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Obama e o Vaticano

Obama e a alternativa laica

por Wálter Maierovitch publicado 25/03/2013 10h27, última modificação 06/06/2015 18h14
O presidente norte-americano, ícone da secularização dos jovens, não foi à cerimônia no Vaticano. A cúpula da Igreja nos EUA prefere os republicanos
Papa

O papa emérito Bento XVI com seu sucessor, Francisco. Foto: Osservatore Romano

A secularização da sociedade avança no Ocidente de forma irreversível. Daí muitos perguntarem como a eleição e o início do papado de Francisco puderam atrair tanto a atenção e ter deslocado, para a missa inaugural, grande número de chefes de Estado e de governo. A resposta, por vozes seculares e à frente o renomado historiador Jacques Le Goff, é que a Igreja ainda influenciará por muito tempo.

Na missa, não passou despercebido aos vaticanistas e aos historiadores a ausência do presidente dos EUA, Barack Obama, representado pelo vice. É que a Conferência Episcopal dos Estados Unidos apoiou, na primeira eleição e na reeleição de 2012, o Partido Republicano, apelidado de “partido dos ricos”.

As iniciativas legislativas dos democratas, em particular a reforma sanitária de Obama a incluir o tema aborto, enfureceram os integrantes de uma conferência liderada pelo midiático Timothy Dolan, cardeal arcebispo de Nova York. Até os jesuítas entraram no lobby anti-Obama. Na revista quinzenal Civilização Católica, produzida pelos jesuítas, repercutiu o artigo de Luciano Larivera: “Muitos bispos perceberam em Obama, mais do que um reformador social, um aliado da cultura laica e de uma religião intelectual e individualista. Obama contribuirá à crescente secularização dos jovens e à transformação do partido democrático, em um tempo não muito longo, numa alternativa laica como aconteceu com os socialistas Zapatero, na Espanha, e Hollande, na França”.

Apesar do lobby anti-Obama pela Conferência Episcopal norte-americana, os católicos votaram em peso em Obama. Um detalhe: na reeleição de 2012, deixaram a ver navios a dupla mórmon-católica dos republicanos Romney e Ryan. Fora isso, e o cardeal Dolan nem foi consultado, a prestigiosa revista Catholic Health Association aplaudiu, num importante contraponto, a proposta reformadora de Obama em matéria de assistência médico-sanitária.

Para a eleição de Bergoglio tiveram fundamental peso os votos, em bloco, dos 14 cardeais norte-americanos, todos com a bandeira reformista da Cúria. Na verdade, isso aconteceu por mais uma bola fora do trapalhão cardeal Tarcisio Bertone, chefão da Cúria ao tempo do papado de Ratzinger e que lançou, para manter o status quo sobre o controle verticalizado e absoluto de poder administrativo-temporal, o candidato dom Odilo Scherer, que não conseguiu unanimidade nem entre os seus pares brasileiros.

A propósito, o linha-dura monsenhor Carlo Maria Viganò, então secretário do governadorato do Vaticano, enviou a Bento XVI uma detalhada e indignada carta sobre má gestão e corrupção na Santa Sé, cujo responsável era Bertone, secretário de Estado. Tal carta estava entre os documentos repassados à mídia pelo grupo de “corvos” vaticanos e que resultou, pelo furto, na condenação, com posterior perdão, do então mordomo papal.

Em janeiro de 2012, o teor da carta foi revelado no programa televisivo italiano Gli Intoccabili (Os Intocáveis). A título de eufemística promoção, Viganò foi enviado a Washington como núncio e em face da morte de Pietro Sambi. Logo após assumir como diplomata encarregado da ligação entre o papa e a Conferência Episcopal norte-americana, ganhou a consideração dos cardeais, que cerraram fileiras contra Bertone e a corrupção na Cúria. Viganò, dos EUA, continuou a torpedear Bertone, com total apoio dos integrantes da conferência, que passaram a ter, como afirmou o cardeal Dolan, informações importantes e até dados sobre as fofocas do Vaticano. Em síntese, os 14 cardeais norte-americanos chegaram a Roma prontos a eleger um papa capaz de “limpar” a Cúria de Bertone, um elefante em loja de cristais, pois nunca pertenceu, ao contrário de Scherer, à diplomacia eclesiástica.

O papa Francisco tem o compromisso eleitoral de reformar a Cúria e já se fala num triunvirato de cardeais  designados para a tarefa. Para os vaticanistas, Francisco não terá condições de enfrentar tudo sozinho, pois, ao contrário de Pio XII e Paulo VI, nunca, antes de ser eleito papa, atuou como gestor. E ao triunvirato será passado o relatório que investigou o caso VatiLeaks, deixado por Ratzinger ao seu sucessor e guardado no cofre dos aposentos reservados ao papa.

Para o bom entendedor, Francisco deixou claro que trocará a verticalização curial pelo poder horizontalizado, a aproveitar os sínodos, consistórios e conferências. Será um pontificado colegiado. Ao preferir o título de bispo de Roma, não se coloca como “vigário de Cristo” na terra. Ou seja, o único em condições, nas questões de fé, de contar com a infalibilidade, conforme reconhecido ao papa no Concílio Vaticano I, de 1868.

Num pano rápido, começou a corrida contra o tempo e muitos apostam que o papa usará a vassoura, mas manterá, nas questões de fé, o perfil de conservador popular.

 
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