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Política

Entrevista

Aécio Neves prega renovação de ideias do PSDB

por Cynara Menezes — publicado 05/11/2012 14h12, última modificação 06/11/2012 07h39
O senador defende uma nova agenda para a oposição, critica a paralisia do governo Dilma e prega a eficiência
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Aécio Neves no Senado. O tucano, que trocou farpas com a presidenta durante a campanha, agora quer descer do palanque. Foto: José Cruz / ABr

 

 

 

Sorridente e à vontade, o senador Aécio Neves recebeu CartaCapital em seu gabinete em Brasília sem a preocupação de dissimular o interesse de concorrer à Presidência em 2014. Ao contrário, fala como candidato. Tem na ponta da língua a “nova agenda” que pretende para o PSDB: eficiência, educação e saúde. Um resumo da entrevista foi publicado na edição impressa de CartaCapital. Aqui, a íntegra da conversa com o senador tucano.

CartaCapital: Como o PSDB se saiu nesta eleição?
Aécio Neves: Houve dois aspectos que me chamaram a atenção: o primeiro deles é a reinserção do PSDB e do DEM no Norte e Nordeste do País. As oposições venceram mais capitais do que qualquer outro partido: Salvador, Maceió, Aracaju, Belém, Manaus, Teresina. O segundo aspecto relevante foi a qualidade dos novos candidatos do PSDB, houve uma renovação natural. O PSDB sai muito vivo dessas eleições. Mas é uma eleição curiosa, onde não houve derrotados, todos cantam sua vitória: o PT vai comemorar a eleição em São Paulo, nós vamos comemorar nossa reinserção no Norte e Nordeste, o PSB o seu crescimento, o PMDB continuar a ser o partido com o maior número de prefeituras.

CC - O PSB foi a grande surpresa?
AN - Sempre tive uma relação muito próxima com o PSB, desde minha primeira eleição. Não é uma relação eleitoral, é natural. Em Minas, nos meus dois mandatos, o PSB sempre foi um parceiro importante, como é agora do governador (Antonio) Anastasia (PSDB). Mesmo em São Paulo, apesar do apoio formal ao candidato do PT, a aliança estrutural do PSB é com o PSDB. Existe essa identidade. Nós, do PSDB, diferentemente do PT, achamos positivo o crescimento do PSB. O PT vê o crescimento do PSB como um risco a sua hegemonia, é o que se percebe nas entrelinhas. Mas o que houve nesta eleição foi uma pulverização maior do que existia anteriormente.

CC - Não há partidos demais no Brasil?
AN - Sim. Tenho discutido, no pós-eleição, com algumas lideranças do PSDB, se não devíamos trazer de volta a cláusula de desempenho ou cláusula de barreira, que permite o funcionamento de partidos que tenham uma mínima ressonância na sociedade. Da mesma forma que o bipartidarismo era inadequado, ter cerca de 20 partidos no Congresso me parece um exagero e um complicador para a discussão dos grandes temas, as negociações passam a ser quase individuais. A cláusula de barreira chegou a ser aprovada, mas o STF (Supremo Tribunal Federal) derrubou porque achou que deveria ser uma emenda constitucional, não lei complementar. Se fosse aplicada, teríamos seis ou sete partidos políticos, o que me parece mais adequado.

CC - O senhor é a favor do financiamento público de campanha?
AN - Sou a favor, mas tem que passar pelo menos pelo voto distrital misto: metade do Congresso eleito em lista partidária e metade em distritos. É a proposta que a maioria do meu partido encampa. O fim das coligações proporcionais seria outro avanço, porque permite que um parlamentar seja eleito com o voto que o eleitor deu a outro partido. Isso é usurpar voto.

CC - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou da necessidade de renovar o PSDB. O senhor concorda?
AN - Absolutamente. Já venho me batendo por isso há muito tempo. A renovação se dá do ponto de vista geracional, e essa é até natural, mas a renovação mais importante é a de ideias. O PSDB apresentou 20 anos atrás uma agenda para o País. Boa parte ainda está em curso, a estabilidade econômica, o início dos programas de transferência de renda que o presidente Lula ampliou, e eu reconheço. Sou um tucano que não vê apenas defeitos em nossos adversários e também não vejo só virtudes nos aliados. A responsabilidade do homem público é compreender as boas ideias, valorizá-las e até aprimorá-las, independentemente de qual tenha sido a sua origem. Então, o PSDB tem de criar, a partir do Brasil de hoje, uma nova agenda. O pecado do PT nesse período foi não ter ousado: no campo da reforma política, da tributária, da reforma da estrutura do Estado, que me parece inchada. A renovação do ­PSDB é a renovação da agenda, e é a isso que vamos nos dedicar.

CC - Como o senhor avalia o aceno do PSDB a um discurso conservador extremo, em 2010 e agora repetido em São Paulo?
AN - Não é bom para o partido, não está no ideário do partido e não é da natureza do partido. Foram as circunstâncias eleitorais que acabaram levando a isso. Reconheço sempre o papel importante do (José) Serra nesse jogo político do PSDB, faço aqui justiça à sua posição nesta eleição, porque ele não queria ser candidato e foi uma demanda do partido. Certa ou errada, o partido tem de assumir uma parcela de responsabilidade, porque houve unanimidade em todos nós quando ele parecia o candidato mais viável.

