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Os tambores da guerra

por Redação Carta Capital — publicado 19/01/2012 19h57, última modificação 19/01/2012 20h02
Um breve relato sobre o histórico de mentiras e abusos praticados pelos EUA para inventar guerras e manter seus interesses no Oriente Médio

Por Márcio Sampaio de Castro

 

Duas situações complementares têm caracterizado a cultura norte-americana ao longo dos últimos dois séculos. A primeira é a possibilidade sempre presente de resolver as diferenças à bala, um direito nacional inalienável previsto logo na segunda emenda da constituição daquele país, que garante a posse e o uso de armas de fogo a qualquer cidadão. A segunda é a política do cowboy, por meio da qual cabe ao outro sacar a pistola primeiro. Tudo o que ocorrer depois estará amplamente justificado e creditado na conta do agressor inicial.

Nesse curto período histórico, os exemplos não faltam. Os índios foram trucidados e confinados em reservas porque atacavam os colonos brancos. Na guerra hispano-americana, tornou-se célebre o caso do proprietário de jornais William Hearst, que forjou alguns factóides, distorceu acontecimentos e exagerou na descrição de outros, imputando aos espanhóis pavorosos arbítrios contra o povo cubano e também a misteriosa explosão do navio de guerra USS Maine no porto de Havana, eventos que não deixaram alternativa ao governo dos Estados Unidos senão intervir na ilha caribenha para libertá-la.  Hearst seria o autor da infame frase endereçada a um de seus repórteres: “Você me fornece as imagens e eu fornecerei a guerra”.

Nas duas grandes guerras mundiais, novamente o ônus da ultrajante agressão gratuita caberia sequencialmente a alemães e japoneses, enquanto no Vietnã, o obscuro torpedeamento do USS Maddox, em 1964, pelos norte-vietnamitas no Golfo de Tonkin serviria para que, em linguagem bíblica, a América rasgasse suas vestes, despejando naquele país do sudeste asiático milhares de homens, toneladas de bombas e bilhões de dólares por mais de uma década.

Em todos esses casos é interessante observar que Hearst fez escola e, portanto, nunca esteve sozinho na prática de trombetear as ações ultrajantes dos “inimigos da liberdade”.  Não estão em questão aqui a truculência de um império colonial decadente ou as pretensões expansionistas de regimes totalitários, e sim as ações do dândi, que veste sua melhor roupa de domingo e vai passear no valhacouto dos bandidos e, uma vez agredido, ganha a simpatia dos jornais da cidade, que exigem das autoridades locais medidas enérgicas contra os celerados.

O porta-aviões USS John C. Stennis, ao cruzar o estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, no penúltimo dia de 2011, evocou mais uma vez essa figura. Em um misto de demonstração de força e provocação, o navio norte-americano passou sob o nariz dos aiatolás, em pleno exercício militar naval iraniano, e fez o mundo inteiro prender a respiração por um momento.

Mas a escalada que leva aos conflitos, como bem ensina a leitura atenta da história contemporânea, se dá antes de tudo na mídia, que, ao escamotear, distorcer, exagerar ou deliberadamente ignorar versões, contribui de forma decisiva para sancionar a violência coletiva chamada guerra, cuja primeira vítima, como ensina a sabedoria jornalística, é a verdade.

Tem causado espanto nos últimos meses a apresentação noticiosa de fatos, presumivelmente decisivos para o curso do século XXI, como eventos isolados e, consequentemente, desconectados do grande jogo travado no palco de um planeta que se mostra cada vez menor para tantos interesses conflitantes. A guerra pela suposta implantação de uma democracia na Líbia terminou de forma pavorosa com o bárbaro assassinato do não menos bárbaro Muamar Kaddafi. Os esparsos relatos que chegam, pois o país foi rapidamente esquecido pela imprensa internacional, dão conta de um estado de quase anomia, com gangues e grupos rivais travando incessantes tiroteios nas ruas de suas principais cidades.

Da mesma maneira, pouca gente nas redações se interessou em apurar e apresentar o movimento de aproximação, nos meses que antecederam a “ação humanitária” da OTAN, entre Kaddafi e empresas chinesas e russas para a exploração de petróleo da maior jazida existente no continente africano.

É importante lembrar que, enquanto Kaddafi ainda se escondia nos canos de esgoto de Sirte, o presidente do Conselho Nacional líbio, Mustafa Abdeljalil, e o vice, Mahmoud Jibril el-Warfally, homem de confiança do Ocidente por seus laços estreitos com a Universidade de Pittsburgh, visitavam Paris e garantiam aos líderes ocidentais privilégios nos contratos para exploração de petróleo na Líbia democratizada. Russos, chineses e até a Petrobrás ficaram a ver navios.

