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Tragédia teve motivação política e ajuda da polícia, diz Irmandade Muçulmana

por Redação Carta Capital — publicado 02/02/2012 10h36, última modificação 02/02/2012 15h09
Confrontos entre torcidas depois de jogo de futebol deixaram 74 mortos. Jogador brasileiro que estava presente relata cenas de horror

Com circunstâncias ainda desconhecidas, os confrontos entre torcidas após um jogo de futebol na cidade de Port Said, no norte do Egito na quarta-feira 1 podem ter tido motivações fora do esporte. Segundo a Irmandade Muçulmana, um dos principais grupos políticos e protagonista dos movimentos que derrubaram o ex-ditador Hosni Mubarak, a polícia local foi negligente e não agiu para conter os conflitos.

Após o anúncio de três dias de luto nesta quinta-feira 2, o ministro do Interior, Mohamed Ibrahim,  destituiu o secretário de Segurança de Port Said, Esam Samak, devido aos acontecimentos. Segundo a BBC, o governador do distrito, que representa o clube, também renunciou e Samak e o chefe de investigação local estão sob custódia. O dirigentes do time Porto Said também já deixou o cargo. O primeiro-ministro  Kamal Ganzuri reconheceu ser o responsável político pela briga.

O caos explodiu após o fim da partida entre Al-Masry e Al-Ahly, que terminou com vitória de 3 a 1 do Al-Masry, equipe do Cairo.

Centenas de torcedores do Al-Masry, clube de Port Said, invadiram o gramado e atiraram pedras e garrafas contra os torcedores do Al-Ahly. Ao menos 74 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas, de acordo com a rede árabe Al Jazeera.

O Exército foi mobilizado na cidade, próxima a entrada norte do canal de Suez, para evitar novos confrontos. A polícia anunciou a prisão de 47 pessoas, que estão sendo interrogadas.

Um deputado da Irmandade Muçulmana exigiu a renuncia do ministro do Interior, culpando-o pelas mortes e outro integrante do Parlamento acusou a guarda de segurança de permitir a entrada de torcedores no estádio com armas.

O Partido Liberdade e Justiça,  que lidera o Parlamento do país, atribui a responsabilidade do conflito a partidários do ex-ditador Hosni Mubarak, deposto há há um ano durante a Primavera Árabe.

A briga teria começado com ameaças do time vencedor, Al-Masry, o que levantou suspeitas sobre um grupo infiltrado na torcida para inicitar o conflito. A torcida do Al-Ahly, conhecida como “Ultras”, participou ativamente das movimentações políticas de 2011.  Essam el-Erian , parlamentar da Irmandade, afirmou que a polícia e o exército são cúmplices da tragédia. Os jogadores do Al-Ahly também sofreram agressões e ficaram presos no vestiário durante o confronto.

Segundo a CNN, dezenas de testemunhas dizem que a polícia não interveio, além de ter colaborado para o massacre. "Os oficiais se recusaram a abrir os portões do estádio para que não pudéssemos escapar e fossemos obrigados a enfrentar milhares de hooligans do Al-Masry”, disse um torcedor do Al-Ahly.

O veículo americano ainda cita outras testemunhas que criticam a demora na chegada de ambulâncias para o resgate.

Em um depoimento para a BBC, um torcedor do al-Ahly disse que ele e outras pessoas ficaram trancadas em um túnel com as luzes desligadas enquanto recebiam disparos de balas de borracha. “Havia um jovem de 17 anos ao meu lado. De repente, ele estava no chão com um espeto em sua cabeça e seu olho estourado.”

O jogador brasileiro Fábio Jr., do Al-Ahly, estava na partida. Em entrevista ao portal Ig, ele conta ainda estar chocado com a imagem de corpos chegando ao vestiário. Quando acabou a partida e a confusão teve início, o brasileiro relata ter corrido para o local, onde o time ficou preso durante todo conflito e só saiu seis horas depois em tanques do exército. Dezenas de corpos foram levados para lá, segundo ele. Durante o tempo em que ficaram presos, torcedores tentaram invadir o local.  “Era muito tenso, porque a gente ouvia gente tentando invadir o vestiário também. Achei que o pior ia acontecer”, diz ele.

Há oito meses no time, Fábio Jr. acredita que o episódio tenha relação com a queda de Mubarak. Para o jogador, há muita gente insatisfeita com a prisão do ex-presidente. Ele deve voltar ao Brasil em breve. No Egito, afirma, não joga mais.

Após o ocorrido no estádio, protestos contra a violência tomaram as ruas do Cairo. Manifestantes interromperam o transito nas principais avenidas da capital do país, bloquearam as ruas próximas ao prédio da televisão estatal e a Praça Tahir, símbolo da revolução contra Mubarak.

O primeiro-ministro Kamal al-Ganzouri disse em uma sessão de emergência no parlamento para discutir o ocorrido que os confrontos podem colocar a revolução egípcia em risco.

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