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A vida e a história

por Fernando Lyra — publicado 19/11/2012 09h02, última modificação 06/06/2015 17h37
O que torna um personagem histórico é a virtude combinada às circunstâncias. É a coincidência aliada à conversa

Na edição 723, disse, no encerramento da entrevista que anunciou minha estreia como colunista de CartaCapital, considerar Tancredo Neves o maior político que conheci. Recebi, entre muitas manifestações, algumas de questionamento e protesto. “E Lula?”, perguntou alguém, com irritação. Bem, quando respondi à pergunta, eu realmente pensava na história. Excluí os políticos vivos, pois estes ainda não encerraram sua contribuição para com o processo histórico e, portanto, ainda não podem ser objeto de uma avaliação definitiva, se é que isso existe.

Ao longo da minha vida pública, tive oportunidade de conhecer e conviver com grandes personalidades da nossa história política recente. O que torna grande um personagem histórico é a combinação das suas qualidades com os desafios que a política e a vida colocam em seu caminho. É a virtude articulada às circunstâncias, como afirmava o polêmico Maquiavel no século XV. É a coincidência aliada à conversa.

O que garantiu a Miguel Arraes a imortalidade não foi o célebre “Acordo do Campo”, exemplo pioneiro de entendimento entre duas classes antagônicas, os latifundiários e os camponeses, promovido durante o seu primeiro governo. Ou mesmo a iniciativa do “Chapéu de Palha”, modelo de todos os programas sociais que viriam depois. Tudo isso foi importante, marcante. Mas a dimensão humana de Arraes e a sua consequente estatura histórica são medidos pela reação ao golpe de 1964. Ele era governador, tinha pouco mais de 40 anos e oito filhos para criar. Recusou-se a renunciar e não se curvou às ameaças. Saiu do Palácio do Campo das Princesas, romântico nome da sede do governo pernambucano, direto para a ilha de Fernando de Noronha, abrigo à época do presídio de maior segurança do País. Quantos teriam sido capazes de tal atitude?

Convivi algum tempo com Leonel Brizola, um político dos pampas que pensava o Brasil como um todo. Dado a grandes pelejas e sem temor de enfrentar desafios, manteve uma briga com parte da mídia que acabou por distorcer muito da sua imagem. Quando da renúncia de Jânio Quadros, exerceu um papel fundamental na manutenção da estrutura institucional do País por meio da heroica “Campanha da Legalidade”, que garantiu a posse de Jango. Sua atuação nesse capítulo da história brasileira é algo sem paralelo na era republicana. Assim como sua tenacidade, contra tudo e contra todos na defesa da bandeira trabalhista, era comovente.

Ulysses Guimarães foi o “Senhor Diretas” e a cara da Constituinte, mas a sua imortalidade foi garantida muitos anos antes, na anticandidatura à Presidência da República em 1974. Foi uma decisão corajosa, que mudou os rumos do processo político de abertura democrática ao proporcionar a vitória do MDB para o Senado em 22 estados da federação. Cito com reverência esses três nomes, acima de qualquer discussão. E mantenho minha opinião: o maior político que conheci foi Tancredo Neves. Foi para a Nova República o que José Bonifácio de Andrada e Silva foi para a Independência. Soube compreender o momento e fez a história acontecer. O doutor Tancredo tinha a capacidade de vislumbrar o futuro com clareza, a paciência para esperar a hora de agir e a competência para projetar os caminhos que conduziriam aos objetivos que traçava. E assim alterar os destinos de uma nação.

Das personalidades vivas, destaco dois ex-presidentes: Fernando Henrique Cardoso e Lula. O primeiro proporcionou a estabilidade econômica que garantiu o nosso passaporte para a modernidade. O segundo fez o maior programa de inclusão social da nossa história e transformou-se no maior líder popular que o Brasil já teve.

Os dois garantiram seus lugares nos livros, entretanto ainda não terminaram de escrever sua participação, pois, na trilha do pensamento de Getúlio Vargas, é preciso sair da vida para entrar na história.

P.S.: A propósito, já que falamos de Brizola e Lula, aproveito para colocar os pingos nos is sobre uma das tantas distorções que se perpetuaram sobre ambos. Corria o ano de 1989, o primeiro turno tinha acabado, eu era candidato a vice de Brizola e havíamos perdido a vaga no segundo turno para Lula. Brizola reuniu a mídia na entrada do prédio onde morava, em Copacabana, e aderiu a Lula com uma frase carregada de humor e metáforas, como lhe era peculiar: “Vamos fazer a burguesia engolir este sapo barbudo”. Esta foi a frase, muito diferente do sentido apregoado por alguns. Eu estava a seu lado e guardei esse momento na memória para sempre.