O caso sírio é igualmente emblemático e segue a mesma lógica discursiva empregada nos meses anteriores à investida contra o regime líbio.

Às denúncias diárias feitas por obscuros grupos de oposição de mortes causadas pelas forças do governo, as agências internacionais de notícias sediadas em Londres, Paris, Madrid e Nova Iorque dão um destaque que faz lembrar a indignação seletiva e tardia - afinal, durante 40 anos, isso não foi um problema para a chamada comunidade internacional - em relação às ações de Kaddafi contra o seu povo.

Um olhar atento revelará que o país do Oriente Médio possui uma importância estratégica sem igual no tabuleiro da geopolítica atual. Através da Síria, o Irã viabiliza a alimentação do Hezbollah, inimigo mortal de Israel e do Ocidente.

No porto de Tartus, banhado pelo Mediterrâneo, a Rússia possui uma base naval com quase mil militares ali alocados, que funciona como centro de manutenção e abastecimento para a sua frota do Mar Negro, constituindo-se na única força militar não alinhada com os interesses ocidentais em pleno quintal da OTAN.

Por fim, a instituição de um governo “democrático”, em substituição à ditadura de Bashar Al-Assad, garantiria uma tranquilidade maior para a ampliação e exploração do  Trans-Arabian Pipeline (Tapline), um oleoduto que liga o Golfo Pérsico ao Líbano, contornando eventuais inconvenientes estratégicos causados por um possível bloqueio do Estreito de Ormuz pelos iranianos.

Diante desse quadro, não é difícil atribuir certa razão a Assad quando acusa as ações armadas contra o seu governo, como atentados a bomba em Damasco e o assassinato de policiais e membros das forças armadas, de possuírem patrocínio estrangeiro, com um leque de suspeitos que sai de Riad, passa por Tel Aviv e chega facilmente a Washington. O único problema é que essas alegações são prontamente ridicularizadas e abafadas pela imprensa anglo-saxônica sem merecer por parte de suas redações uma única pergunta a um dos muitos embaixadores ocidentais sempre dispostos a anonimamente corroborar os relatos da oposição.

Voltando à questão iraniana, no início de janeiro, uma edição do The New York Times trouxe como matéria de capa o relato sobre a instalação de uma segunda planta de enriquecimento de urânio nas proximidades da cidade de Qum. O texto, mais uma vez, reforçava a preocupação das autoridades ocidentais quanto ao fato de o novo complexo estar encravado nas montanhas, tornando-o inexpugnável a ataques aéreos (!). Para além da metade da reportagem, porém, aparecia um dado paradoxal: as usinas de enriquecimento de urânio no Irã são regularmente visitadas por especialistas da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e qualquer aumento na produção levaria, no mínimo, seis meses para atingir quantidades suficientes para a construção de artefatos para emprego militar. Se é assim, então, por que o alarde do jornal.

Para os mais céticos, recomenda-se conferir documentários como Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris, com um depoimento didático do ex-secretário de defesa Robert McNamara a respeito de como são tratados os interesses estratégicos de uma grande potência como os EUA, ou ainda, o inexplicavelmente pouco divulgado The War You Don´t See, dirigido pelo veterano jornalista John Pilger.

Neste último, dentre uma série de eventos históricos recapitulados, merece destaque a reconstituição da farsa das armas de destruição em massa de Saddam Hussein representada bisonhamente pelo secretário de Estado de George Bush Jr no Conselho de Segurança da ONU. Bisonho ou não, o fato é que a pantomima funcionou relativamente e os norte-americanos invadiriam o Iraque em 2003. Mais do que a cena de Collin Powell no CS, Pilger mostra como a participação da mídia do chamado mundo livre foi fundamental para a criação de um senso comum que dava conta da inevitabilidade da existência de tais armas e, portanto, da guerra punitiva contra o ditador iraquiano.

É aterrador constatar que, passada quase uma década da invasão do Iraque e de seus estimados meio milhão de mortos, a pobreza das análises, a deliberada distorção ou ocultação de versões e a ausência de uma visão orgânica do que se passa no teatro geopolítico contemporâneo, proporcionadas por uma mídia altamente conivente com os interesses hegemônicos, caminhamos novamente para um possível desfecho trágico, com consequências imprevisíveis para os anos vindouros.

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