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Gianni Carta

Rumo a uma nova revolução na Tunísia?

por Gianni Carta publicado 08/02/2013 11h39, última modificação 09/02/2013 08h46
Diante de protestos devido ao assassinato de oposicionista, um governo de união nacional deveria antecipar pleito

O futuro da Tunísia, onde há dois anos teve início a Primavera Árabe, é uma incógnita. O assassinato na quarta-feira do líder da oposição, o advogado de direitos humanos de esquerda Chokri Belaid, foi o estopim para os confrontos entre manifestantes e policiais em Gafsa, no centro do país – e Tunísia afora.

Em Túnis um policial perdeu a vida.

Sedes do Ennahda, a legenda islâmica a dirigir a coalizão no poder desde eleições em outubro de 2011, foram incendiadas.

Nesta sexta-feira 8, dia do funeral de Belaid, uma greve geral convocada pela União Geral Tunisina do Trabalho (UGTT) e por diversas agremiações, foi a primeira desde 1978.

Cerca de 40 mil pessoas compareceram ao funeral de Belaid, de 48 anos, segundo o ministério do Interior. Belaid foi enterrado no final da tarde no cemitério El Jellaz, em Túnis.

A ação contra Chokri, vale exprimir, foi o primeiro assassinato político desde a independência da Tunísia, em 1956.

Em uníssono, os manifestantes repetiam: “O povo exige a queda do regime”, o slogan usado em todos os países árabes que depuseram seus ditadores. Gritavam também “Alá Akbar” (Deus é grande) e entoavam o hino nacional.

O povo quer saber quem matou Belaid, cujo o Partido dos Patriotas Democratas integra a coalizão de esquerda Frente Popular, próxima da UGTT. O governo condenou o assassinato, e, no entanto, ninguém foi acusado.

Segundo rumores, o homem que atirou três vezes em Belaid antes de pular na garupa de uma moto faria parte das “ligas de proteção da revolução”, grupos violentos supostamente a serviço do Ennahda. Em um programa de tevê na noite anterior, Belaid havia denunciado a violência do governo perpetrada através das “ligas de proteção da revolução” contra os oposicionistas.

Não surpreendeu o sistema de segurança em Túnis e em outras cidades. Helicópteros do exército sobrevoavam a capital na sexta. A avenida Habib Bourquiba, onde ocorrem os principais confrontos de manifestantes contra as forças de segurança no centro da capital, estava repleta de militares e homens encapuzados com cassetetes.

O mesmo esquema foi montado pelo governo em torno do cemitério. Mesmo assim, embates não escassearam. Carros foram incendiados e edifícios públicos vandalizados. As forças de segurança revidaram com gás lacrimogêneo. Segundo o Ministério do Interior, 132 pessoas foram presas em Túnis. Em Gafsa, no centro do país, um agente encontrava-se em estado de coma na noite de sexta.

No entanto, a tensão remonta à vitória do Ennahda, partido que pretende, segundo seus detratores, reislamizar a Tunísia. E, de fato, são ambíguos os elos do Ennahda com os salafitas radicais, que querem impor a sharia (código de leis do islamismo) no país.

Detalhe: a Tunísia é o mais secular entre os países árabes desde meados dos anos 1950, quando o presidente era Habib Bourquiba, o primeiro após a independência da França.

Para arrefecer a ira do povo, o premier Hamadi Jebali, do Ennahda, anunciou a formação de um governo de tecnocratas apolíticos até as eleições de junho de 2013.

No entanto, o presidente do Ennahda, Rached Gannouchi, alega que Jebali simplesmente fez uma proposta e ela já foi rejeitada pela maioria dos integrantes do partido. O motivo? A crise é política e tem de ser resolvida por políticos, não tecnocratas.

Na sexta-feira, Jebali mostrou-se firme. O premier anunciou: “Mantenho a minha decisão de formar um governo de tecnocratas e não precisarei do aval da Assembleia Nacional Constituinte”.

Diante das desavenças no seio do Ennahda e dos crescentes protestos, as duas legendas seculares poderão desfazer a aliança com o partido islâmico para, é claro, terem chances nas próximas eleições.

A ironia das ironias é que a Revolução de Jasmim, que em janeiro de 2011 derrubou o ditador Zine-al-Abidine Ben Ali e realizou eleições livres em outubro do mesmo ano, foi o berço e exemplo para todas as subsequentes insurreições no mundo Árabe. Apesar do conflito entre o Ennahda e as legendas esquerdistas e manifestantes seculares, a Tunísia parecia estável quando comparada à Síria.

E o quadro tunisino também parecia mais tranquilo do que em países como a Líbia e o Egito.

De fato, a diferença entre a governista Irmandade Muçulmana no Egito e o Ennahda, ambas agremiações islâmicas, é que os atuais líderes da Tunísia não cimentaram uma sólida aliança com o exército como o fez o presidente egípcio Mohamed Morsi. Ademais, o exército egípcio, espinha dorsal do regime daquele país, é muito superior ao tunisino.

O Ennahda, parece claro, não administra o país como deve.

Dois anos atrás, Mohammed Bouazizi, de 26 anos, se autoimolou quando seu carrinho de frutas foi confiscado pelas autoridades tunisinas. Vários dos atuais jovens e menos jovens a protestar nas ruas, em um país onde o nível de educação é elevado, continuam em busca de empregos.

O Ennahda tem de formar um governo de união nacional e antecipar as eleições. É a única solução para que não haja outra revolução.

 

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