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The Observer

O fracasso da guerra às drogas

por The Observer — publicado 12/04/2012 10h08, última modificação 06/06/2015 18h22
Nem a Colômbia de Juan Manuel Santos aposta mais no mero uso da força
Alfonso Cano

Santo evitou o tom triunfalista ao anunciar a morte de Cano, o líder das Farc

Por John Mulholland, de Bogotá

Os detalhes da segurança nos gabinetes presidenciais em Bogotá eram reforçados, compreensivelmente. A polícia armada e os militares estavam muito em evidência enquanto o presidente Juan- Manuel Santos, da Colômbia, recebia os líderes da Bolívia, Equador e Peru para uma cúpula econômica regional. As forças de segurança diante do Palácio de Nariño, no centro da cidade, tinham um motivo especial para estar em alerta máximo. A cúpula ocorreu alguns dias depois que as forças especiais da Colômbia mataram Alfonso Cano, líder do grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Foi um grande sucesso para Santos, uma figura cada vez mais influente na política latino-americana. O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva disse recentemente que Santos ruma para assumir o manto de um líder continental.

O cumprimento de Lula é verdadeiro ao menos em um sentido, já que Santos emergiu como a principal voz, no palco político internacional, que pede uma grande reavaliação da guerra às drogas. O pedido de Santos de um novo debate sobre a regulamentação das drogas é fortemente simbólico, pois a Colômbia sofreu mais que qualquer outro país nas mãos dos narcotraficantes.

Santos chama atenção para os danos sofridos pelos países produtores na América Latina, enquanto continuam a servir à crescente demanda por drogas nos países consumidores do Ocidente. Sua voz tem se tornado chave na tentativa de estabelecer os termos de uma nova discussão internacional sobre a guerra.

A reação de Santos após a morte de Cano, amplamente descrita na mídia local como o golpe mais significativo contra as Farc, evitou o triunfalismo. E por bons motivos. Nos meses que levaram ao assassinato de Cano, mais de 20 soldados foram mortos pelas Farc. Com essas mortes vieram os primeiros sinais de inquietação pública de que os ganhos em segurança obtidos nos últimos dez anos começavam a escapar. A importante revista política Semana disse: “A morte de Cano não poderia ter vindo em melhor momento para o governo”.

As Farc surgiram em meados dos anos 1960 como um grupo marxista-leninista determinado a derrubar um Estado que elas consideravam marcado por desigualdades, onde o poder e os altos cargos eram dominados econômica e politicamente por um grupo de famílias de elite. A ideologia de esquerda das Farc era dirigida por um grupo de jovens homens e mulheres educados em universidades e fazia parte de um movimento mais amplo na América Latina, onde grupos revolucionários pegavam em armas em busca de justiça social e reagiam à terrível pobreza e desigualdades chocantes em todo o continente.

No auge de seu poder nos anos 1990, as Farc controlavam um terço do território colombiano. Hoje isso está muito reduzido e espalhado pelas partes mais remotas do país. Depois de uma década de ofensiva militar, muitos colombianos acreditam que o fervor ideológico das Farc praticamente desapareceu e em seu lugar surgiu um apetite crescente pelo tráfico de drogas.

A Colômbia, hoje, emerge de seus dias mais sombrios da guerra contra a guerrilha e os narcóticos. Atrai cada vez mais investimentos estrangeiros para suas cidades renascidas de Bogotá e Medellín. Onde os conflitos e o terrorismo eram habituais, hoje há verdadeiros sinais de um renascimento cívico e econômico. As cidades são regeneradas, o turismo floresce e os índices de crescimento impressionam.

Mas a história recente da Colômbia ainda apresenta as cicatrizes profundas de sua batalha contra as drogas. Como diz Santos: “Nós desmontamos os cartéis da droga. Aqueles grandes cartéis que puseram nossa democracia de joelhos não existem mais. O único grande cartel ainda são as Farc, mas nós os enfraquecemos cada vez mais”.

Nesse contexto, como presidente de um país que foi quase quebrado por uma combinação de cartéis da droga e narcotraficantes-guerrilheiros, os recentes pronunciamentos de Santos sobre a guerra às drogas são ainda mais notáveis. No mês passado, ele disse: “O mundo precisa discutir novas abordagens... basicamente ainda estamos pensando no mesmo esquema que nos últimos 40 anos”.

Santos foi mais longe que qualquer outro político para abrir o debate. Em uma entrevista ao Observer, enunciou as ideias radicais que espera que criem uma nova abordagem. Ele disse: “Uma nova abordagem deve tentar eliminar o lucro violento que vem do tráfico de drogas... Se isso significa a legalização, e o mundo pensar que é a solução, eu a aprovarei. Não sou contra”.

Mas ele deixa claro que qualquer iniciativa precisa fazer parte de um plano de ação internacional coordenado, e descarta qualquer ação unilateral da Colômbia. “O que eu não farei é me tornar a vanguarda desse movimento, porque então serei crucificado. Mas participaria alegremente dessas discussões, porque somos o país que ainda sofre mais e sofremos mais historicamente com o alto consumo no Reino Unido, Estados Unidos e Europa, em geral.”

