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Reeleição comprometida?

Obama, ex-herói

por Eduardo Graça — publicado 02/01/2012 07h02, última modificação 06/06/2015 18h57
Para o historiador Michael Kazin, a esquerda dos EUA não captou o sentido da vitória de 2008, frustrou-se e isso dificultará a reeleição
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Para o historiador Michael Kazin, a esquerda dos EUA não captou o sentido da vitória de 2008, frustrou-se e isso dificultará a reeleição. Foto: AFP

De Nova York

Uma das jovens estrelas da Universidade de Yale, a historiadora Beverly Gage decretou, na resenha publicada em setembro no caderno dominical do New York Times, a morte da esquerda americana, que, ante a maior crise do capitalismo ianque em quase um século, não saíra às ruas, não criara novas instituições, se conformava em depositar alguma esperança em um presidente centrista, em uma era de mínimas expectativas. A narrativa pessimista foi feita antes da explosão do Ocupem Wall Street (OWS) e fez parte de uma profunda análise sobre o principal trabalho voltado para a história das esquerdas nos Estados Unidos neste ano, escrito por um dos editores da revista Dissent, o também historiador Michael Kazin.

Em American Dreamers - How the Left Changed a Nation (algo como Sonhadores Americanos - Como a esquerda transformou uma nação), infelizmente ainda não traduzido para o português, o acadêmico da Universidade de Georgetown traça as origens do pensamento progressista na maior economia do planeta, desde o movimento abolicionista até a eleição de Barack Obama, passando pela emergência dos partidos socialistas, comunistas e anarquistas na primeira metade do século XX, a criação da Nova Esquerda depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento pelo direito civil dos negros, os radicais dos anos 1960 e os manifestantes antiglobalização e ambientalistas da virada do milênio.

Considerado pelo New York Times um dos maiores intelectuais de esquerda do país, o professor de História da Universidade de Georgetown falou a CartaCapital sobre como a eleição de Obama uniu os farrapos da combalida esquerda americana, tratou da decepção dos setores progressistas com o presidente durante seu primeiro mandato, arriscou apontar as diferenças entre o líder norte-americano e Lula e ainda tratou do ressuscitar dos movimentos populares radicais com o aparecimento do OWS e dos temas fundamentais para a esquerda durante e após o governo Obama.

CartaCapital: O senhor começa o último capítulo de American Dreamers com Pete Seeger e Bruce Springsteen na posse de Barack Obama cantando versos radicais compostos por Woody Guthrie. E pontua que a falta de polêmica diante da primeira família, entoando, feliz, junto aos artistas, versos de inspiração comunista, alude tanto à onipresença quanto à fraqueza da esquerda americana naquele momento histórico. O que deu errado?

Michael Kazin: Antes de tudo, precisamos levar em conta que o entusiasmo da esquerda americana por Obama em 2008 era muito maior do que sua força política. O sindicalismo já estava enfraquecido e seguiu em declínio. Pouco restava dos insurgentes negros e feministas, os ambientalistas tinham pouquíssima influência entre as massas e o movimento antiglobalização traduzia-se, nos últimos anos, em um pequeno grupo de ativistas indecisos, sem saber exatamente que direção tomar. Obama surgiu como a boia salva-vidas para variadas tendências políticas que se estrebuchavam ao léu. Por outro lado, a maior parte dos militantes veteranos de esquerda entendeu que um presidente dos EUA não poderia, ou desejava, ser o líder de um movimento popular.

CC: Mas a decepção da esquerda e dos setores liberais, especialmente em relação à política econômica do governo Obama, é imensa. O senhor acredita que eles foram iludidos pelo 'sim, nós podemos'?

MK: Algumas pessoas representativas da esquerda americana, tanto jovens quanto militantes mais tarimbados, foram ingênuos em relação ao quanto Obama poderia, ou mesmo intencionava, fazer ao ser eleito. Ele também deparou-se com a oposição praticamente absoluta de cada senador e representante (cargo equivalente ao de deputado federal no Brasil) republicano em relação às suas iniciativas. Não creio que a esquerda foi propriamente "iludida", mas muitos militantes certamente se equivocaram ao analisar o que estava acontecendo no país.

