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Política

Primeira Infância

A infância nos tempos de zika: Marcela Temer e a criança feliz

por Debora Diniz publicado 11/10/2016 04h35, última modificação 11/10/2016 05h37
Queria explicar para a primeira dama que as crianças atingidas pelo zika não precisam de ajuda, mas de direitos e proteções fundamentais
Carolina Antunes/PR/Fotos Públicas
A primeira dama Marcela Temer

Com tristeza,entendi que a dama de azul falava do modelo de mãe burguesa com tempo e recursos para o conto de fadas da criança feliz

“Criança feliz” soa como profecia bíblica. E daquelas sem opositor, pois nada mais justo que a felicidade na infância. Um Estado não tem como garantir felicidade, é verdade, mas pode promover as condições para o seu florescimento: educação, renda, saúde, transporte, esse conjunto de bens fundamentais que costumamos descrever como direitos sociais.

Felicidade é um apelo ambíguo e nada evidente sobre os compromissos de um Estado, apesar de ser confortante quando pronunciado por uma jovem mãe sobre seu filho.

A Sra. Marcela Temer fez sua primeira aparição no posto anacrônico de primeira-dama. Seu marido, o presidente Michel Temer, a descreveu como um “incentivo às senhoras do país”. Ouvi atentamente os três minutos de discurso da primeira-dama e, mesmo sendo uma senhora, não me senti incentivada. Resolvi tomar notas das frases de efeito da dama de azul, uma forma de exercer a dúvida sobre o gentil convite do marido. O exercício foi desastroso.

“Quem ajuda os outros muda histórias de vida” foi a frase de abertura da primeira-dama. O manual de retórica de talk-show foi seguido à risca; o azar é que o conteúdo foi torto: um Estado não ajuda, garante direitos.

Ajudar é verbo da caridade, muito usado pelas igrejas ou por gente sem poder de mando ou grito. Ajudamos em casa, na família, na vizinhança. Os bens da ajuda são de minha propriedade privada – seja meu tempo, minha renda ou meu afeto. Em nome do Estado, como fala a primeira-dama, não há ajuda, mas necessidades, direitos e proteções.

Insisti na escuta. O pronunciamento era curto, isso me incentivava a resistir. “Fico feliz em colaborar com causas sociais”, continuou a primeira-dama.

Precisei ouvir algumas vezes a frase e tenho que dizer: não, primeira-dama, está errado – o que lhe oferece felicidade é necessidade de vida para outras pessoas; o que chama de “causas sociais” é urgência de sobrevivência para uma multidão no país.

A troca me pareceu injusta, senão mórbida: a dependência dos pobres beneficiários do Bolsa Família pela felicidade da dama vestida de azul. Há algo de errado neste encontro: ajuda, causas sociais e felicidade só para alguns.

Criei algum ânimo quando a ouvi dizer “as nossas responsabilidades aumentam a cada dia, e os desafios também”. Nada mais verdadeiro para quem falaria sobre a primeira infância, e o Nordeste do país é o epicentro de uma epidemia com poucos precedentes na história da medicina, o vírus zika.

São milhares de crianças diagnosticadas com a síndrome congênita do zika, um alteração no desenvolvimento que comprometerá definitivamente o futuro das crianças e das mães.

Mas a dama de azul não falava dessas crianças, mas daquelas cujas mães leem histórias ou cantam canções de ninar ao dormir. Quem são elas, onde vivem, como sobrevivem?

Para minha tristeza, logo entendi. Ela falava de si, a mãe que “organiza as habilidades e competências” dos filhos pelo amor na primeira infância, que lê e canta, comprova pelo instinto o que a ciência desconhece. O modelo de mãe burguesa com tempo e recursos para o conto de fadas da criança feliz.

Mas o espelho da desigualdade não parou por aí – a dama de azul justificou esse modelo de maternagem como fundamental para coibir que, no futuro, as crianças se transformem em adolescentes violentos. Das canções de ninar às mães do Bolsa Família, terminamos com os adolescentes infratores, esses que nos metem medo e assustam as crianças felizes.

Primeira-dama, preciso explicar algo que, talvez, ainda não tenha tido tempo para conhecer. Primeiro: faça uma viagem ao Nordeste, isso lhe ajudaria a dar outros sentidos à felicidade – ou, melhor dizendo, às necessidades das crianças.

Segundo: lá descobriria que as famílias não precisam de ajuda, mas de garantias de direitos. As crianças do Bolsa Família ou, se posso ser mais específica, as crianças do zika precisam de proteções fundamentais. 

Terceiro: que tal ouvir a história dessas mães sem tempo para ler histórias ou cantar canções de ninar? O projeto poderia se chamar “A infância em tempos de zika”.

* Debora Diniz é pesquisadora na Anis - Instituto de Bioética e integrante da Rede Nacional de Especialistas em Zika e Doenças Correlatas, do Ministério da Saúde. É autora de 'Zika - Do Sertão Nordestino à Ameaça Global' (Civilização Brasileira)