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Quem confia nas estatísticas oficiais argentinas?

por Gabriel Bonis publicado 10/02/2013 08h20, última modificação 06/06/2015 18h25
Enquanto o mercado desconfia há tempos, o FMI censura o país por imprecisões sobre inflação e crescimento

A Argentina vive um momento delicado. Em meio à instabilidade econômica, o país ainda enfrenta um déficit energético e restrições a empréstimos como reflexo do calote de 2001. Com este quadro, o governo de Cristina Kirchner procura manter o crescimento e o apoio, mas atrai cada vez mais a desconfiança do mercado e de investidores.

Parte desta suspeita vem da incerteza sobre a real situação econômica do país, pois alguns dados divulgados pelo governo são encarados por instituições internacionais e consultorias independentes como irreais, ou até mesmo manipulados. E um dos integrantes do “clube da dúvida” é o Fundo Monetário Internacional (FMI), que, pela primeira vez em sua história, aplicou uma moção de censura contra um país membro: a Argentina foi criticada pela má qualidade de estatísticas oficiais de inflação e crescimento do PIB.

As discrepâncias entre as previsões de consultorias e os dados do governo são imensas. O Indec, instituto de estatística oficial do país, aponta uma inflação de 10,8% em 2012. Análises independentes, por outro lado, indicam números em torno de 25%.

O mesmo vale para o crescimento do PIB: 1% no ano passado segundo a Econométrica, contra 1,9% entre janeiro e novembro no lado do governo. Uma discrepância que, para Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MBassociados, evidencia manipulação de dados pela administração federal. "Isso é algo notório pela consistente diferença de dados de consultorias e institutos e o governo."

Mas porque a Argentina maquiaria seus índices? As explicações são político-econômicas.

O governo enfrentou recentemente greves gerais de dois dos principais sindicatos de trabalhadores, que protestavam contra a inflação e pediam o aumento do salário mínimo. Em dezembro, houve saques em Bariloche. Tudo isso aliado ao desemprego que vinha em alta, embora tenha caído no último trimestre de 2012.

Um quadro ruim para Cristina Kirchner, que perdeu apoio de parte da classe média enquanto busca alcançar a maioria de dois terços do Congresso nas eleições parlamentares deste ano. Isso permitiria alterar a Constituição para um possível terceiro mandato consecutivo. Trazer, então, uma inflação apontada em mais de 20% para 5% exigiria um “brutal aumento de juros”, que culminaria em uma recessão e impopularidade. “Certamente, não é o que o governo quer. Mas o governo escolheu puxar a taxa de câmbio e forçar o crescimento sem ter aumento de oferta para isso”, diz Vale.

A censura do FMI ainda é apenas uma sinalização, embora possa levar à expulsão do país do organismo, em última instância. Algo que afetaria ainda mais a capacidade argentina de atrair investimentos.

Após a reprimenda, o Ministério da Economia disse que a medida do FMI mostra um “tratamento desigual”. De acordo com o governo, um novo índice vai mensurar a inflação em 2013 tendo como base preços de todo o país e não só de Buenos Aires.

Em fevereiro de 2012, a consultoria britânica Economist intelligence Unit deixou de usar os dados oficiais argentinos. No artigo “Não minta para mim, Argentina”, a publicação diz que em um país com histórico de hiperinflação o Indec, "antes um dos melhores escritórios de estatística da América Latina", foi depreciado.

Alguns analistas acreditam, porém, não haver necessariamente fraude nos índices. O economista Fernando Sarti, professor da Unicamp, destaca que as diferenças podem estar na forma como os dados são calculados por governo e mercado. O problema ainda teria relação com o esvaziamento do Indec, iniciado em 2007 quando o então presidente Nestor Kirchner substituiu economistas de carreira por nomeados políticos, o que levou a uma perda de qualidade nos cálculos. “Talvez não seja má fé, mas uma dificuldade estrutural de uma instituição que não conseguiu avançar”, afirma Sarti.

Os dados eventualmente maquiados, afirma o professor, também não seriam motivo para afastar investidores interessados na Argentina. “Quem é que confia nas estatísticas da China? Nem por isso, o país deixa de ser um dos locais que mais atrai capital estrangeiro.”

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