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O futuro da Síria após Assad

por José Antonio Lima publicado 16/08/2012 11h22, última modificação 16/08/2012 11h45
Diante do aparente capítulo final do regime, as dúvidas surgem quase naturalmente: Que tipo de governo se instalará em Damasco?
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Coberto de poeira após uma explosão, rebelde gesticula no distrito de Salaheddin, em Alepo, maior cidade da Síria. Foto: Phil Moore

A cada dia que passa, o fim do regime de Bashar al-Assad parece mais próximo. Forças aliadas ao ditador mantêm os ataques contra os rebeldes, mas os relatos, de forma frequente, dão conta de que grandes partes do território da Síria não estão mais nas mãos do governo. Riyad Hijab, primeiro-ministro de Assad que desertou na semana passada, calcula que 70% do país é controlado por rebeldes. Diante do aparente capítulo final do regime, as dúvidas surgem quase naturalmente. Quem substituirá Assad? Que tipo de governo se instalará em Damasco? Quem serão os novos poderosos na Síria?

As respostas para todas essas perguntas passam pelo medo de que a Síria se torne uma república fundamentalista, base para grupos terroristas. A tese de que a oposição síria é formada por terroristas surgiu de dentro do regime Assad, foi adotada pelo governo da Rússia, protetor-mor de Assad, e encontra ecos em extremistas de direita e esquerda pelo mundo, inclusive no Brasil. A tese é flagrantemente mentirosa, mas a preocupação com o extremismo na Síria cresce ao mesmo tempo em que o fim do regime se aproxima.

A oposição a Assad é bastante plural. Os ativistas que iniciaram o levante com protestos pacíficos em março de 2011 continuam organizados nos Comitês de Coordenação Local. Esses grupos, em muitos casos, são sustentados pelas verbas do Conselho Nacional Sírio (CNS), um órgão formado majoritariamente por sírios expatriados. O CNS, cujo objetivo principal é convencer outros governos a apoiar o levante com armas, vem perdendo influência por sua incapacidade de cumprir a meta e de estabelecer uma liderança sobre os grupos armados que estão nas ruas, lutando casa a casa contra as forças pró-Assad.

Na linha de frente há muitos grupos. O principal deles é o Exército Livre da Síria (o ESL), composto principalmente por militares que desertaram quando Assad começou a massacrar sua própria população, mas também por civis e até combatentes estrangeiros. O ESL tem algumas ligações com o Conselho Nacional Sírio. A parceria desses dois grupos era a maior aposta do Ocidente para exercer influência na Síria pós-Assad, mas a existência de outras facções entre os combatentes preocupa.

Nas últimas semanas, tem ganhado proeminência um grupo chamado de Tawhid. São agricultores e pequenos comerciantes de cidades do interior da Síria que, com táticas de guerrilha, têm acuado as forças de Assad. Esse grupo estaria, segundo reportagem do jornal The National (dos Emirados Árabes Unidos), liderando as batalhas em Alepo, a maior cidade da Síria. Esses interioranos são conservadores e, de acordo com a mesma reportagem, colocaram líderes religiosos para comandar cidades que foram integralmente tomadas das forças governamentais. No campo religioso, os Tawhid se assemelham a grupos jihadistas que combatem Assad sob a bandeira do fundamentalismo religioso. Completam o quadro de preocupação grupos ainda minoritários que se dizem ligados à rede terrorista Al-Qaeda.

O fato de esses grupos guerrilheiros ganharem influência fora do escopo do Exército Livre da Síria e longe da liderança política do Conselho Nacional Sírio fez com que Estados Unidos, França e Reino Unido mudassem sua estratégia. Segundo o jornal The Guardian, esses governos passarão a trabalhar menos ao lado do CNS e mais com facções internas sírias que não enxerguem como ameaças a médio prazo. Tudo para que não se repita o que aconteceu com o Talibã do Afeganistão, nos anos 1980 aliado contra a União Soviética, mas depois garantidor de guarida a Osama bin Laden.

Ocorre que a nova estratégia do Ocidente desemboca num impasse. Washington, Paris e Londres querem aliados efetivos dentro da Síria, desde que sejam moderados e, portanto, capazes de conter os radicais. Ao mesmo tempo, se recusam a intervir militarmente ou fornecer armas aos rebeldes, única forma de encerrar o conflito com mais rapidez. Levando em conta que a tendência é o fundamentalismo religioso e o ódio sectário entre sunitas, curdos, cristãos e alauítas xiitas tomar conta da Síria à medida que o conflito toma corpo, chega-se ao impasse.

Neste cenário, o Conselho Nacional Sírio aposta que poderá convencer as potências ocidentais a se engajarem de forma mais efetiva no conflito. Em entrevista a CartaCapital, George Jabboure Netto (confira a íntegra), integrante do Comitê de Relações Exteriores do CNS, afirmou que quanto mais cedo o Ocidente apoiar a revolução, melhor será. “Quanto mais tempo durar o conflito e quanto mais se deteriorar a situação humanitária, maior a chance de o radicalismo e o caos prevalecerem”, disse ele. O Ocidente aposta, em contrapartida, que poderá encontrar os aliados certos até o momento em que Assad cair. Resta saber se teoria se comprovará na prática quando a ditadura dinástica de 41 anos deixar o cenário.

