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Internacional

O uso político do 11 de setembro nas eleições americanas

por José Antonio Lima publicado 11/09/2012 10h08, última modificação 06/06/2015 18h28
Para Barack Obama, o assassinato de Osama Bin Laden é um grande trunfo, mas também abre oportunidades para ataques dos republicanos
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Na convenção democrata, realizada na semana passada, eleitor carrega adesivo com a inscrição "Bin Laden está morto. A GM está viva!" A frase virou lema da campanha democrata para elogiar a bravura de Obama. Foto: Robyn Beck / AFP

No início de maio de 2011, quando Barack Obama surgiu em rede nacional nos Estados Unidos para anunciar o assassinato de Osama bin Laden, uma série de analistas previu que a morte do terrorista serviria para catapultar o democrata à reeleição. A principal razão para tanto era a euforia gerada pelo anúncio, que levou gente às ruas para celebrar como se fosse o 4 de julho. Passados 16 meses, a morte de Bin Laden foi digerida e a recuperação da economia norte-americana desacelerou. Mitt Romney vem se provando um adversário difícil de ser batido e Obama parece disposto a usar todas as armas à disposição para derrotar o republicano - até mesmo o 11 de setembro, que nesta terça-feira completa 11 anos.

O uso político da morte de Bin Laden, e dos atentados, teve início em abril deste ano. Naquele mês, a campanha de Obama lançou na internet o vídeo "One Chance" (Uma chance), que exalta o fato de Obama ter ordenado o arriscado ataque dos seals que foram até Abbottabad, a cidade paquistanesa onde Bin Laden estava escondido. O vídeo conta com depoimento de Bill Clinton, ex-presidente cada vez mais engajado na campanha de Obama, e destaca comentários de Romney, segundo quem os EUA não deveriam realizar ataques dentro do Paquistão contra alvos da Al-Qaeda e nem gastar "bilhões de dólares para pegar um único homem".

Também em abril, o vice de Obama, Joe Biden, disse uma frase que se tornou lema da campanha democrata. Ao comparar o que Obama fez e o que Romney teria feito como presidente, segundo o próprio Biden, ele disse: "Bin Laden está morto e a General Motors está viva", um referência ao resgate da montadora de automóveis que chegou à beira da falência durante o auge da crise econômica de 2008. Biden repetiu a frase na convenção do Partido Democrata, realizada na semana passada. No mesmo evento, o senador John Kerry, candidato democrata em 2004, respondeu aos questionamentos de republicanos sobre a condição dos Estados Unidos hoje e há quatro anos. "Perguntem a Osama bin Laden se ele está melhor agora do que há quatro anos", afirmou Kerry.

Um terceiro possível uso político da operação foi bloqueado pelo Partido Republicano. Documentos obtidos pelo site Judicial Watch mostraram que a Casa Branca, a CIA e o Pentágono cooperaram com interesse com a diretora Kathryn Bigelow (vencedora do Oscar por Guerra ao Terror) e com o roteirista Mark Boal, responsáveis por Zero Dark Thirty (sem tradução para o português), filme sobre a caça a Bin Laden. A gritaria dos republicanos foi tão alta, assim como as suspeitas de que o governo teria passado informações confidenciais a Bigelow e Boal, que o lançamento do filme foi postergado para novembro, depois das eleições.

Os republicanos tentam, por sua vez, neutralizar os possíveis benefícios a Obama. Em agosto, um grupo de ex-integrantes das agências de inteligência americana e das forças especiais publicou um vídeo de 22 minutos no qual critica supostos vazamentos de informações confidenciais provocados pela Casa Branca a respeito de operações militares norte-americanas e também o uso político da morte de Bin Laden. No filme, um homem que se identifica como seal da Marinha dos EUA diz a Obama: "Senhor presidente, você não matou Osama bin Laden, a América o fez". O grupo de ex-militares, conhecido pela sigla OPSEC, se diz apartidário, mas aparentemente esta não é sua real natureza. O presidente do grupo tentou se candidatar pelo Partido Republicano em 2010. E um dos representantes foi porta-voz do Diretor de Inteligência Nacional no governo do republicano George W. Bush.

A popularidade do assassinato de Bin Laden colocou a Casa Branca numa situação desconfortável. Desde a semana passada, está na lista dos mais vendidos nos EUA o livro No Easy Day, escrito por um dos seals que participou do ataque à residência de Bin Laden. Mark Owen (pseudônimo do militar) descreve com detalhes toda sua preparação militar, bem como a operação em que Bin Laden foi morto. Em sua versão dos fatos, Owen desmente parte da história que foi contada pela Casa Branca. Segundo ele, Bin Laden foi atingido por um tiro na cabeça quando colocou o rosto para fora da porta de seu quarto e por vários outros disparos já no chão do cômodo. Na versão oficial do episódio, Bin Laden foi atingido ao tentar alcançar uma arma para atirar contra os seals.

A Casa Branca, por óbvio, não gostou de ser desmentida. Owen não enviou o livro à censura prévia do governo, exigência comum a todos os militares e membros da inteligência americana ao divulgar informações ao público, e o porta-voz de Obama afirmou que Owen violou as regras. A Casa Branca ainda não se pronunciou sobre possíveis punições ao militar. Owen se aposentou, mas ainda está sujeito a sanções, como o bloqueio de toda a renda gerada pelo livro. A demora da Casa Branca provavelmente tem relação com as eleições. Afinal, como os eleitores iriam encarar o fato de o presidente que se gaba de ter ordenado o ataque processar um dos "heróis" que foi até o Paquistão?

Em entrevista veiculada pelo programa 60 minutes no último domingo, Owen disse que seu livro não deve ser levado para o debate político pois se restringe ao 11 de setembro e a "uma das principais missões da história", que merece ser contada agora para a sociedade norte-americana. "Se esses loucos em ambos os lados do espectro político querem tornar (o livro) político, que vergonha para eles". Owen, como membro da tropa de elite mais treinada dos EUA, é capaz de realizar as missões mais arriscadas em nome de seu país, mas no que diz respeito a seu entendimento da política local ainda é um amador.

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