CC: O senhor diria que Obama, nos EUA, e Lula, no Brasil, podem ter representado esse papel do herói possível dos setores progressistas no século XXI?

MK: Obama e Lula são figuras políticas extremamente diversas. Lula teve uma longa trajetória como líder sindical e comandante de um partido político de esquerda e já era uma personalidade global antes mesmo de o PT chegar ao poder. E o sucesso da economia brasileira explica, até a página dois, sua popularidade durante todo o mandato e mesmo após deixar o Planalto. Obama emergiu rapidamente da obscuridade para o palco central em um período de quatro anos, não teve tempo de trabalhar a imagem do 'herói do povo', como Lula, mesmo em um cenário econômico diverso. Obama é outra história.

CC: Os progressistas abandonaram de vez a fé em Obama?

MK: Nem todos. A maioria vai votar nele novamente no ano que vem e muitos farão campanha para elegê-lo. Mas Obama provavelmente jamais será novamente o herói da esquerda. Só não podemos esquecer que nenhum presidente, desde Kennedy, recebeu tal tratamento dos setores progressistas americanos. E Kennedy só o teve depois de morto. Acredito que a maior parte dos 'liberais' vai votar em Obama, repetindo sua opção pelo Partido Democrata, constante desde a década de 30 do século XX. Mas o quão entusiasmados eles estarão, se vão trabalhar com afinco por sua reeleição como o fizeram em 2008, são ainda questões em aberto. Vai depender muito do quão conservador o candidato republicano for. Neste exato momento tudo leva a crer que será uma eleição extremamente disputada, decidida na reta final.

CC: O novo governo democrata concentrou seus primeiros anos na implementação das mudanças na Saúde Pública e em um estímulo econômico considerado tímido por setores progressistas. Esse foi um erro de avaliação política que pode custar a Obama um segundo turno?

MK: Não. Obama estava certo quando decidiu investir em uma reforma que buscava estabelecer o direito universal dos cidadãos de ter acesso a planos de saúde, no momento em que ele tinha maioria nas duas Câmaras do Congresso. Para aprovar a legislação, ele teve, porém, de negociar com as seguradoras, que enterraram o projeto de um sistema público de Saúde. O resultado teria sido bem melhor se o senador Ted Kennedy (cujo principal tema durante sua longa carreira no Capitólio era a reforma da saúde nos EUA) tivesse tido condições de comandar sua aprovação. Mas, como sabemos, ele foi diagnosticado com câncer e morreu em agosto de 2009. Obama, por sua vez, não conseguiu explicar de forma clara, direta e enfática por que a reforma da Saúde era tão necessária e que seu plano era um claro incremento em relação ao sistema vigente. E a ideia de que Obama deveria ter investido em um programa voltado para a criação de empregos é baseada na premissa de que ele poderia ter passado um pacote de estímulo econômico bem maior no Congresso. Pois digo que isso seria impossível, por causa da oposição de cada um dos parlamentares republicanos e de toda a ala direita do Partido Democrata. Esta avaliação de certos setores da esquerda não é realista.

CC: O senhor também escreveu que "apesar de todos os esforços, práticos e intelectuais, não se viu nos EUA, nos últimos 40 anos, o surgimento de uma nova e forte esquerda política". Qual sua opinião sobre o Ocupem Wall Street, que parece galvanizar a ação de esquerda, há muito adormecida na sociedade americana?

MK: Em minha defesa preciso deixar claro que American Dreamers foi para a editora antes do aparecimento do OWS. Não há como negar que eles se tornaram uma poderosa força de manifestação política que pode crescer ainda mais e se transformar em um movimento importante. O que eles conseguiram, aliás, confirma a ideia central do livro: a esquerda americana é extremamente feliz em mudar os termos do debate cultural e político da nação, mas raramente consegue criar estruturas políticas poderosas e de longa duração.

CC: Mas o discurso predominante no OWS é o de aversão à política partidária, com críticas ferozes tanto aos republicanos quanto aos democratas, vistos como agremiações controladas por lobistas...

