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A era pós-PT

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 25/05/2016 12h11
Frente de esquerda não pode ser um projeto eleitoreiro que inclua parcerias com o PMDB em nome da governabilidade
Ocupação estudantil

Ocupação estudantil no Rio de Janeiro: novos atores políticos rejeitam a política tradicional

As experiências soviética e maoísta já nos ensinaram os efeitos nefastos da contenção da autocrítica. Acusar de traidor, vendido, revisionista e linha auxiliar do império são práticas bem conhecidas. Na China, em particular, a chantagem psicológica foi a principal arma de manutenção da Revolução Cultural – e de seu subsequente colapso. Censurada da reflexão crítica, a experiência socialista corroía-se por dentro. Sufocava-se. Tornava-se essencialmente burra. Autodestruía-se.

Não estou comparando o PT, o maoísmo e o stalinismo. Seria tanto anacrônico quanto vulgar. Meu ponto é unicamente lembrar que a autocrítica é o mais digno conceito marxista e, talvez, o menos empregado ao longo do curso histórico. Afinal, fazer autocrítica dói como remédio que se coloca sobre a ferida, mas ao mesmo tempo é a única forma de curar o machucado. 

A esquerda brasileira não vinculada ao Partido dos Trabalhadores (PT) tem estado em constante saia justa. “Linha auxilar do PSDB”, “coxinha disfarçado”, “isentão”, “dando um prato cheio para a direita” e “traidor” são termos banalizados que reproduzem o pior da história socialista.

Esses chavões são usados contra toda e qualquer possibilidade de se refletir criticamente sobre rumos tomados pelo PT ao longo de sua história de institucionalização e tomada de poder. 

Ao contrário do ódio ao PT que move uma parcela da população brasileira, existe uma outra parcela – com a qual me identifico – que não é movida por este ódio, que se colocou contra o golpe e que gostaria de expressar suas críticas, justamente por entender que o partido possui um papel crucial na democracia e na esquerda brasileira.

“Mas agora não é a hora”

... diriam alguns. Mas eu pergunto: quando é a hora? Faz três anos que não é a hora. Primeiro foram os protestos de 2013. Depois veio a Copa do Mundo. Todo mundo que criticou os custos humanos do empreendimento tornou-se vira-lata: “roupa suja de lava em casa”.

No segundo turno das eleições presidenciais também não era a hora. Era preciso barrar o avanço da direita e o retrocesso das conquistas sociais. No impeachment, muito menos. Depois do golpe, criticar é jogo sujo.

Eu discordo dessa forma de pensamento. Nunca foi tão importante ouvir críticas como agora. Não há como sair desse caos em que nos enfiamos sem olhar para trás. Mesmo que doa. 

O PT sofreu um golpe – e dos mais sórdidos que existem. Também está claro que o ilegítimo governo Temer irá, em nome de um pacto pelo Brasil, ajudar a desmontar as conquistas sociais alcançadas nos últimos anos. E, sim, é preciso resistir. Esta é a posição da maior parte da esquerda com a qual tenho contato entre as mais variadas correntes.

Da mesma forma, a grande maioria dessa esquerda manifestou-se contrariamente ao impeachment. A luta contra o golpe tem sido essencial porque busca manter o que foi conquistado, lida com as forças mais retrógradas que governam o País há séculos e, principalmente, tenta resgatar o que sobra de dignidade das instituições democráticas. 

Todavia, nenhuma luta pode ser cega, sem compreender – e principalmente assumir – os erros que levaram a esse processo. Não se pensa o futuro, tampouco se resiste o presente, sem olhar para o passado. A política não é, nem nunca foi, preto ou branco – ainda que diversas forças políticas queiram que acreditamos que é.

Resistir e criticar são faces de uma mesma moeda de um pensamento sistêmico, estrutural e holista – o qual responde a uma política complexa que não é feita de azuis contra vermelho, mas de alianças que desafiam qualquer binarismo que tenta se impor nas redes sociais. 

Viramos um bando de mesquinhos e ressentidos do estilo “eu avisei”. Compartilham-se boatos, notícias antigas, ameaças e gera-se o medo – o mesmo medo que o próprio PT já foi vítima. 

A esquerda sempre criticou a ideia de que os brasileiros são um povo sem memória. Mas de repente, emerge uma brutal romantização, pasteurização e a compressão de diversas camadas interpretativas acerca do governo do PT – especialmente após o golpe. Temos um mundo de vítimas e vilões.

De repente, esquece-se que vítimas e vilões fizeram grandes acordos. Esqueceu-se Belo Monte, o alinhamento neoliberal com o capital financeiro, as alianças políticas podres em nome da governabilidade. Esqueceu-se Sarney, Ana de Hollanda e Kátia Abreu. Esquece-se que aqueles que hoje golpeiam e estrelam novos escândalos foram um dia aliados estratégicos do governo: de ministros a vice-presidente.

