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“Lutarei até o último minuto contra golpe”, diz Dilma

por André Barrocal publicado 13/04/2016 15h22, última modificação 13/04/2016 15h40
Em entrevista, presidenta chama Cunha e Temer de sócios e promete pacto “sem vencidos e vencedores” se derrotar impeachment
Roberto Stuckert Filho / PR
Dilma Rousseff

Dilma Rousseff acena para apoiadores em evento na terça-feira 12, em Brasília

Quando caiu nas mãos da ditadura, Dilma Rousseff era levada de um lado para o outro por agentes da repressão, para ser torturada. Um dia era na Oban, no outro no Dops, depois no Presídio Tiradentes. “Você ia pensar o quê: não tem saída, isso é assim para sempre? É assim que você encara isso? Não é assim, não. Você encara se você tiver esperança.”

Às vésperas da votação do impeachment, o estado de espírito da presidenta é o mesmo. Apesar da crescente debandada de partidos e deputados de sua “base aliada”, com a oposição no Congresso eufórica e à beira do “já ganhou”, Dilma garante: “O governo vai lutar até o último minuto” contra o que considera um “golpe”. 

O recado foi dado na manhã desta quarta-feira 13, durante uma entrevista no Palácio do Planalto para dez veículos de comunicação, CartaCapital entre eles.

Na conversa de cerca de duas horas, Dilma mostrou-se firme e segura quanto a seu futuro, ânimo que em nada combina com o sentimento captado entre os deputados. “Nessa reta final, estamos sofrendo e vamos sofrer uma guerra psicológica” com o objetivo, segundo ela, de produzir um “efeito dominó” interessado em tornar irreversível a derrota dilmista no domingo 17. 

Uma esperança, de acordo com a presidenta, alimentada por números e mapas de votos preparados dentro do próprio Planalto, a indicar a impossibilidade de os defensores do “Fora Dilma” alcançarem os 66,6% dos votos necessários na Câmara. Até agora, disse ela, o único indicativo real existente são os 58% obtidos pela oposição na comissão especial do impeachment.

Na entrevista, a presidenta afirmou que não seria “bem comportada”. E cumpriu a palavra ao falar da dupla peemedebista Eduardo Cunha, presidente da Câmara, e Michel Temer, vice-presidente da República, chamados por ela publicamente de “chefe e vice-chefe do golpe”. 

“Uma das questões mais perversas dessa história é quem comanda o meu processo”, disse ela, referindo-se a Cunha. “Mas o mais grave não é que ele presida o impeachment. É que a proposta que está na mesa contra a minha permanência no cargo de presidente tem ele como vice. Ele será o vice-presidente da República. E tem com o atual vice uma relação de profunda sociedade”. 

Réu por corrupção e lavagem de dinheiro, alvo de um pedido de afastamento do cargo e do mandato de autoria do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, Cunha dá as cartas no impeachment. Enviado em dezembro ao Supremo Tribunal Federal, o pedido de Janot, que já classificou o deputado peemedebista como “delinquente”, ainda não foi julgado pelo STF.

Caso escape da cassação, Dilma diz que sua primeira iniciativa será propor um pacto nacional “sem vencidos e sem vencedores”. Um chamamento ao País, inclusive à oposição, para que todos recolham as armas. “A crise é muito forte para a saída não ser um pacto”, afirmou.

Dilma destacou dois pontos do pacto. O primeiro é a reforma política. Sem dificultar a criação de partidos (hoje existem quase 30 representados no Congresso) e sem um reordenamento dos atuais, nenhum governante terá sossego. “O sistema político brasileiro hoje se mostra muito receptivo a expedientes golpistas inconstitucionais. Por quê? Porque ele é frágil.” 

Curiosamente, é esse mesmo sistema que está prestes a derrubar Dilma. Caso ela vença a batalha do impeachment, terá de continuar o mandato lidando com o mesmo sistema. Daí a necessidade de um pacto “sem vencidos e sem vencedores”.

O outro ponto do pacto seria uma reforma tributária que ataque a injustiça tributária brasileira. Um regime conhecido mundialmente por sua regressividade, a cobrar mais impostos sobre consumo, algo punitivo dos mais pobres, do que da renda ou do patrimônio, em que o ônus pesa mais sobre os ricos. “Este país está muito calmo porque teve uma redução brutal da desigualdades.”