MK: Boa parte dos manifestantes do OWS declara-se anarquista. É natural que tenham certa ambivalência em criar estruturas que, por definição e necessidade, poderão se engajar em negociações com a elite e terão de ceder em determinados pontos.

CC: E qual é a relação desses militantes com o governo Obama?

MK: Neste momento, nula, quiçá um pouco antagônica. Mas suspeito que muitos militantes menos presos a determinadas ideologias, não identificados com as alas mais radicais, vão apoiar a reeleição do presidente e pressioná-Io para que ele inclua algumas de suas demandas em seu programa de governo.

CC: A direita diz que Obama está promovendo, com a ajuda do OWS, uma "guerra de classes" entre os mais pobres e os mais ricos do país, qualificada pelos conservadores como "antiamericana". O senhor crê que uma das dificuldades de Obama a campanha de 2012 será explicar aos eleitores independentes (que ora votam republicano, ora democrata, e formam o grosso do eleitorado americano) que ele não está jogando pobres contra ricos?

MK: É importante levar em conta a resposta positiva da população ao discurso, e não necessariamente às ocupações, do OWS. Ela revela que os americanos não se opõem neste momento à retórica populista. Abriu-se uma avenida para políticos que atacam as elites e clamam ser representantes dos interesses e da ética da maioria dos trabalhadores, "do povo", enfim. Em 1990, escrevi um livro sobre esta questão, The Populist Persuasion: An American History (O Credo Populista: Uma história americana), e creio que o desafio de Obama será o de prestar uma enorme atenção nas queixas da maioria sem culpar os ricos apenas por serem, bem, ricos. Neste sentido, vai ser importante ele conseguir apoio declarado de nomes como Warren Buffett, Steve Case e Bill Gates para combater a pecha de ser "promotor de uma guerra de classes sociais" nos Estados Unidos. Mas é claro que quem promove de fato uma "guerra de classes" é a direita republicana. São eles que demonizam os trabalhadores sindicalizados e defendem o pagamento de impostos idêntico de quem ganha o salário mínimo e dos milionários.

CC: Qual a comparação possível entre as administrações Clinton e Obama?

MK: As principais conquistas do governo Clinton no flanco doméstico foram a criação do Nafta e a reforma do sistema de previdência social, que também estavam na pauta dos republicanos. Ele conseguiu deter o avanço da direita política e cultural, mas não conseguiu concluir nenhum ganho progressista significativo. Obviamente, o fato de os republicanos controlarem o Congresso durante os últimos seis anos do governo Clinton praticamente impediu que ele conseguisse avançar mais. Em comparação, Obama, em seus primeiros dois anos de governo, passou a reforma da saúde pública, a Lei Dodd-Frank, de regulamentação da indústria financeira, e vários pequenos avanços progressistas, embora não suficientes para aplacar o desejo reformista da esquerda.

CC: Como o senhor vê o "Obama for America"?

MK: Foi e será apenas um braço político da Casa Branca e do Partido Democrata, foi criado para isso. É extremamente útil, mas também uma perda histórica de oportunidade política, ao envolver apenas uma pequena fração das milhares de pessoas que fizeram campanha para Obama em 2008.

CC: Para ficarmos no subtítulo de seu livro, quais seriam as transformações que os setores progressistas poderiam desejar nos EUA, durante e após o governo Obama?

MK: A esquerda americana deveria lutar pelo estabelecimento de uma "sociedade decente", que incluísse todos os elementos da ordem social-democrata, como a garantia de saúde pública universal, a moradia acessível, o direito ao emprego e a uma boa educação pública. Também deveria seguir brigando por uma sociedade mais tolerante e plural, com a total inclusão dos imigrantes, dos homossexuais e das minorias étnicas. Também deveria focar mais na cooperação multinacional nas áreas financeiras e de Justiça. E também deveria alimentar a cultura da criação, da imaginação, do risco, que permitisse aos cidadãos sonharem com alternativas outras, sociais, culturais e econômicas, tanto no presente quanto no futuro. Resumindo, e falando em bom português: a luta continua.

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