Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O novo papa não modernizará a Igreja Católica

Internacional

Gianni Carta

O novo papa não modernizará a Igreja Católica

por Gianni Carta publicado 12/03/2013 12h31, última modificação 06/06/2015 18h24
Um Santo Padre progressista poderá resolver questões civis, mas não acabará com o celibato eclesiástico

A partir desta terça-feira 12, 115 cardeais escolherão o novo Sumo Pontífice da Igreja Católica. Admitamos que, nos próximos dias, a fumaça branca liberada da chaminé da Capela Sistina, onde os cardeais se reúnem para votar, anunciará um papa progressista como Wilfrid Fox Napier, arcebispo de Durban, na África do Sul.

Napier, um papa franciscano negro que sobreviveu o regime do apartheid, durante o qual lidou com o lado social da Igreja, faria bem à imagem da Igreja Católica. Se vivo, Michelangelo, cujo magnífico afresco Juízo Final orna a parede atrás do altar da Capela Sistina, bateria efusivas palmas pela eleição de Napier.

Além de ter 71 anos, Napier goza de boa saúde, e é oriundo do único continente onde cresce o catolicismo. E, assim, poderia, quem sabe, orientar outros prelados mundo afora a atrair fiéis.

Mas o que faria um progressista a ocupar o trono de Pedro no seio de uma das mais velhas instituições do planeta em atividade – e totalmente fora de sintonia com a modernidade?

O óbvio.

O novo papa continuaria, como o fez o conservador Bento XVI, a lutar contra a pedofilia na Igreja. Como me disse Maco Scarpati, presidente do ECPAT-Itália, ONG a combater a prostituição de menores, a pornografia e o tráfico: “Durante os sete anos sob Bento XVI, houve maior abertura entra a Igreja Católica e a investigação contra casos de pedofilia”.

É claro que os casos de pedofilia continuaram, mas eles não foram, dentro do possível, escamoteados pela Igreja. Ademais, a pedofilia não é confinada à Igreja, como lembra Scarpati.

Assim como Scarpati, o filósofo e político Gianni Vattimo, disse, em entrevista a CartaCapital, que a pedofilia é um caso a ser resolvido pela lei civil. Portanto, o novo papa, progressista ou conservador, terá de continuar essa batalha contra padres pedófilos também fora da Igreja.

Em miúdos, a pedofilia pode ser um pecado, mas é, antes de tudo, um crime.

E entre os 115 cardeais a votar em um novo papa, há alguns que ocultaram os abusos sexuais cometidos contra menores pelos seus colegas. Um deles, um norte-americano, caminha cabisbaixo pela Praça São Pedro.

Outro problema a ser enfrentado pelo novo papa: a opacidade do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano. O banco esconde um passado no mínimo nebuloso de conexões e crimes com a Máfia, e, por tabela, de lavagem de dinheiro de várias origens.

Essas, vale repetir, são questões civis. De fato, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, disse em uma coletiva à imprensa, que o IOR cumprirá as normas europeias de luta contra a lavagem de dinheiro. Veremos.

Outra questão-mor a ser abordada pela Igreja é a reforma por uma transparência da Cúria Romana, aparato administrativo da Santa Sé. Os norte-americanos, favoráveis a uma maior transparência, têm sido os mais ativos. Travam uma luta contra os italianos encabeçados por Angelo Sodano e Taricisio Bertone, o decano dos cardeais e o secretário de Estado interino, que defendem a manutenção da máquina governamental.

No entanto, os entraves para modernizar a Igreja Católica são, entre outros, o celibato eclesiástico, o tabu contra a homossexualidade, o sacerdócio feminino, o aborto.

Como serão resolvidos?

O celibato só pode dar continuidade a mais casos de “adultério” no Vaticano.

Segundo o diário La Repubblica, o chamado lobby gay, descoberto após uma investigação que deu continuidade ao caso Vatileaks (documentos papais roubados por um mordomo), seria um dos motivos da renúncia de Ratzinger. Uma rede organizava orgias em saunas, villas e até em aposentos no Vaticano.

A Igreja, consta, está dividida.

O mordomo do papa, Paolo Gabriele, responsável pelo roubo dos documentos papais, o Vatilkeaks, faria parte de uma rede de 20 “corvos”, nome em voga para aqueles (prelados, mulheres e laicos) supostamente ligados à Santa Sé – e favoráveis a uma maior transparência. Querem, por exemplo, acabar com o lobby gay.

Disse um corvo anônimo entrevistado pelo La Repubblica que o objetivo era ajudar o papa. Mas como,  argumenta o repórter, se o papa abdicou. “A renúncia do papa foi um desafio”, rebateu.

Cumprida a missão?

“Depende se quem será o novo papa, que facção o elegerá, quem será o próximo secretario de Estado”, respondeu o corvo.

Enfim, eis o “fascinante” mistério de uma Igreja sobre a qual sobrevoam enigmáticos e poderosos corvos.

É por isso que essas eleições anacrônicas intrigam tanto o mundo.

Cardeais simpáticos que falam com a imprensa, outros sinistros, numerosos deles a usar novas tecnologias (a única aparente modernidade adotada pelos prelados, salvo um punhado deles).

E corvos.

Mas o que um papa progressista, para voltar à questão inicial, pode fazer?

Ele irá, por exemplo, acabar com o celibato eclesiástico?