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Eleições na Espanha

O Podemos e a realpolitik

por Dan Hancox, The Guardian — publicado 25/06/2016 17h28, última modificação 27/06/2016 02h27
Movimento sofre nova derrota para conservadores na Espanha, mas PP não consegue maioria no Parlamento
Eleitores espanhóis voltam às urnas

De novo ás urnas

Atualizado às 1h54 am de segunda-feira 27. 

Pablo Bustinduy é um típico deputado do Podemos. Embora detenha o imponente título de secretário para Relações Internacionais, viaja com uma mochila e veste jeans e camiseta.

Bustinduy, 33 anos, passou a maior parte dos anos estudos em uma carreira acadêmica na França e nos Estados Unidos. Obteve doutorado em filosofia política na New School em Nova York e publicou trabalhos sobre Descartes e os movimentos Ocupem e Indignados.

Ele voltou à Europa em 2014 para unir-se ao Podemos, o novo partido de esquerda espanhol, e hoje cruza o continente sem parar, a reunir-se com seus aliados e apoiadores, na maioria jovens espanhóis obrigados a deixar o país em busca de trabalho. 

Ao refletir sobre o colapso dos dois principais partidos da Espanha na eleição geral em dezembro passado, Bustinduy disse: "O que aconteceu foi simplesmente revolucionário. Porque mesmo com um sistema eleitoral que promove o bipartidarismo temos esta paisagem completamente nova".

Após seis meses de impasse e negociações fracassadas para formar uma coalizão após a eleição, a Espanha se via numa encruzilhada histórica antes da segunda votação no domingo, 26 de junho.

Tendo chegado em terceiro lugar apertado em 2015, com 20% dos votos, o Podemos anunciou uma aliança no mês passado com a Esquerda Unida (IU), uma coalizão de esquerda que inclui o Partido Comunista da Espanha (PCE).

Eles disputaram em uma chapa unida que aglutina as várias franquias regionais do Podemos, como Unidos Podemos. Pesquisas indicavam que essa nova formação de esquerda poderia superar o antes dominante partido de esquerda PSOE no segundo lugar, dando-lhe uma chance realista de formar um governo.

Mas nas urnas o resultado foi outro. O conservador Partido Popular (PP), do premier Mariano Rajoy, conquistou 137 das 350 vagas disponíveis no Parlamento, com o PSOE em segundo (85), o Podemos em terceiro (71) e o Ciudadanos apenas em quarto (32). 

Com isso, a união das esquerdas sofreu uma dura derrota. Ficou atrás do PSOE e ainda perdeu mais de um milhão de votos em relação ao resultado de dezembro. O PP, por outro lado, conquistou mais votos, mas não obteve maioria e depende de uma coalização para governar. O cenário para a formação de um governo segue complexo, mas os partidos estão pressionados a evitar uma terceira eleição. 

Pablo Iglecias, líder do Podemos
Iglesias, do Podemos

Há a possibilidade de um governo de coalizão de esquerda do Podemos com o PSOE, mas isso seria uma nova derrota para o Podemos que não encabeçaria a chapa. Logo, Pablo Iglesias, o secretário-geral do Podemos, não poderia se tornar o primeiro-ministro.

A paciência do público se desgasta depois de seis meses de negociações e manobras infrutíferas. "Os eleitores não querem aceitar mais um limbo institucional", disse Bustinduy.

Para o Podemos, está na hora de o PSOE reconhecer "essa situação histórica" e apoiar as novas crianças da rua. "Vai depender dos resultados, mas acho que a principal pressão será sobre o PSOE: escolher se forma uma coalizão de governo progressista conosco ou permitir, de uma maneira ou de outra, que a direita fique no poder e mantenha a política de austeridade".

Em entrevista à "Spain Report", o especialista em pesquisas espanhol Kiko Llaneras disse que o Unidos Podemos "repara a desvantagem" que a esquerda sempre teve no complexo sistema eleitoral espanhol, a falta de proporcionalidade. "Se o Podemos e a IU tiverem exatamente os mesmos votos que na eleição de dezembro, mas juntos em vez de separados, conseguirão mais 13 ou 14 assentos".

A IU recebeu mais de 900 mil votos em dezembro, 3,7% do total, mas ficou com apenas 2 dos 350 lugares. As últimas pesquisas causaram consternação no PSOE, pois o partido enfrentou seu pior resultado desde o retorno das eleições democráticas em 1977.

Rajoy, do PP
Rajoy, do PP


Ao falar recentemente no coração da tradicional Andaluzia, o secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, culpou a desilusão dos eleitores pelos problemas da coalizão nos últimos seis meses, a tentativa de acordo com os Ciudadanos em fevereiro, "um partido político alheio às nossas crenças", e seu fracasso em conquistar o mesmo com o Podemos, "com quem temos mais semelhanças".

A líder do PSOE na Andaluzia, Susana Díaz buscou, entretanto, traçar as contradições no Unidos Podemos: visar atrair os moderados e os que normalmente não votam, enquanto se alia às forças da velha esquerda, os comunistas incluídos. Ela a chamou de "a maior operação de camuflagem política na história recente da Espanha".

Há desconforto em algumas partes da liderança do Podemos diante da ideia de fazer campanha com as legendas tradicionais, com as mensagens da corrente dominante do partido, cuidadosamente criadas, perturbadas por bandeiras com foice e martelo e retórica anticapitalista.

Para Bustinduy, a aliança é apenas uma união estratégica, não uma reversão aos antigos métodos da esquerda. "Acho que há uma certa beleza nesse processo de união, mas não é a união da esquerda. Tenho certeza de que 24% do nosso eleitorado, a porcentagem que, segundo as pesquisas, deverá votar no Podemos, não acordará um dia sentindo-se repentinamente de esquerda", disse. "Não é um retorno a uma essência ou uma origem, é a formação de uma nova aliança social, com uma nova linguagem e uma nova cultura política. Estamos olhando para o futuro."


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.