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A volta de Renan Calheiros

por Piero Locatelli — publicado 01/02/2013 11h35, última modificação 01/02/2013 16h23
Após submergir durante anos, o alagoano volta à presidência do Senado

(atualizado às 14h44)

"Renan Calheiros tem uma virtude indispensável ao verdadeiro homem público: a coragem. Não tem medo dos poderosos do dinheiro, dos facínoras da violência, dos aproveitadores da corrupção, das sórdidas forças econômicas estrangeiras que querem colonizar esta nação e sugar o trabalho oprimido de nossos trabalhadores”. A descrição do senador, que volta nesta sexta-feira 1º à presidência do Senado, hoje parece inverossímil. Foi escrita pelo então deputado federal Ulysses Guimarães (PMDB) em seu prefácio para o primeiro livro de Renan, chamado “Contadores de Balelas”, conforme republicado em blog do jornal O Globo. Na época, o atual senador estava em seu primeiro mandato como deputado federal.

Nos últimos anos, as notícias relacionadas a ele não parecem corresponder aos adjetivos empregados por Ulysses num já distante 1983. Acuado pela mídia e por parte dos senadores, Calheiros renunciou à presidência do Senado em 2007. Era acusado de ter seus gastos pessoais, inclusive a pensão para sua ex-mulher Mônica Veloso, pagos pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Era suspeito também de usar laranjas para controlar duas empresas de rádio e um jornal no seu estado numa sociedade oculta com o usineiro João Lyra.

Mônica Veloso foi parar na capa da Playboy. Enquanto isso, Renan submergia. Seus aliados agiram para preservar os direitos políticos dele, que acabou mantendo seu cargo em votações secretas, apoiado pela maioria dos seus colegas que não ousavam defende-lo em público.

Foram quase cinco anos longe do centro dos noticiários. Com raras entrevistas, ele frequentou as colunas políticas com sua atuação nos bastidores. Foi alvo de mais acusações durante o escândalo dos atos secretos, estourado em 2009, no qual era suspeito de favorecer aliados em publicações ocultas.  Na época, quase não se pronunciava.

Em 2011, Renan virou líder do PMDB no Senado. Começou a reaparecer aos poucos. Hoje, de volta aos holofotes, volta a ser alvo de novas e velhas suspeitas. Enquanto agia discretamente pela sua eleição durante o mês de janeiro, a PGR (Procuradoria-Geral de República) pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) a abertura de um inquérito para investigar supostas irregularidades na abertura de uma estrada dentro de uma reserva ambiental para uma de suas empresas, a Agropecuária Alagoas. Além disso, a revista Veja mostrou, em reportagem, que o alagoano usa dinheiro do Senado para alugar um escritório na capital do seu estado, Maceió.

Na última semana, mais problemas apareceram. Reportagem da Folha de S.Paulo mostra que Renan usou sua influência para emplacar aliados no governo federal. Ele também teria feito lobby para que outros amigos furassem a chamada “fila” para receber indenizações baseadas na Lei da Anistia por suposta perseguição na ditadura.

Por fim, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apresentou há uma semana uma denúncia ao Supremo sobre o caso Mônica Veloso. Gurgel sustenta que Renan não tinha dinheiro suficiente para pagar a pensão da ex-mulher e o acusa de utilizar notas frias para justificar a origem dos recursos para a pensão paga, supostamente, por um lobista.

Mesmo assim, Renan foi eleito por uma larga margem, com 56 votos. Seu único concorrente, Pedro Taques (PDT-MT), teve 18. Outros quatro senadores estavam presentes, mas votaram em branco ou em nulo. Após eleito, sua primeira promessa foi criar uma secretaria da transparência na casa. Também insistiu no que chamou de "atrofia" do Legislativo, dizendo que irá se encontrar com o novo presidente da Câmara já na semana que vem para tomar atitudes para torna-lo mais forte.

O retorno, após tanto bombardeio, rendeu a ele um apelido entre os colegas: mandacaru. Isso porque, conforme noticiou recentemente a coluna “Painel”, da Folha de S.Paulo, o senador tem casca dura, é espinhoso e parece à prova de intempéries.

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