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A História vai se lembrar

por Aline Valek publicado 17/05/2016 04h39
Ela não nos deixará esquecer que todo o barulho para mudar tudo foi, no fundo, um movimento para que tudo continuasse igual
Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Bruno Araújo

Bruno Araújo (PSDB-PE), o novo ministro das Cidades, fazendo "panelaço" na Câmara, em março de 2013

Vou me lembrar dos risos e fogos enquanto as coisas ruíam. O riso de quem só queria estar certo, não importando quão feio tivesse que ser o rasgo, ou quanta lambança precisasse ser feita apenas para que pudesse dizer “chupa” ou “bem feito” para o outro lado. 

Vou me lembrar da TV criando seu próprio roteiro e das pessoas acreditando nele, como se fosse novela, como se fosse propaganda – em vez de celebridade, foi âncora de jornal vendendo o produto em questão. 

Vou me lembrar da sinfonia de panelas orquestradas para dar força aos planos de alguns poucos, sob o disfarce de indignação geral. As mesmas panelas que calaram quando eram adolescentes apanhando da polícia, ou a periferia sendo massacrada, ou a merenda sendo roubada. 

Vou me lembrar de quem pediu pelos militares, vou me lembrar de quem aplaudiu torturador, vou me lembrar dos rostos de quem agrediu e cuspiu em pessoas que deram o azar de estar com a camisa da cor errada. 

Vou me lembrar dos votos de deputados sendo, sem nenhuma vergonha, endereçados aos seus parentes, esposas, filhos, como se dissessem “é por mim mesmo que estou fazendo isso”; mas tudo bem, todos os pecados serão perdoados, desde que praticados por alguém que defenda a sigla certa.

Vou me lembrar de um substituto que não poupou esforços, cartinhas vazadas e articulações nos bastidores para ascender ao poder sem votos. Vou me lembrar do cheiro de pizza voltando com força, das investigações voltando para a gaveta e das mulheres voltando para o seu lugar, não no poder, mas na beleza, no recato e no lar

Vou me lembrar de que todo o barulho e toda a confusão para que se mudasse tudo foi, no fundo, movimento para que continuasse tudo igual. 

Vou me lembrar porque a memória deles é fraca, mas meu nome é História. Hoje me negam, amanhã me repito. Já aconteceu antes. E, do jeito que continuam a me amassar, me jogar para debaixo do tapete, a se recusar a olhar na minha cara, vou acontecer de novo. E nem adianta me dar tchau.