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Natal

Tristes festas para os cristãos da Síria

por AFP — publicado 24/12/2012 06h57, última modificação 24/12/2012 08h00
Em uma faixa em Damasco lê-se: ‘Papa, feliz Natal do país onde Assad matou Papai Noel’
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Manifestação opositora em Kfar Nubu, dia 21. Na faixa: 'Papa, feliz natal da Síria, a terra onde Assad matou papai Noel'. ©afp.com / Ho

DAMASCO (AFP) - Os cristãos da Síria, país dilacerado pela violência há mais de 21 meses, se preparam para celebrar o Natal em meio ao medo do caos e da ascensão dos islamitas.

"Não tenho motivos para comemorar quando perdi parentes" na violência, que já fez mais de 44.000 mortos segundo uma ONG síria, afirma George, de 38 anos, um contador de Damasco.

Como a maioria das pessoas entrevistadas, ele prefere permanecer discreto e anônimo.

Maryam diz ter medo de uma mudança de regime e a ascensão desses "terroristas armados", que poderiam obrigá-la a "usar o véu e não trabalhar para ficar em casa", referindo-se às reportagens da televisão que apresentam os rebeldes como "grupos terroristas armados ".

Já Nadine, depois de muito tempo de espera, apresentou um pedido de visto para os Estados Unidos.

Quando os combates se aproximaram de sua casa, o exílio se impôs a esta engenheira de 40 anos, uma vez que ela não vê "nenhuma solução para o país", onde apenas as armas falam.

Para Michel, empregado no setor de turismo, "a situação não pode continuar assim", mas em todos as possibilidades consideradas, ele teme que os cristãos sejam os maiores perdedores.

Como muitos, ele mantém em mente o trauma do Iraque, onde a comunidade cristã tem sido duramente atingida pela ascensão do islamismo radical, após a invasão dos Estados Unidos em 2003.

De acordo com o pesquisador francês Fabrice Balanche, 80% dos sírios são sunitas, cerca de 10% alauítas, um ramo do xiismo que é a confissão do presidente Bashar al-Assad, 5% cristãos, 3% drusos e 1% ismaelitas.

Com 1,8 milhões de fiéis, a comunidade cristã permaneceu em geral distante da revolta, que se transformou em um conflito armado. Sua hierarquia e grande parte da comunidade, por medo dos islamitas, tomaram posição a favor do regime.

Sábado, o chefe da Igreja Ortodoxa Grega da Síria, Yazigi Youhana, Patriarca de Antioquia e de todo o Oriente, reiterou que "os cristãos (vão permanecer) na Síria", enquanto as Nações Unidas descreveram recentemenete o conflito como "abertamente inter-religioso".

No mesmo dia, um batalhão rebelde ameaçou atacar duas cidades cristãs, caso seus moradores não expulsassem os soldados do exército.

Em Qassaa, um bairro central da capital predominantemente cristão, muçulmanos e cristãos costumavam vir de longe para fazer compras e admirar as decorações de Natal. Este ano, as ruas estão vazias e nenhum ornamento foi colocado para fora de casa.

Para Bassem, a crise econômica e a inflação são os maiores responsáveis. "Eu nem sequer fui capaz de comprar roupas e brinquedos para os meus filhos", disse.

Segundo a imprensa estatal, a inflação reduziu em um terço o poder de compra dos sírios, enquanto o embargo e as sanções econômicas provocaram o aumento dos preços em até 65%.

Mas, além da economia, há insegurança. Aleppo (norte), palco há cinco meses de uma guerra urbana, "muitos cristãos fazem suas orações em casa, em vez de irem à igreja", lamentou Nassir Ibrahim, chefe da Igreja Evangélica Árabe.

"Os cristãos são parte integrante da sociedade síria. Se as pessoas têm medo de ir à missa de Natal não é porque eles têm medo de que as igrejas sejam alvos, mas por causa da insegurança" em geral, acrescentou.

Para outros, é impossível festejar após a perda de entes queridos.

"Quase todas as famílias, a favor ou contra o regime, perdeu alguém. Mesmo aqueles que são neutros foram afetados", disse Rand Sabbagh, contatada pela AFP via internet a partir de Beirute. Seu companheiro, o cineasta e ativista Chehade Bassel, foi morto em maio, em Homs (centro).

"Alguns pensavam que o que está acontecendo na Síria não tinha nada a ver com eles, ou que nada lhes aconteceria. Nós nunca imaginamos que veremos a morte tão perto".

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