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A agonia dos tucanos

por Lindbergh Farias publicado 13/04/2016 09h22, última modificação 13/04/2016 09h26
Caso haja impeachment, o PSDB comporá a coalização de poder como força secundária e subalternizada
George Gianni / PSDB
Aécio Neves

Sob o comando de Aécio, o PSDB partiu para o lacerdismo, e o máximo que conseguirá é uma posição subalterna ao PMDB

Logo que acabaram as apurações das eleições de 2014, com a presidenta Dilma Rousseff (PT) reeleita, o candidato perdedor, Aécio Neves (PSDB), em associação com as cabeças coroadas do comando tucano, tomou uma decisão temerária: extrapolar a medida de oposição política ao governo

Não bastava mais questionar projetos e programas do governo. Era preciso também inviabilizar o novo mandado, como se tivesse baixado nas lideranças tucanas, em pleno século XXI, o espírito histórico das aves agourentas do lacerdismo e do udenismo golpista, que inviabilizaram o mandato de Vargas e derrubaram Jango. A presidenta não poderia ser candidata, se eleita não poderia tomar posse, se tomasse poderia não poderia governar. 

A decisão temerária dos tucanos completou um ano e meio. Já se pode fazer um balanço provisório dos resultados da decisão tomada em novembro de 2015.

A linha definida foi adotada com inédita determinação de propósitos. No entanto, em que pese a persistência, na hora de começar a colher os frutos a decisão começa a se revelar à luz do dia um imenso fracasso político. Em vez de alçar voo, os tucanos entraram em agonia. 

No sábado 9, começou a circular na internet uma nova pesquisa do instituto Datafolha sobre as eleições presidenciais de 2018. Dois dados se sobressaem da pesquisa: 1) a liderança de Lula, mesmo depois de ter sido vítima do maior linchamento moral já sofrido por um político brasileiro em todos os tempos; 2) o impressionante contraponto da queda vertiginosa de todos os pré-candidatos do PSDB - principalmente Aécio Neves - na preferência do eleitor brasileiro.

Abordei o êxito de Lula nas pesquisas recentes em artigo passado. Doravante, neste artigo, cuido de analisar o fracasso do PSDB. 

Entre dezembro/2015 e abril/2016, Aécio Neves caiu dez pontos percentuais (de 27 a 17%), Geraldo Alckmim, cinco pontos (de 14 a 9%) e José Serra, quatro pontos (de 15% a 11%).

O que a mídia não mostrou é que a queda dos tucanos – principalmente de Aécio Neves – começou bem antes, precisamente no quarto trimestre do ano passado, e é muito maior do que o apresentado jornal Folha de S Paulo.

Certamente por decisão editorial camarada, o jornal recuou a base de comparação para dezembro/2015, quando poderia recuar a junho/2015.

Segundo dados do Datafolha de junho/2015, Aécio tinha robustos 35%. Chegou ao apogeu e depois só fez declinar. Em menos de um ano, derreteu de 35% para 17%. Caiu extraordinários 18 pontos.

Os dois outros contendores internos, Alckmin e Serra, também declinaram, demostrando que os candidatos tucanos não estão se credenciando como alternativas com expectativa de poder factíveis em 2018. 

Suprema ironia, quanto mais oposição sem trégua nem princípios fez a Dilma e o PT, mais o PSDB declinou.

Depois de vinte anos e cinco eleições presidenciais de polarização conosco, cogito da hipótese de trabalho, a ser confirmada, que esteja se configurando uma realidade política nova no Brasil e outros protagonistas comecem a ocupar o espaço antes cativo dos tucanos. 

Embora desprovido de vida orgânica permanente e não poder ser considerado um partido efetivamente nacional (a força de São Paulo, por exemplo, não se repete no Rio de Janeiro), o PSDB passou a ocupar ao longo dos anos um espaço neoliberal e cosmopolita, integrado à rede do capital nacional e internacional.

Arrebanhou representatividade eleitoral, além de adesão ideológica, em redutos da classe média alta e setores profissionais bem remunerados. No Nordeste e no Norte, recebeu adesão de oligarquias tradicionais.  

Penso haver elementos globais e nacionais na tendência de derretimento dos candidatos do PSDB nas eleições presidenciais. Sucede que esse tipo de partido de falso cosmopolitismo e programa neoliberal encontra-se em crise de legitimidade no mundo inteiro, especialmente após a crise econômica de 2008. Não parece ser diferente no Brasil.

No tocante às vicissitudes nacionais, as trapalhadas tucanas começaram quando apostaram, de modo oportunista, nas mobilizações de rua sem demarcar campo na frente única praticamente concertada com os segmentos neofascistas que pregavam a intervenção militar e os porta-vozes dos valores morais mais ultrapassados.

Enquanto a sociedade se divida em relação à democracia ou à ditadura e às vedações fundamentalistas às liberdades, o PSDB mantinha o pensamento fixo em derrubar o governo de qualquer maneira, instrumentalizando neofascistas e fundamentalistas morais para uma causa institucional restrita.

Por outro lado, a Frente Brasil Popular, o PT e a esquerda fizemos exatamente o inverso dos tucanos: compramos a briga de valores e não nos intimidamos em proclamar a nossa identidade histórica de esquerda. Resultado: para surpresa de muitos analistas apressados, que nos davam como liquidados, nosso movimento de massas ganhou fôlego novo e começou a crescer. 

Os tucanos foram mordidos pelo veneno da serpente que cultivaram no ovo. Nas manifestações de direita do dia 13 de março, as lideranças do PSDB e DEM foram vaiadas em palanques Brasil afora.

Em São Paulo, Aécio e Alckmin nem no palanque subiram. Voltaram, escorraçados e apupados por manifestantes irados, no meio do caminho da Avenida Paulista.

Em outro diapasão, com o objetivo de destruir-nos e livrar a si mesmos, escribas tucanos buscaram propagar a narrativa insustentável do PT como uma “organização criminosa”. Logo se esclareceu que a corrupção de fato é um cancro incrustado no sistema político brasileiro.

Em pesquisa recente do Instituto Vox Populi, 70% dos entrevistados responderam que a corrupção é sistêmica, derruindo a narrativa tucana. A propósito, vale a pena parafrasear um dos procuradores responsáveis pela Operação Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, para quem os governos anteriores aos do PT obstruíam as investigações.      

No mundo inteiro, a polarização política vem se deslocando para os extremos. No Brasil, conquanto esteja acontecendo, esse deslocamento é mais complicado por que aqui temos um centro político institucional e fisiológico – representado pelo PMDB e demais condôminos do presidencialismo de coalizão –, que dominam a Câmara e o Senado.

Por mais que mereça repúdio, não é por obra do acaso que o presidente da Câmara atenda pelo nome de Eduardo Cunha. 

Ao apostar no impeachment e com pré-candidatos despencando, caso o golpe seja vencedor (e não vencerá), o PSDB comporá a coalização de poder como força secundária e subalternizada, entregando de bandeja as batatas do Estado brasileiro a um governo natimorto e maculado sob o comando de um presidente ilegítimo – Michel Temer, que, pasmem, detém 1% de intenção de votos e 58% de rejeição.

A ficha caiu tarde, tucanos.

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