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'Posição das Farc não significa rendição'

por Gabriel Bonis publicado 28/02/2012 09h26, última modificação 29/02/2012 17h46
Segundo analista, ao libertar reféns e abdicar do sequestro de civis o grupo guerrilheiro revela sua intenção em adotar propostas políticas

Em uma decisão inesperada, as Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc), guerrilha mais antiga do país latino-americano, anunciaram no domingo 26 a soltura dos dez reféns em seu poder há mais de 12 anos e a abdicação do sequestro de civis como fonte de financiamento.

Uma posição que, segundo o colombiano Jose Maria de Jesus Izquierdo Villota, doutor em Sociologia e ex-integrante de uma comissão para defender as vítimas de grupos armados criada pelo governo da nação vizinha ao Brasil, representa um claro indício da intenção da guerrilha em adotar uma proposta mais política. “Na medida em que o governo oferecer alternativas e abrir espaços de participação de maneira sincera e transparente, isso pode ocorrer.”

 

Segundo Villota, professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a decisão também foi econômica. Ao longo dos anos, diz, o sequestro ganhou caráter de pressão ao governo, mas criou um desgaste político para o grupo em troca de um retorno insignificante.

Além disso, manter os reféns e libertá-los representa um risco de captura de guerrilheiros e envolve uma grande logística. No final de 2011, o grupo adiou a entrega dos sequestrados porque o governo colombiano não havia desmilitarizado a área da soltura e não possuía a logística necessária para a operação, assumida pelo Brasil neste caso específico.

Agora, o professor aponta que a maior fonte de financiamento da guerrilha continuará sendo o narcotráfico, que paga uma taxa para utilizar os territórios da guerrilha em suas atividades.

O analista também destaca que após 47 anos de existência e cerca de nove mil combatentes – contra 17 mil integrantes há dez anos – a posição das Farc não significa uma rendição. “O grupo foi muito agredido pelo Estado, mas consegue se revigorar rapidamente, porque a pobreza e a exclusão social o ajudam a preencher seus quadros com jovens sem perspectiva.”

A guerrilha, afirma Villota, possui uma estratégia militar bem planejada e conta com o elemento surpresa para realizar atentados. “O ETA e IRA também operavam com grupos compactos e poder de ataque extraordinário.”

O professor acredita, no entanto, que o fim dos sequestros abre caminho para a redução de atos violentos, segundo ele, usados para pressionar as autoridades e marcar presença. Mas para que isso ocorra, seria necessário um “diálogo honesto com o governo, que tem errado na maneira como orienta as negociações”. “Uma decisão saudável seria a mediação de outros países, pois os guerrilheiros não confiam nos políticos.”

Neste cenário, a participação do Brasil ajudaria a fortalecer a segurança interna na Colômbia, que poderia resguardar melhor suas fronteiras, evitando o uso do território brasileiro como corredor de passagem para drogas ilícitas. “O governo colombiano deveria tomar a iniciativa de se aproximar da guerrilha, pois se não o fizer, o grupo ira permanecer ativo por tempo indeterminado.”

De acordo com o estudioso, a morte de Alfonso Cano em novembro de 2011, líder do grupo e substituto de Raúl Reyes, em uma mega operação do Exército – que culminou em uma série de retaliações, como a execução de quatro reféns -, não é a responsável pela guinada no posicionamento da guerrilha.

“As Farc são um movimento bem estruturado, hierárquico e com um projeto político de longo prazo. O que interessa é o cargo e não a pessoa, a figura do comandante pode ser trocada por alguém com características semelhantes e isso assegura sua sobrevivência.”

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