CC - O PSDB precisa se desgrudar do rótulo de “governar para os ricos”?
AN - Esse discurso, que o PT tenta fortalecer, para mim é muito atrasado. Seria o caso de eu perguntar: mas como é que no Vale do Jequitinhonha, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, o PSDB ganha? Porque ali os resultados foram perceptíveis à população. Acho um desserviço à democracia dividir o Brasil entre ricos e pobres. Você vai encontrar pobreza em todas as regiões. Nesta eleição, vencemos muito mais do que o PT nas capitais do Nordeste. Quer dizer que os pobres gostam mais do PSDB do que do PT? Também não acredito nisso.

CC - Há algum tempo a oposição vem sendo alvo de críticas de analistas, à esquerda e à direita. Que tipo de inflexão poderia fazer neste momento?
AN - Existe espaço para uma oposição mais propositiva e acho que é esse o nosso caminho. Não está no nosso DNA, não teríamos a mesma capacidade de fazer a oposição que o PT fez ao PSDB, em que considerava vício de origem tudo que vinha do governo. Fui líder do governo FHC e presidente da Câmara, e as dificuldades que tivemos para aprovar questões que hoje o governo do PT entende e defende como mantras foram absurdas. Para aprovarmos a Lei de Responsabilidade Fiscal, por exemplo, sofremos agressões quase físicas da bancada do PT na Câmara. Na votação da Previdência Complementar, que depois o PT no governo aprovou, tinha corredor polonês quando entrávamos no plenário. Esse tipo de oposição, que não considero patriótica, nós não faremos. O que acho que vai mudar é que se passaram dois anos e estamos percebendo uma ineficiência que me parece clara. Vamos ter, neste ano, a pior execução do PAC desde que ele foi anunciado. Temos gargalos crescentes no campo da infraestrutura. Nada caminhou até aqui. É natural que a oposição comece a cobrar cada um dos compromissos assumidos lá atrás. Acho até que boa parte do capital que a presidenta Dilma adquiriu no início do governo, com o discurso moralizador, jogou fora nesta eleição ao colocar parte do governo a serviço do projeto do seu partido.

CC - Durante a campanha, o senhor e a presidenta trocaram farpas. Chegou a dizer que ela era estrangeira em Minas... Vai continuar?
AN - Temos de descer do palanque. Essa expressão em especial foi utilizada não em relação a ela, mas à presença em Minas de vários ministros de Estado. Eu respeito a presidenta Dilma, sua certidão de nascimento. Mas, como senador e ex-governador de Minas Gerais, sempre que achar que os interesses do estado estão contrariados, eu vou dizer. E acho que o governo federal tem uma dívida enorme com Minas. Obviamente, isso surgiu na campanha e o debate ocorreu, mas de forma respeitosa. Tenho uma característica que muitos tucanos não gostam: não faço política com ataque pessoal, faço na questão conceitual. Os cientistas políticos do futuro tenderão a compreender o período que se inicia com Itamar Franco até o governo Dilma como um só período de continuidade. Não houve ruptura na questão econômica, houve prioridades, vieses diferentes. Do ponto de vista macroeconômico, os pilares são os mesmos.

CC - Se o senhor fosse presidente, quais seriam suas prioridades?
AN - Eficiência na gestão pública. Não existe nenhuma medida de maior alcance social do que a boa aplicação do dinheiro público. Como fizemos em Minas Gerais, o governo que mais diminuiu a desigualdade, isso é reconhecido pelo Banco Mundial. O que fizemos se opõe ao aparelhamento excessivo que o PT faz, não só no governo federal. É uma marca do PT, histórica, atender seus companheiros. O Estado eficiente é que atende melhor ­todos, essa seria uma marca nossa.

CC - Muitos o apontam como o novo líder da oposição no Brasil. Está disposto a cumprir esse papel?
AN - Ninguém se autointitula líder. Tenho uma responsabilidade, acho que não existe democracia sólida e duradoura sem uma oposição firme, forte e vigilante. Vou cumprir o papel que me couber nesse processo. Saímos desta eleição com uma sinalização da sociedade de que há espaço para um novo discurso, para uma nova etapa após esse período do PT. Esse ciclo vai se exaurindo, é natural na política. O PSDB tem de estar preparado para ser alternativa a esse modelo que está aí, como a força mais expressiva das oposições.

CC - O senhor fala em eficiência, educação e saúde, exatamente o discurso de Serra. É o suficiente para ganhar votos das pessoas mais humildes e da classe C emergente, distantes do PSDB?
AN - Esse discurso não está só no discurso do Serra, está em todos, porque são questões essenciais. Em Minas Gerais, demonstramos com muita clareza como priorizar essas questões e vencemos as eleições no primeiro turno. E olha que com uma oposição muito dura, com a participação do ex-presidente Lula, da presidente Dilma. Os resultados, pelo menos em Minas, estamos colhendo. Se algum dia vamos colher no Brasil o tempo é que vai dizer.