Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O indiscreto Charlie Hebdo e a heresia

Internacional

Opinião

O indiscreto Charlie Hebdo e a heresia

por Rogério Godinho — publicado 20/01/2016 05h50, última modificação 20/01/2016 12h49
O contexto cultural francês pode ajudar a compreender de onde vieram as charges que chocaram o mundo
AFP
Charlie Hebdo

A capa do Charlie Hebdo de 6 de janeiro de 2016 lembrou o atentado de 2015: trouxe uma figura representando Deus e carregando um fuzil, com a inscrição "Um ano depois: o assassino ainda está à solta"

Tenho visto as pessoas chocadas – com razão – com a charge do Charlie Hebdo retratando o menino Alan Kurdi, refugiado sírio encontrado morto em uma praia da Turquia em setembro. Há várias acusações. De xenofobia, de racismo, de falta de respeito com a dor da família, de usarem a imagem do menino despudoradamente.

Independentemente da intenção do ilustrador, sou forçado a concordar com essas acusações porque acredito que o comunicador deve avaliar o impacto de seu trabalho no público. Entretanto, quero compartilhar com vocês algum contexto sobre o trabalho da publicação e a própria cultura francesa do humor.

Em primeiro lugar, o alvo do Charlie é justamente a xenofobia e o racismo. Nenhum artista ali concorda com os estereótipos. O objetivo dele é a denúncia. A charge está dizendo: “É isso mesmo que você acha que é?”

“Você acha mesmo que todos os imigrantes são daquele jeito?”

“Consegue enxergar o absurdo disso?”

O jornal está tentando – sem muita competência nessa charge, do meu ponto de vista – criticar o pensamento xenofóbico, reacionário e racista.

Alan Kurdi, Charlie Hebdo
"O que teria sido o pequeno Alan se tivesse crescido?", questiona a polêmica charge de Riss
No caso dessa edição, o autor da charge tem um longo histórico de crítica à xenofobia. Laurent Sourisseau, o Riss, é diretor de redação e principal proprietário do jornal. Portanto, não se trata de qualquer chargista. Também era dele a charge com Alan caído em frente a um outdoor do McDonald's.

Particularmente, não sou fã do Riss. Sua ânsia em chocar é demais para os meus padrões brasileiros. Não porque ele tenha usado o garoto. Afinal, todo mundo usou o garoto. Imprensa, governos, até gente defendendo os imigrantes, como eu, usou. Minha crítica a ele é porque faltou empatia para entender como seu desenho causaria dor nas pessoas.

Mas para o leitor tradicional do jornal a intenção de criticar a xenofobia está muito clara. Mesmo o consumidor regular do humor francês entende isso. Na cultura francesa, existe a ideia do second degré (assim mesmo, a expressão usa second). É mais ou menos o que nós entendemos por ironia. Para eles, o sentido literal e óbvio está na primeira camada (ou premier degré). E o que você interpreta, vê depois, o second degré. Menos usadas, ainda há troisième degré e quatrième degré.

Além do plano teórico, existe a intenção de chocar. Antes mesmo de Luís XVI subir no cadafalso, já havia charges dele decapitado. Suprema heresia na época, mesmo em tempos revolucionários. Se eu vivesse no tempo de dona Maria Louca, diria que aqueles franceses não tinham decência, que não tinham limites.

A elite cultural francesa rejeita a ideia de tabu. Tudo pode e deve ser revirado, contestado, terra arrasada, uma tradição que remonta a Descartes. E isso inclui qualquer conceito de pudor. Por exemplo, com relação ao sexo. Para eles, o caso Monica Lewinsky não fez o menor sentido. Presidentes franceses pulam a cerca e não faz a menor diferença.

Para eles, humor não tem tabu. Quando uma revista de extrema-direita ridicularizou a ministra francesa Christiane Taubira, que é negra, outro chargista do Charlie ficou possesso. Foi o Charb, que morreu no atentado ano passado. Ele disse: “A extrema-direita quis fazer um gracejo popular quando na verdade publicou um slogan racista, um insulto colonialista”.

Em seguida, fez uma charge retratando a ministra como macaca. Para você e eu, um desenho absolutamente horrível. Mas o leitor do Charlie imediatamente entendeu que ele tinha saído em defesa da ministra. Talvez você, mesmo não gostando, até possa aceitar isso. Mas não que usem uma criança inocente morta, certo?

É aqui que eu quero reforçar: eu fiquei chocado com a charge. Não só com essa, mas também com as outras produzidas quando Alan morreu e com muitas outras publicadas antes. E, óbvio, essa última foi pior. Os personagens com feição simiesca, a sugestão de que o menino se tornaria um estuprador, de que todo imigrante seja parte daquilo. Mesmo que a intenção seja criticar, a imagem é lamentável. E pode certamente ser usada para outros fins.

O que eu desejo ressaltar aqui é a diferença entre a nossa cultura e a deles. O contexto da publicação.

Eu não gosto.

Eu não aceito.

Mas eles não enxergam o que eu enxergo. Eles imediatamente enxergam a crítica.

Um bom paralelo talvez seja uma capa em que a revista americana New Yorker retratou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como um muçulmano. Foi uma evidente tentativa de emular a cultura francesa do escracho. Em plena disputa eleitoral, a ilustração causou alvoroço. Ambas as campanhas – Obama e McCain – protestaram contra a capa. “Vocês foram longe demais.”

E ambas as campanhas tinham plena consciência de que a New Yorker não estava dizendo que Obama é muçulmano. Óbvio que não. A New Yorker é liberal e democrata. Ela estava ironizando aqueles que diziam isso. Mas Obama e McCain não quiseram saber, seus eleitores não gostaram, pois não entenderam o second degré. Não deu certo.

Aí entra um último ingrediente nessa receita. O público do Charlie Hebdo explodiu. Era uma publicação famosa, mas hoje é uma marca mundialmente popular. Riss continua falando com o seu leitor regular, que é quem de fato compra e entende a revista, mas milhões de outros estão prestando atenção. Para estes, é fácil apontar um desenho e dizer: “É do Charlie, aqueles caras do atentado. Acho que mereceram!”.

Ou seja, um público que nunca leu o Charlie interpreta a charge como uma ofensa. Que ela efetivamente é mesmo, ao se considerar a mensagem explícita, o premier degré.

É onde eu e você entramos. Dificilmente vamos aceitar alguns dos exageros do Charlie Hebdo. Mas talvez possamos entender o que realmente está acontecendo ali. E dizer, sem ódio: “Esses franceses não têm limite mesmo”.

*Rogério Godinho é palestrante e escritor. Autor das biografias O Filho da Crise, Tente Outra Vez e Nunca na Solidão. Estudou História Global e Globalização em Harvard e foi aluno-visitante de filosofia no MIT.

registrado em: ,