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Uma cerca de segregação

por Gabriel Bonis publicado 30/08/2012 11h04, última modificação 06/06/2015 18h19
País testa fronteira virtual na divisa com o México, onde placas mostram aos "ilegais" que o caminho para o vizinho latino é só de ida
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A placa em San Diego (Califórnia) indica: o caminho para o México é só de ida. Foto: Gabriel Bonis

Enquanto a economia dos Estados Unidos ainda apresenta reflexos negativos da crise mundial (um fator que pode custar a reeleição de Barack Obama), o governo anunciou na última semana testes de uma “cerca virtual” na fronteira com o México. O projeto SBInet já teve gastos de 1 bilhão de dólares e tentativas semelhantes que foram interrompidas duas vezes devido à ineficiência e alto custo para cobrir apenas 85 dos 3.185 quilômetros da região limítrofe entre os países.

A nova tentativa, aprovada por George W. Bush há cerca de seis anos, é testada no Arizona. Um estado que criou em 2010 a primeira lei a criminalizar a imigração ilegal, permitindo à polícia local deter suspeitos sem documentos em ordem. A iniciativa parou na Suprema Corte dos EUA, que derrubou diversos artigos, mas manteve a autorização para abordar suspeitos nas ruas.

 

 

A intenção do projeto é substituir os agentes em toda a fronteira por um sistema composto por radares, câmeras e sensores infravermelhos disfarçados de rochas. Sensores detectariam movimentos suspeitos e alertariam patrulhas com a localização exata do ocorrido. Isso diminuiria a necessidade de policiais nestas regiões, que chegam a 21,5 mil atualmente. O problema é que o vento forte dificulta que os aparelhos definam claramente o que é uma pessoa, além de enviar dados de maneira lenta.

O país ainda pretende investir 750 milhões de dólares na vigilância da fronteira com o México até 2020. Iniciativas em favor da segurança interna, mas que também refletem uma fobia a imigrantes ilegais (e pouco qualificados) capaz de justificar construções ineficazes e segregadoras. A mais famosa delas se consolida em dois muros entre a organizada San Diego, na Califórnia, e a caótica Tijuana, no México. Duas paredes tão altas quanto seu simbolismo.

Há cerca de um ano, percorri alguns quilômetros da região na companhia de Enrique Morones, um orgulhoso filho de mexicanos responsável pela ONG Border Angels (Anjos da Fronteira, em tradução livre). A organização trabalha com a população imigrante e, até pouco tempo, era famosa por deixar agasalhos, garrafas de água e alimentos não perecíveis no deserto para evitar mortes durante travessias. Pois comete um erro fatal quem pensa que o deserto é sempre quente. “As pessoas vêm do México achando que o clima é ameno, mas morrem de hipotermia quando chega a noite”, diz.

Morones é relativamente conhecido nos EUA, principalmente entre a comunidade latina. E não perde a oportunidade de contar ter recebido das mãos do presidente do México a cidadania da terra natal dos pais em 1988. O ativista comanda um programa de rádio sobre direitos humanos e ajuda a manter sua ONG com palestras e a venda de camisas com dizeres como “Você deportaria Jesus?”, a 25 dólares cada. Acomodada em uma pequena sala num centro comunitário de San Diego, a organização agora foca seu trabalho no tratamento psicológico e aulas de inglês para imigrantes.

Marcamos uma entrevista no estacionamento de uma loja Home Depot, de produtos de construção e utensílios domésticos, a cerca de 20 minutos do centro da cidade. Chovia forte e havíamos combinado de ir à fronteira de Tijuana. Morones me daria uma carona, pois eu havia quebrado o tornozelo e andava com dificuldades.

Ali perto, encostados em árvores do estacionamento, um grupo de imigrantes conversava em espanhol. O entusiasmo ficou evidente quando Morones foi avistado. O ativista escolheu aquele local para conversamos por ser um dos pontos de sua rota de distribuição de água, alimentos, roupas e também convivência com esta população. E, aproveitando a presença ilustre, um dos homens relata ter sofrido preconceito de um segurança da loja ao lado. Conta em tom exaltado que o homem o ofendeu e ameaçou prendê-lo apenas por ser um “ilegal”. Um senhor se junta ao grupo para também reclamar do funcionário. “Ele não nos deixa parar nossos carros no estacionamento, nem mesmo quando está vazio. E o pior é que ele é mestiço, é meio mexicano.” Morones interrompe a conversa e me diz que seu trabalho também envolve solucionar casos de intolerância. “Vamos cuidar disso, falaremos com a administração.” A conversa continua animada por mais alguns minutos, filmada por um grupo de documentaristas canadenses.

Partimos para a fronteira. No carro, o ativista menciona um cemitério no entorno de San Diego, famoso por ser o destino de indivíduos encontrados mortos no deserto. Os John e Jane Does, como são apelidados os indigentes nos EUA, preenchem 700 túmulos na cidade Holtsville, no Vale Imperial. Presume-se que a maioria deles tenha vindo do México ou da América Central.

