, justificou.

Augusto, que é réu em ação do Ministério Público Federal (MPF) pelo sequestro qualificado de Edgar de Aquino Duarte, preso em 1971 e desaparecido em 1973, disse ainda ter ficado “feliz” com a manifestação desse sábado, pois teria sido por isso que lutara no passado. Qualificou o esculacho de sábado, porém, como “terrorismo”.

CartaCapital - Gostaria que comentasse o protesto realizado contra o senhor nesse sábado em Itatiba.

Carlos Alberto Augusto - Estou muito feliz, muito contente pela manifestação que foi feita. Foi por esse motivo que eu lutei no passado. Para poder dar liberdade para a imprensa, para os brasileiros poderem se manifestar. Eu lutei por isso. Se essa manifestação tivesse ocorrido em Cuba, esses jovens “militontos” já estariam no paredão sendo fuzilados. Deve-se a liberdade que existe hoje às forças armadas brasileiras.

CC - O que acha das acusações que fizeram contra o senhor, de que participou de torturas e mortes de militantes políticos?

CAA - Nesses 43 anos de trabalho, só prestei grandes serviços para a sociedade. Nunca fui processado, nunca cometi arbitrariedade nenhuma, sou cumpridor das leis. E se tiver alguma coisa, vou prestar informações para o juiz.

CC - E o processo do Ministério Público Federal contra o senhor, pelo sequestro de Edgar de Aquino Duarte?

CAA - Até agora não fui citado. Desconheço qualquer tipo de acusação. Não fui ouvido pelo juiz. E o que me deixa preocupado é que estão fazendo terrorismo com os órgãos do Estado.

CC - Terrorismo?...

CAA - O que fizeram ontem não é um ato de terrorismo? Querendo apavorar a mim e a minha família? Apavorar o pessoal da cidade, que não me conhece?

CC - A cidade ficou apavorada?

CAA - A comunidade não me conhece direito. Eu fui designado recentemente para trabalhar lá. Mas como eles [os manifestantes] falam de mim, que eu fui processado, se eu não fui citado ainda?

CC - Mas o processo do Ministério Público Federal de fato existe.

CAA - Mas eu não fui citado ainda.

CC - Isso é uma questão da Justiça, mas o processo existe, está no Ministério Público Federal, existem acusações contra o senhor.

CAA - Até o momento eu desconheço qualquer informação, porque não fui citado ainda.

CC - Mas o senhor não poderia falar sobre esse processo?

CAA - O que eu posso falar é que os moleques que foram lá [em Itatiba protestas] são desajuizados.

CC - O senhor nega ter participado de sessões de tortura e de sequestros?

CAA - Nunca! Nunca, nunca. Eu vou ter oportunidade de explicar isso em juízo. Mas não me chamaram!

CC - O senhor fazia parte da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury no Dops, não é verdade?

CAA - Mas não é porque sou da equipe dele que posso ser acusado dessas coisas todas.

CC - É que há muitas denúncias de presos políticos contra o delegado Fleury e a equipe dele, denúncias de torturas...

CAA - Eu desconheço, porque o delegado Fleury também nunca foi processado nessa área. Outra coisa: todas as prisões, todas as sessões de interrogatório foram do conhecimento do governador, do secretário de Segurança Pública e do juiz-auditor militar. E acompanhadas pela imprensa.

CC - O senhor está dizendo que não havia tortura naquela época?

CAA - Não havia. Eu também não presenciei nada.

CC - Há várias denúncias, muito bem fundamentadas, da existência de tortura...

CAA - Quem tem boca fala o que quer. O papel aceita tudo. Essa satisfação eu quero dar em juízo.

CC - Recentemente, no entanto, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra [também réu na mesma ação movida pelo MPF contra Augusto], por exemplo, foi considerado torturador pela Justiça de São Paulo.

CAA - Eu nunca trabalhei com o coronel Ustra, nunca trabalhei no Exército ou em nenhuma força armada. Me acusam de ser um oficial do Exército quando sou um soldado de terceira categoria. Eu não servi o Exército, para você ter uma ideia. Eu lutei no passado para defender o seu emprego, de jornalista. Porque do contrário haveria aqui um regime comunista. E isso não podemos deixar.

CC- Mas na ditadura havia censura aos jornais.

CAA - Pô! Colocaram bomba no Estadão, colocaram bomba na Folha. Mataram um jornalista em Recife... isso daí é história desses caras que estão no governo. Como é que você interpela um delegado se você não sabe da história?

CC - Como assim?

CAA - Você tem mais de 50 anos?

CC - Só pode saber a história quem tem mais de 50 anos?

CAA - É! Só quem viveu! Porque a história não apareceu ainda. Só estão contando de um lado! E o outro lado já está mentindo!

CC - Eu gostaria de fazer só mais uma pergunta. O senhor também é acusado de ter participado da organização do chamado Massacre da Chácara São Bento [episódio ocorrido em Pernambuco, em 1973, quando seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária foram mortos]. O senhor também nega?

Não nego não! Eles queriam me matar lá. Eles queriam me levar para me executar. Não nego não! Eles queriam matar o cabo Anselmo e eu.

CC - E o que o senhor fez?

CAA - Os [militantes] que morreram lá interrogavam, julgavam, executavam e enterravam. Tanto que muitos desaparecidos foram eles que enterraram.