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O poder subterrâneo

por Redação Carta Capital — publicado 05/11/2012 09h54, última modificação 06/06/2015 19h23
Mal captado pelas pesquisas eleitorais, o voto latino pode fazer a diferença e reeleger o democrata Barack Obama
EUA

Campanha. A brasileira Isabel Santos, delegada democrata, e a americana Robin Blanchard. Foto: Eduardo Graça

 

por Eduardo Graça, de Boca Raton (Flórida)

 

Mudam os interlocutores, permanece o tom da conversa na lanchonete localizada no coração do enclave brasileiro nos limites de Pompano Beach e Boca Raton. O assunto, e a empolgação, são os mesmos. “Oi, Isabel! Adorei ver você na tevê. Vou votar na terça-feira, pode deixar!”, diz uma freguesa apressada, fã do pão de queijo local. De olho na coxinha de frango, Margarida Oliveira ainda não é cidadã americana, mas faz questão de trocar um dedo de prosa com Isabel Santos, a primeira brasileira a se tornar delegada do Partido Democrata, com direito a voto e tudo na convenção de Charlotte.

“Já que você não pode votar, peça para algum americano desinteressado em ir às urnas fazê-lo em seu nome. Cada voto é importante para nós”, diz a delegada. Margarida responde de pronto: tem catequizado as patroas americanas, ainda indecisas entre renovar a confiança no presidente democrata ou apostar na novidade republicana. Como todas as pesquisas no estado sulista, dono de preciosos 29 votos no colégio eleitoral, apontam vantagem de apenas 1 ponto para o republicano Mitt Romney, os cerca de 10 mil brasileiros aptos a votar na região, número estimado pelas lideranças políticas locais, têm uma oportunidade rara de influenciar o destino da maior economia do planeta.

Quando conversei com Isabel e a americana Robin Blanchard, que fala português fluente e viveu em Paraty e Belo Horizonte no início da década, a tempestade Sandy acabara de chegar à costa da Flórida. O dia estava feio, com chuva e ventos fortes, mas o ex-furacão poupou o estado e partiu com fúria para New Jersey e Nova York. “As pesquisas estão erradas. Elas não levam em conta o nosso voto. A mobilização dos latinos está igual ou maior do que em 2008 na Flórida e vamos fazer a diferença no resultado final”, diz a brasileira.

Diretor da Latino Polls, empresa especializada em pesquisas de opinião na comunidade de origem latino-americana nos EUA, Matt Barreto concorda. “Os mais empolgados em ir às urnas são os que receberam a cidadania mais recentemente”, diz. Essas pessoas não estão na lista dos institutos de pesquisa, que levam em conta eleitores em grandes bolsões latinos, como Califórnia, Texas, Nova York e Illinois, onde todos sabem quem vai ganhar. Os eleitores latinos de fato mobilizados, empolgados como nunca, estão em Nevada, Colorado, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia e Arizona. Lá, eles serão novamente a grande surpresa desta eleição.

Isabel Santos e Blanchard dizem ter contado mais de 4 mil eleitores latinos, em sua maioria brasileiros, neste ano. Elas bateram na porta de ao menos 200 casas na região de Palm Beach e Boca Raton desde o começo da campanha eleitoral. A dupla auxilia no processo de registro de novos eleitores, informa onde ficam os locais de votação e incentivam o voto antecipado. Entre os principais parceiros estão as igrejas evangélicas e a católica, quase sempre pró-Obama. “A maior preocupação do eleitor brasileiro é a imigração, a economia vem em segundo plano”, diz a mineira de São Félix de Minas, há duas décadas nos EUA.

Segundo Barreto, as duas mulheres integram um fenômeno detectado nas pesquisas da Latino Decision: a dificuldade de se dimensionarem o tamanho, a qualidade e o ânimo do voto hispânico nos EUA. “Há dois anos, as pesquisas apontavam vitória dos republicanos no Senado em Nevada e no Colorado, mas o resultado foi o oposto, justamente por conta do voto hispânico.” Como os pesquisadores utilizam majoritariamente telefones fixos para as entrevistas, eles não conseguem identificar, afirma Barreto, o grosso do eleitorado latino, que usa exclusivamente celulares. Para ele, o resultado no Arizona neste ano, por exemplo, vai ser bem mais apertado do que se espera, com possibilidade real de vitória dos democratas no Senado.

A expectativa dos obamistas é a de que os latinos aumentem em 26% sua representação no eleitorado nacional em relação a 2008, quando o presidente contou com 67% dos votos de eleitores originados da América Latina. Barreto aposta que a vantagem contra Romney, opositor, ao contrário de John McCain, o candidato da direita há quatro anos, à incorporação dos 12 milhões de imigrantes não documentados, em sua maioria hispânicos, à economia formal, será ainda maior em 2012, dando ao grupo, ao lado dos negros e das mulheres, o peso decisivo em uma eventual vitória democrata