Um cenário de mortes em travessias que começa a diminuir. Isso porque o número de pessoas que tentam cruzar ilegalmente a fronteira do México para os EUA tem caído nos últimos anos. Segundo dados da organização Pew Hispanic Center, menos de 100 mil pessoas fizeram o caminho em 2010, contra os 525 mil/ano entre 2000 e 2004. Naquele ano, os “sem documento” nos EUA somavam 11,2 milhões, mas haviam sido 12 milhões em 2007.

Essa queda reflete a intensificação do policiamento na fronteira, mas outros fatores têm maior peso nesta conta. Entre eles, a redução dos empregos nos EUA devido à crise econômica e as melhores perspectivas de vida em países emergentes como o México - de onde vêm 90% dos indivíduos que tentam passar ilegalmente para o lado norte-americano. Sem perspectiva de trabalho, esse interesse despenca. O que fica evidenciado nos números do Pew Hispanic Center: em 2010, 8 dos 12 milhões de imigrantes ilegais tinham empregos, compondo 5,2% da força de trabalho do país. Antes da crise mundial, eram 8,4 milhões. “Às vezes há menos desemprego do lado de lá. E as pessoas vêm para cá apenas para trabalhar”, diz Morones, apontando em direção aos portões de Tijuana.

No estacionamento de um dos shoppings mais movimentados de San Diego, é possível avistar as duas cidades. Separadas por um muro de concreto cuja extensão desaparece aos olhos em meio aos morros. Na parte mais baixa, outro muro enferrujado corta o terreno do centro de compras.

Paro para tirar algumas fotos. Morones avisa que esse é um comportamento comum aos coiotes, que tentam identificar falhas de segurança e os melhores locais de entrada. Por isso, costuma chamar a atenção dos guardas de fronteira. O ativista pede que nos movamos para evitar uma abordagem. Deixamos o local rapidamente.

 

 

Uma estrada pouco movimentada é o caminho para os muros. Pequenas chácaras repletas de animais ficam para trás, enquanto imensas muralhas surgem no horizonte. No espelho retrovisor, um movimento intenso de carros, motos e quadriciclos de oficiais da fronteira. São comuns também os faróis de luz, semelhantes aos de estádios de futebol, apontados para os morros a fim de permitir que as autoridades identifiquem “intrusos” durante a noite.

Chegamos a um dos pontos limítrofes da estrada, de frente a um paredão de 20 metros de altura. Na verdade, trata-se de uma montanha esculpida para criar um foço que recebeu em seu topo um muro. Mas nada humanamente insuperável. “Os imigrantes costumam lançar uma corda do outro lado e descem em menos de um minuto”, diz o ativista. “São 50 milhões de dólares para construir algo que têm um impacto ambiental imenso.”

Perto dali, um túnel havia sido encontrado (e dinamitado) dias antes sob a suspeita de ser usado para o tráfico de drogas dos carteis mexicanos. “Os EUA têm muito a ver com o problema. Mais de 50% das drogas do mundo terminam aqui e ainda acham que a culpa é da Colômbia.”

 

 

Morones faz questão de mostrar para onde vão os imigrantes pegos durante e após a travessia. Em uma movimentada avenida, avista-se um estacionamento com portões brancos a, literalmente, uma ponte de distância do México. Do local, partem ônibus que cruzam a fronteira para deixar os detidos. Àquela época, o ativista trabalhava para mudar o lado do portão e evitar a humilhação de outras pessoas verem as deportações. “A maioria deles sequer tem uma ficha criminal.”

Enquanto dirige, o ativista critica o governo de George W. Bush por “incitar o ódio aos imigrantes” e aponta um exemplo de tolerância: National City, no Condado de San Diego. Desde 2006, o local é um santuário de imigrantes. Lá, não há perseguição por guardas e nenhuma autoridade perguntará sobre o status de uma pessoa. “A polícia pode até pedir os documentos, mas a prefeitura não apoia isso.”

Um cenário bem parecido com uma fronteira do outro lado dos EUA. A região limítrofe com o desenvolvido Canadá, sempre entre os líderes mundiais em qualidade de vida, recebe pouca atenção. E ignorá-lo pode ser mais perigoso. Um estudo do governo norte-americano divulgado em 2011 mostrou que os 6,5 mil quilômetros da fronteira são mal monitorados e possuem graves problemas de vulnerabilidade.

As autoridades tomam conhecimento de travessias ilegais em apenas 25% da fronteira canadense. Além disso, existiam apenas 51 quilômetros de fronteira com “um nível aceitável de segurança” em 2010. Os oficiais norte-americanos externaram no documento, inclusive, a preocupação de que a fronteira com o Canadá possibilitasse acesso mais fácil a terroristas que a mexicana.

Recordo então de uma memorável pergunta de Morones: “Se os mexicanos são tão perigosos, porque os americanos construíram um shopping no meio da fronteira?”

 

 

 

Confira abaixo uma galeria de imagens da fronteira entre San Diego e Tijuana:

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