Esqueceu-se que o PT tentou fazer de tudo, até o último momento, para garantir as alianças que lhe dessem votos favoráveis na votação do impeachment. Esqueceu-se, mas os cortes na educação aconteceram durante a austeridade implementada pela Dilma, que havia prometido em debate eleitoral que não haveria arrocho. 

Por outro lado, como o mundo não é binário e as análises podem ser nuançadas, ninguém nega a importância do Bolsa Família, que foi um fator decisivo na luta contra a fome, do ProUni, das cotas, do incentivo à pesquisa científica e às artes, da abertura de novas universidades e de tantas outras conquistas históricas que que o PT ajudou a construir ao lado dos movimentos sociais, as quais foram responsáveis por fazer tremer as estruturas da desigualdade social pela primeira vez na história.

A questão, portanto, é buscar incessantemente por análises menos fervorosas e mais estruturais. E isso passa pelo entendimento de que o PT tentou conciliar diversas forças, por vezes inconciliáveis, acenando para os movimentos sociais, de um lado, e articulando com o capital financeiro internacional, de outro.

O FIES é um dos melhores exemplos nesse sentido. Os conglomerados internacionais da educação foram os que mais ganharam com o financiamento do governo, mas é igualmente verdade que foi por meio desta política neoliberal que pela primeira vez na história do Brasil os filhos da classe trabalhadora se diplomaram. São processos complexos que escapam da simplicidade da análise binária. Todo binarismo é burro. Todo binarismo é falso.

O futuro da esquerda na era pós-PT

A era pós-PT não é a era do fim do PT, mas, quem sabe, a busca de suas melhores origens. A tão necessária frente de esquerda precisa do PT, assim como o PT precisará voltar, humildemente, para seus velhos companheiros não apenas para pedir apoio eleitoral, mas para lutar por uma agenda socialista e progressista de fato – de fato e de raiz.

Refiro-me à ação política das bases e para as bases, seja com movimentos de longa tradição de luta – pela reforma agrária e direitos indígenas e quilombolas – seja com os movimentos de vanguarda de ocupações de escolas e moradia urbana.

Nos movimentos sociais que pulsam hoje no Brasil, há um descrédito nas forças partidárias e um clamor por rupturas radicais com o capital e com o patriarcado. A era pós-PT é marcada pela diversidade de todos esses movimentos, mas também por pontos em comum: essas lutas tendem a ser mais horizontais nas relações de poder e a demandar mais commons em relação à propriedade de bens, ideias e símbolos. 

É preciso que a era pós-PT rompa com o que Richard Days chama de hegemonia dos próprios movimentos sociais, cujas estruturas internas eram marcadas pela reprodução da verticalidade, do autorismo e das práticas de poder que condenavam. Tudo indica que a polarização, a disseminação de boatos, as alianças governistas e a chantagem “linha auxiliar da direita” são táticas que não funcionam mais e tendem a repelir uma parte da esquerda que procura se reinventar na prática. 

É evidente que o momento é de luta – e que é preciso apagar fogo aqui e acolá. É preciso lutar contra o desmonte do que se garantiu no passado. Mas são nas brechas desse momento histórico de colapso que temos de pensar e construir o que queremos em alguns pilares básicos. Se é possível uma frente de esquerda, isso não pode ser um projeto eleitoreiro que vá acabar no “segura as pontas aí que precisamos do PMDB para governar”.

O rompimento com a governabilidade e a realpolitik pode ser utópico, mas é da utopia e do radicalismo que a esquerda constrói seus alicerces, porque, no final das contas, tratam-se de princípios éticos que não queremos abrir mão.  

Quais são os pilares que podem fundar uma agenda ampla da frente de esquerda? No plano social, quais as políticas sociais que queremos manter e como queremos avançar? No plano político, quais são as alianças que queremos construir e, principalmente, quais não aceitaremos novamente?

No plano econômico, quais são os grupos que queremos investir? A quem queremos taxar? Como queremos incluir as camadas populares? Pelo consumo ou pela educação crítica? No plano geopolítico, qual o papel que o Brasil deve ocupar no mundo Sul-Sul? Potência ou parceria na periferia do sistema mundial?

No plano cultural, quais são as nossas histórias passadas, diversas e coloridas, que nos fundam enquanto uma sociedade comum e diversa? Qual é o currículo escolar que queremos construir?

Conquistas enormes já foram alcançadas nestes últimos anos de governo do PT na construção de uma agenda progressista em torno desses pilares. Mas também é verdade que isso teve um alto custo que uma parte da esquerda não aceita mais pagar.

E aqui é importante lembrar que não é só a esquerda que não quer pagar certos custos da governabilidade. A maioria da população brasileira está desencantada com a política tradicional e precisamos pensar alternativas para todos os setores da sociedade. Precisamos ser menos endógenos. 

O momento atual tem sido marcado por lutas diversas. É propício para superar o binarismo, o saudosismo e buscar a construção de uma esquerda que, de forma integrada tenha uma agenda sólida, ampla, solidária e horizontal – e que não abra mão de princípios éticos, tampouco da utopia radical.

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