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A radicalização política da "classe média"

Divisão marcará próximas eleições, afirma sociólogo. Para pesquisador, "alta renda" está engajada
por André Barrocal publicado 18/03/2016 20h43, última modificação 21/03/2016 16h32
Fernando Frazão/Agência Brasil
Protesto

Manifestante protesta contra o governo Dilma no Rio de Janeiro, na quinta-feira

A escalada de protestos de rua dos últimos dias, a maioria contra o governo, mostra uma radicalização política incomum na história brasileira. Um fenômeno com o qual o País terá de conviver por um bom tempo, ao que parece. “O Brasil está dividido e isso vai marcar a próxima eleição”, diz o sociólogo Jessé Souza, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). 

Para ele, não há possibilidade de o governismo conciliar-se com as pessoas que engrossam as passeatas pela derrubada de Dilma Rousseff e pela prisão do ex-presidente Lula, descritas como pertencentes à “classe média”. 

“A questão que fica é como o combate à corrupção e a seletividade das investigações da Operação Lava Jato serão percebidos pelos batalhadores, pela nova classe trabalhadora. É o mais importante”, afirma Souza. “Por isso, a cobertura midiática até agora é preocupante.” 

Os manifestantes antipetistas têm sido catalogados como “classe média”, talvez uma classificação genérica demais. No maior palco dos atos do domingo 13, a Avenida Paulista, o Datafolha identificou, entre os estimados 500 mil presentes, 77% com grau superior, 77% de brancos, 63% recebedores de mais de cinco salários mínimos e idade média de 45 anos. 

“A camada de maior renda está completamente engajada” contra o governo, na avaliação de Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular. Sendo assim, não surpreende que na quarta-feira 16, durante protesto em frente ao Palácio do Planalto contra a nomeação de Lula ministro, tenham sido vistos muitos carros de luxo a buzinar e a atirar moedas na direção do prédio. 

Para Meirelles, a maior novidade das manifestações recentes é o coroamento do juiz Sergio Moro, comandante da Lava Jato, como “justiceiro”, daí faixas, cartazes e camisetas a defender “Moro presidente”.

Por trás da simbiose entre o juiz e o antipetismo está o sentimento de “basta de corrupção!” “A corrupção é um problema, mas dar uma dimensão absoluta ao tema cria conflitos falsos no lugar dos verdadeiros, que é a desigualdade social, a disputa por recursos escassos”, diz Souza. “Existe corrupção em todos os governos, mas só é carnavalizada em governos de esquerda.”

Uma existência que não se restringe a governos. Em janeiro, o Data Popular ouviu 3,5 mil pessoas em 146 cidades e constatou: apesar de só 3% assumirem ser corruptos, 70% admitem já ter praticado ao menos uma atitude corrupta na vida e 80% dizem conhecer alguém que já se comportou de tal forma. Algo como mentir no Imposto de Renda, subornar um guarda ou não devolver troco recebido a mais.

Para o presidente do Ipea, quando a “classe média” ergue a bandeira do “fim da corrupção” para combater o governo, tem a ajuda da imprensa, de órgãos como o Ministério Público e o Judiciário e de setores do Congresso, todos pertencentes ao mesmo universo social. Jornalistas, promotores de Justiça e juízes teriam identidade social com os manifestantes antipetistas.

Tão logo Lula assumiu a Casa Civil, um juiz em Brasília baixou liminar revogando a posse, em uma ação popular movida contra a nomeação. O magistrado em questão era Itagiba Catta Preta Neto, da 4ª Vara Federal. Em seu Facebook, o juiz já colocou fotos dele e da família em manifestações pela cassação da presidenta Dilma Rousseff. No dia 7 de março, escreveu: “Ajude a derrubar a Dilma e volte a viajar para Miami e Orlando. Se ela cai, o dólar cai junto”.

Em resumo, segundo Jessé Souza, o sociólogo: “A chamada classe média é a tropa de choque dos endinheirados no Brasil”.