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Papas Francisco e Bento XVI oram juntos em encontro histórico

por AFP — publicado 23/03/2013 17h57, última modificação 06/06/2015 18h23
Em reunião inédita, o atual papa e seu predecessor discutiram temas importantes para a Igreja, como vazamento de documentos secretos
Papa

O papa emérito Bento XVI com seu sucessor, Francisco. Foto: Osservatore Romano

VATICANO (AFP) - Pela primeira vez na história milenar do catolicismo, um papa reinante e seu predecessor se encontraram. Neste sábado 23, o recém-eleito Francisco foi recebido pelo papa emérito Bento XVI no palácio apostólico de Castel Gandolfo.

Dez dias após sua eleição, Francisco foi de helicóptero até a tranquila localidade ao sul de Roma e foi recebido pessoalmente por Bento XVI no heliporto da residência de veraneio papal.

"O abraço no heliporto entre o Papa e o Papa emérito foi muito bonito", comentou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

Nas imagens distribuídas pela televisão do Vaticano, os dois Papas foram vistos usando a batina branca. Bento XVI caminhava com dificuldade, apoiado por uma bengala.

Os dois papas conversaram em particular por 45 minutos na biblioteca do palácio, enquanto inúmeras pessoas se congregaram na pequena praça central de Castel Gandolfo para aplaudir e gritar os nomes de Francisco e Bento XVI.

Durante o encontro, o papa emérito reiterou "sua reverência e obediência" ao novo pontífice. Francisco, por sua vez, manifestou seu "agradecimento próprio e de toda a Igreja pelo ministério desenvolvido por Bento XVI durante seu pontificado", informou o porta-voz.

Durante o histórico encontro, os dois líderes religiosos também rezaram na capela do palácio apostólico. "Papa Francisco quis que se sentassem juntos, no mesmo banco, para rezar. Ele disse: 'somos irmãos'", contou Lombardi.

Durante o encontro privado na biblioteca, Francisco presenteou seu Bento XVI com uma imagem da "Virgem da humildade". "Francisco disse que escolheu esta imagem porque pensou nele e em todos os exemplos de humildade que deu durante seu pontificado."

No total, Francisco permaneceu quase três horas em Castel Gandolfo, e depois regressou ao Vaticano.

Os assuntos que os dois pontífices examinaram não foram divulgados, mas é certo que giraram em torno de temas importantes para uma igreja com 1,2 bilhão de fiéis: a "nova evangelização", as perseguições contra os cristãos, a reforma da Cúria, as divisões internas, os escândalos envolvendo dinheiro e sexo, incluindo casos de pedofilia.

Relatório do Vatileaks 

O papa emérito entregou ao sucessor o relatório ultrassecreto que pediu para ser elaborado sobre a situação interna da Igreja após o vazamento de documentos secretos conhecido como Vatileaks.

Segundo vaticanistas, o papa argentino seguirá "o mapa do caminho" traçado por Bento XVI de recuperar a autoridade perdida e terminar a limpeza interna na Cúria.

Antes de renunciar, Bento XVI disse que iria se retirar do mundo, mas que estaria pronto para dar conselhos ao novo pontífice.

Estilos diferentes

Os papas têm temperamentos completamente diferentes: enquanto Joseph Ratzinger se mostrava tímido diante da multidão, Jorge Bergoglio é espontâneo e até abraça os fiéis.

O novo pontífice se distingue por um estilo informal e se mostra mais próximo dos pobres e da simplicidade. Ainda sim, é inflexível em sua doutrina. Sobre as questões da sociedade, Joseph Ratazinger e Jorge Bergoglio compartilham posições conservadoras, seja quanto ao casamento homossexual, o aborto ou a eutanásia.

Quanto aos sinais de simplicidade (anel de prata, etc) do novo papa, sua importância não deve ser exagerada, segundo os vaticanistas. Bento XVI quis manter as tradições, mas viveu de forma simples.

Nos arredores do Vaticano, os cartazes e cartões postais com o retrato de Bento XVI tendem a perder espaço para os do sorridente Jorge Bergoglio e do midiático João Paulo II. Karol Wojtyla, beatificado em 2012, sete anos após sua morte, e que pode ser canonizado em breve, continua a ser o "gigante de Deus" aos olhos dos católicos.

A popularidade adquirida por Francisco em apenas uma semana e a insistência sobre seus gestos simbólicos de ruptura com as tradições podem ser vistas com maus olhos por uma parte do Vaticano. "Este pontificado será enraizado nos ensinamentos de Bento XVI, que foi a principal força intelectual da Igreja nos últimos 25 anos. Sua herança continuará a influenciar este pontificado", considera Samuel Gregg, do instituto de pesquisa americano Aston.

Semelhanças podem ser traçadas entre os discursos dos dois papas, por exemplo, sobre a necessidade de privilegiar aspectos positivos da doutrina ao invés das condenações.

De acordo com o jornalista alemão Peter Seewald, maior especialista de Joseph Ratzinger, "está claro desde o início que o novo Papa se inscreve nos passos de seu predecessor".

Ao jornal Corriere della Sera, Seewald afirmou que "Bento preparou o caminho (...) Ele é um grande admirador de São Francisco de Assis. Depois de São Bento (fundador do monaquismo ocidental), é Francisco de Assis que está em segundo lugar para ele: dois reformadores da Igreja, cada um em seu território, em seu caminho próprio."

"João Paulo II estabilizou o barco da Igreja na tempestade, Bento a purificou, deu instruções à tripulação e a recolocou no caminho certo. Agora Francisco irá ligar o motor para fazer a Igreja se mover", afirma Peter Seewald.

Quando se estabelecer em maio em um antigo monastério na colina do Vaticano, o Papa emérito estará a poucos passos do gabinete de Francisco. Uma coabitação inédita terá início, e os encontros serão possíveis nos jardins.

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