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Gianni Carta

Os EUA votam contra o neoliberalismo

por Gianni Carta publicado 07/11/2012 09h40, última modificação 06/06/2015 19h23
A maioria preferiu medidas econômicas adotadas por Obama ao retorno do American Dream proposto por Romney
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A maioria preferiu as medidas econômicas adotadas por Obama ao American Dream proposto por Romney. Foto: AFP / Jewel Samad

Não foi uma vitória histórica como aquela de 2008. No entanto, a reeleição de Barack Obama, em plena crise econômica, representa a escolha da igualdade social para todos os cidadãos perante a Constituição. Por tabela, foi derrotada a pior face do conservadorismo norte-americano encarnado por Mitt Romney.

Romney, aliado do Tea Party e de outras legendas de ultradireita a impor seus credos antiliberais no povo, teria disseminado o egoísmo ultraliberal. Seria difícil confiar em um presidente com contas em paraísos fiscais como o faz Romney.

Obama, por sua vez, decepcionou aqueles que viam o carismático e articulado negro como o sucessor de Franklin Roosevelt. Faltou audácia ao 44º presidente. E será difícil que no segundo mandato ele se torne mais combativo.

O primeiro mandato do centrista Obama, contudo, tem de ser avaliado no contexto da profunda crise econômica. Ele evitou o colapso da economia sem recorrer a programas de austeridade, estabeleceu um sistema de saúde universal, e salvou a indústria automobilística.

Apesar da criação de postos de trabalho, o nível de desemprego – 8% - continua alto. A dívida pública explodiu. Mesmo assim, na semana passada uma maioria dos entrevistados por uma enquete Gallup revelava, pela primeira vez desde 2007, que dentro de um ano a situação econômica estará melhor.

Em suma, o voto em Obama é uma aposta em uma economia mais saudável sob um programa de medidas coerentes e não neoliberais. Colherá Obama os frutos de suas reformas econômicas? O tempo dirá. Fundamental, vale repetir, é que a maioria de um país dividido preferiu as medidas econômicas adotadas por Obama ao suposto retorno do American Dream proposto por Romney.

É importante ressaltar o talento de Obama e de sua equipe em uma campanha dominada pela crise econômica. Isso diante de um Romney que se mostrou bastante hábil, especialmente no primeiro debate televisivo entre os dois candidatos. O excelente orador Obama ficou na defensiva. As sondagens deixaram claro o seguinte: o páreo era mais duro do que parecia. A vitória de Romney passou a ser cogitada.

E eis que ressurge o Obama carismático, a orar com facilidade, e a ziguezaguear pelo país. A máquina eleitoral Obama estava relançada.

Um presidencial e determinado Obama agiu com maestria no episódio do furacão Sandy. Mobilizou a guarda nacional, disponibilizou fundos de urgência para os Estados mais devastados, abraçou pessoas afetadas pela tragédia.

Romney foi marginalizado, como W. Bush na época do furacão Katrina. O rival de Obama havia dito durante a campanha que o setor privado, não agências governamentais, deveria lidar com catástrofes naturais provocadas pelo aquecimento global. E, no entanto, foi o Estado, acionado por Obama, quem geriu a crise.

Obama, é previsível, não poderá fazer grandes reformas no segundo mandato. O Congresso é dominado por republicanos. E mesmo que a maioria de senadores pertença ao Partido Democrata, Obama não pode sempre contar com o apoio desses volúveis políticos.

Na verdade, Obama, como já foi dito acima, é reformista até certo ponto. Por exemplo, seu brilhante discurso no Cairo em 2009 sobre uma resolução para a crise entre os Territórios Palestinos e Israel não deu em nada. E, com a provável vitória de Benjamin Netanyahu e seus falcões nas eleições em Israel de 2013, é difícil prever o que Tel Aviv fará em relação aos palestinos e iranianos.

Também é imprevisível o que fará Obama.