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O Irã e o Egito vão se tornar aliados?

por José Antonio Lima publicado 30/08/2012 10h07, última modificação 06/06/2015 18h29
Os alarmistas bem que gostariam, mas uma aliança entre os dois países não vai ocorrer tão cedo
CHINA-EGYPT-DIPLOMACY-POLITICS-ECONOMY

Morsi é fotografado durante conversa com Xi Jinping, o presidente da China. Foto: AFP

Nesta quinta-feira 29, o presidente do Egito, Mohamed Morsi, faz uma rápida escala em sua viagem de retorno da China. Durante cinco horas, Morsi permanece no Irã para transmitir oficialmente a Mahmoud Ahmadinejad a presidência do Movimento dos Países não Alinhados (MNA). A visita, a primeira de um presidente do Egito ao Irã desde 1979, vem sendo observada com preocupação nos Estados Unidos, em Israel e nos países do Golfo Pérsico. Para os alarmistas, a passagem de Morsi por Teerã pode ser o prenúncio de uma futura aliança entre a teocracia xiita e a Irmandade Muçulmana. A realidade, entretanto, desmente o alarme. Egito e Irã têm mais diferenças que interesses comuns atualmente, garantia de que os dois países continuarão em posições antagônicas por um bom tempo.

A visita de Morsi a Teerã chama a atenção por ser o segundo aceno do presidente do Egito ao Irã em poucos dias. No meio de agosto, durante encontro de líderes muçulmanos na Arábia Saudita, Morsi sugeriu a criação de um “grupo de contato” para tentar resolver os conflitos na Síria. Este grupo teria, além do Egito, Turquia, Arábia Saudita e o Irã. Se a ideia sair do papel, o Irã passaria a ser oficialmente um interlocutor sobre o futuro da Síria, possibilidade recentemente vetada pelo governo dos Estados Unidos, engajado em isolar diplomaticamente o país persa. A possível retomada das relações entre Irã e Egito seria uma surpresa pois, desde que o Egito reconheceu Israel, em 1979, os dois países não têm relações diplomáticas. Mais que isso, a união seria “perigosa”, pois juntaria dois dos maiores países muçulmanos em torno de uma agenda contrária àquela dos Estados Unidos (e, em grande parte, compartilhada por Israel e pelos países do Golfo).

Por mais que os alarmistas gostem de imaginar o surgimento de um novo inimigo poderoso para o mundo ocidental, não é fácil que Irã e Egito normalizem relações e formem um novo bloco anti-EUA. Para o Irã, diante da instabilidade na Síria, sua maior aliada, estabelecer relações com um Estado árabe de peso seria um passo de grande importância. O Egito, porém, tem muitos obstáculos pela frente no caminho de uma nova amizade com o Irã.

O maior dos empecilhos é a diferença teológica entre as duas nações. O Egito, como a maioria dos países árabes sunitas, se recente do fato de o Irã tentar “exportar” o xiismo e a revolução islâmica para seus vizinhos. A mera divulgação da notícia de que Morsi visitaria o Irã provocou indignação em líderes salafitas (ultraconservadores sunitas) egípcios. O conflito na Síria é um complicador para esta questão. O Irã apoia a minoria alauíta, um braço do xiismo, contra a maioria sunita que busca, auxiliada por Arábia Saudita, Catar e Estados Unidos, tirar o alauíta Bashar al-Assad do poder. O próprio Morsi já se colocou ao lado da oposição a Assad, pedindo que o ditador deixe o poder, sinal de que Cairo e Teerã têm visões bastante diferentes sobre o futuro do país.

Outro empecilho para a aproximação de Egito e Irã é a relação do país árabe com os Estados Unidos e as nações do Golfo Pérsico. É da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes Unidos que chegam ao Egito todo ano bilhões de dólares em investimentos e remessas de trabalhadores expatriados. Este dinheiro é especialmente importante pois, com a brusca queda no turismo provocada pelos protestos contra o ditador Hosni Mubarak, a economia do Egito ficou em frangalhos. Esses países, como o Egito, são controlados por maiores sunitas e têm no Irã a imagem de inimigo ou, para dizer o mínimo, adversário estratégico. Qualquer aproximação entre Cairo e Teerã geraria represálias imediatas. Morsi sabe da importância desta relação. Foi exatamente por isso que escolheu a Arábia Saudita como primeiro destino de suas viagens internacionais. Da mesma forma, o Egito é muito dependente da ajuda externa enviada pelos Estados Unidos. O valor supera um bilhão de dólares anuais e serve, principalmente, como garantia de que o Egito manterá o tratado de paz com Israel. Hoje, o Irã não tem qualquer condição de substituir os países do Golfo ou os EUA em qualquer um desses dois papéis.

Por qual motivo, então, Morsi está fazendo acenos positivos ao Irã? Yasser Ali, o porta-voz de Morsi, respondeu, em entrevista ao jornal Asharq Al-Aswat. "Não queremos salientar esta relação, ou fortificá-la ou construir novos laços. Estamos tentando ter relações normais, num ritmo lento e atentos, pois não confiamos em suas relações externas". O que os alarmistas precisam entender é que as manifestações do início de 2011 e as posteriores eleições democráticas deste ano enterraram o Egito de Mubarak. Aquele país submisso aos EUA, mero amplificador da política externa norte-americana, deu lugar a um país que, se por um lado reconhece a importância da paz com Israel e das parcerias com Washington e as nações do Golfo, por outro buscará cada vez mais ampliar suas relações com outros governos e desenvolver uma política externa independente. Essa estratégia só trará resultados positivos a Morsi. Em primeiro lugar, porque o Egito passará a ser visto com maior respeito no cenário internacional. Em segundo, porque um dos traços do Egito de Mubarak que os próprios egípcios mais odiavam era a submissão cega aos EUA. É por isso que Morsi foi à Arábia Saudita e programou visita aos EUA e, ao mesmo tempo, visitou a China, passou pelo Irã e deve, inclusive, vir ao Brasil.

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