Confira abaixo quem são e o que fazem os principais grupos opositores sírios:

Conselho Nacional Sírio (CNS)

É o principal grupo da oposição, formado em 2011 e hoje reconhecido como força legítima por potências ocidentais como Estados Unidos, França e Reino Unido, pelos dois principais rivais árabes de Assad, Arábia Saudita e Catar, e pela Turquia, outra inimiga do regime sírio.

O grupo é baseado em Istambul e conta com inúmeros integrantes da diáspora síria pelo mundo. Há muitas divisões internas, especialmente entre árabes e curdos e entre liberais e islamitas, como a Irmandade Muçulmana da Síria, o que tem tirado a credibilidade do grupo.

Na Síria, há suspeitas quanto ao CNS pelo fato de o grupo não atuar dentro da Síria. Sua liderança promete fazer isso assim que houver segurança para estabelecer uma sede no país.

Comitê de Coordenação Nacional (CCN)

É uma organização política baseada em Damasco, formada principalmente por partidos esquerdistas que faziam oposição a Assad antes mesmo do início dos protestos. Eles defendem o fim do regime e a remoção de Assad, mas são contrários à intervenção externa e à influência ocidental. Esta posição colocou o CCN contra o CNS em diversas ocasiões.

Comitês de Coordenação Local (CCL)

Foram criados em 2011, como forma de organizar os protestos pacíficos contra Assad. Hoje se tornaram uma espécie de órgão administrativo, em substituição ao governo, nas cidades tomadas por opositores. Muitas vezes, os CCLs sofrem com a falta de dinheiro, por não conseguirem arrecadar impostos, e com rixas internas, motivadas até por questões familiares. Alguns conselhos recebem financiamento por parte do CNS.

Exército Livre da Síria (ELS)

É composto principalmente por militares que desertaram quando Assad começou a usar violência contra os manifestantes que protestavam pacificamente. Hoje a maioria dos combatentes do ELS recebem seus salários por meio do Conselho Nacional Sírio. Reportagem da rede de tevê CNN mostrou que as milícias armadas têm também a participação de civis, como estudantes, comerciantes e corretores de imóveis. Entre eles há gente que já morava na Síria e outros que voltaram ao país para vingar a morte de parentes.

De acordo com a mesma reportagem, apesar de o grosso dos combatentes serem sírios, há muitos estrangeiros no ELS, incluindo pelo menos um “batalhão líbio”.

O ESL tem poucos armamentos. Segundo o jornal britânico The Guardian, não há sinais de armamentos pesados repassados por outros países aos rebeldes. Segundo relatos anteriores, Arábia Saudita e Catar tem comprado armas manuais no mercado negro e repassado ao ESL com ajuda de informações de inteligência fornecidas pelos Estados Unidos.

Liwa al-Tawhid

O nome significa Brigada da Unidade. É uma milícia formada principalmente por sírios do interior do país que tem ganhado proeminência nas últimas semanas, especialmente na batalha de Alepo. A relação com o ESL não é exatamente clara. Alguns relatos dão conta de que a brigada é uma parte do Exército Livre da Síria, mas outros apontam ações isoladas do grupo. De acordo com o jornal The National, a Brigada da Unidade é majoritariamente formada por gente com perfil religioso conservador. O grupo também teria sido responsável pela execução sumária de soldados pró-Assad, o que provocou indignação na comunidade internacional e acusações de que os rebeldes adotavam as mesmas práticas do regime. Os líderes da brigada dizem que os responsáveis pelas execuções foram julgados e punidos pelo crime.

Jihadistas

Há pelo menos dois grupos de jihadistas atuando na Síria. Eles são bastante obscuros e foram identificados em reportagem da revista norte-americana Time como o Frente de Apoio ao Povo da Síria e as Brigadas de Ahrar al-Sham. Ambos são pequenos, mas agem em coordenação com milícias do Exército Livre da Síria. Segundo a reportagem, os grupos negam ligação com a Al-Qaeda apesar de ter ideologia muito próxima à do grupo de Osama bin Laden. O financiamento dessas facções parece vir de países do Golfo Pérsico.

Al-Qaeda

Reportagem do The New York Times mostrou como o grupo terrorista está se infiltrando aos poucos na Síria. De acordo com o jornal, isso estaria ocorrendo por meio de três grupos – a Frente Al-Nusra para o Povo do Levante, as Brigadas Abdullah Azzam e a Brigada do Martírio Al Baraa ibn Malik. A entrada da Al-Qaeda estaria ocorrendo principalmente por meio da fronteira com o Iraque, onde o grupo ainda atua. Facção sunita que defende uma guerra permanente com os xiitas, a Al-Qaeda estaria trabalhando para ampliar o sectarismo no conflito sírio, instigando ataques contra os alauítas, grupo muçulmano de Assad, derivado do xiismo.