Santos está preparado para ir muito além do que os outros: e abre um debate sobre a legalização da maconha e talvez da cocaína. “Eu falaria em legalizar a maconha e mais do que apenas a maconha. Se o mundo pensar que essa é a abordagem correta, porque, por exemplo, em nosso caso, costumávamos ser exportadores, mas fomos substituídos pelos produtores da Califórnia. E houve até um referendo na Califórnia para legalizá-la e eles perderam, mas poderiam ter ganhado. Eu pergunto a mim mesmo como você explicaria que a maconha fosse legalizada na Califórnia e o consumo de cocaína seja punido em Idaho? É uma contradição. Por isso é um problema difícil estabelecer os limites. É uma decisão difícil. Por exemplo, eu nunca legalizaria drogas duras como a morfina ou a heroína, porque na verdade são drogas suicidas. Eu -poderia considerar legalizar a cocaína se houver um consenso mundial, porque essa droga nos afetou mais aqui na Colômbia. Não sei o que é mais prejudicial, cocaína ou maconha. Essa é uma discussão de saúde. Mas, novamente, só se houver um consenso.”

Santos não é o único. Existe uma crescente impaciência nos países produtores da América Latina que sofrem agudamente enquanto seus cartéis das drogas suprem a demanda dos países consumidores.

Para Santos e a Colômbia, a questão das drogas é muito maior que para os países consumidores. Na terra de Santos, as drogas são “uma questão de segurança nacional”, enquanto para outros são “principalmente uma questão de saúde e criminalidade”. Ele fala de modo eloquente sobre o preço que seu país pagou – e continua a pagar – para alimentar o apetite do Ocidente por drogas ilícitas. “Nós passamos por uma experiência tremenda, dramática e cara para uma sociedade vivenciar. Perdemos nossos melhores juízes, nossos melhores políticos, os melhores jornalistas, os melhores policiais nessa luta contra as drogas, e o problema continua aí.”

É difícil superestimar a importância simbólica de um presidente colombiano que entra no debate com tal força, diante do papel central que as drogas tiveram na sangrenta história recente de seu país. Santos está muito consciente do simbolismo e do papel que ele desempenha. “Sim, estou consciente do que isso significa. Eu disse ao presidente Calderón, do México: ‘Você e eu temos muito mais autoridade para falar sobre isso porque nossos países derramaram muito sangue combatendo os traficantes de drogas e devemos promover essa discussão’.”

Se a guerra às drogas falhou, o fez de modo mais abjeto na América Latina. É lá que os corpos são enterrados. Ou nem tanto enterrados, já que as gangues de drogas mexicanas preferem jogar os corpos de suas vítimas à margem das estradas nas cidades de fronteira com os Estados Unidos ou deixá-los pendurados de pontes para servir como advertência pública a quem atrapalhar seu caminho.

No início de novembro, narcotraficantes decapitaram um blogueiro em Nuevo Laredo por relatar as atividades dos Zetas, a gangue de narcotraficantes que praticamente controla a cidade mexicana na fronteira com os EUA. Um mês antes, eles decapitaram uma mulher de 39 anos que blogava para o mesmo site. Em setembro, eles enforcaram um casal em um viaduto e deixaram uma nota dizendo que foram mortos por “sua atividade na mídia social”. São quatro assassinatos de cerca de 42 mil, nos últimos cinco anos. O preço das drogas na América Latina pode ser avaliado em dólares, mas também custa vidas.

Os efeitos da guerra são intermináveis, mas profundos, pois os vastos fundos dos narcotraficantes foram usados para corromper os corpos políticos. O ex-presidente colombiano Ernesto Samper foi acusado publicamente de ter conquistado o poder à custa do Cartel de Cali. As drogas representam uma ameaça para a própria existência das instituições cívicas em muitos países na linha de frente da guerra às drogas.

Mas a América Latina começa a levar a luta para os países consumidores da Europa e para os EUA. O presidente do México, Felipe Calderón, entrou no debate em setembro, quando aproveitou um discurso em Nova York para atacar os países consumidores, que não fariam o suficiente para reduzir a demanda. Ele visou diretamente os EUA: “Vivemos no mesmo edifício. E nosso vizinho é o maior consumidor de drogas do mundo e todos querem lhe vender drogas por nossas portas e janelas”.

Quanto mais estridentes se tornarem essas vozes latino-americanas, mais difícil será para os líderes dos países consumidores manter o silêncio no debate sobre a eficácia da guerra.

Foi para esses líderes ocidentais que a Comissão Global sobre Políticas de Drogas se dirigiu quando lançou seu relatório notável no início deste ano. A comissão de 19 pessoas inclui o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, o ex-secretário de Estado americano, George Shultz, o ex-presidente do Federal Reserve dos EUA, Paul Volcker, e os ex-presidentes Ernesto Zedillo, do México, Fernando Henrique Cardoso, do Brasil e César Gaviria, da Colômbia.

A primeira linha do relatório dizia: “A guerra às drogas falhou”. Depois de detalhar os custos, ineficiências e efeitos prejudiciais do combate às drogas, ele fazia esta súplica: “Os líderes políticos e as figuras públicas deveriam ter a coragem de articular publicamente o que muitos deles reconhecem em particular... que a guerra às drogas não foi e não poderá ser ganha”.

Cabe a Santos e outros incitar o debate e tentar promover uma discussão mais ampla. “Espero que haja uma mudança no debate. Estou aberto para e aprecio essas discussões e esse debate”, ele diz. “Somos o país que mais sofreu. Espero que o mundo entre em um debate frutífero e dinâmico sobre essa questão e que encontrem uma nova solução eficaz e ficarei ainda mais feliz em apoiá-la.”

Mas líderes políticos dos países consumidores ainda não demonstraram apetite para aderir ao debate. Na verdade, é bem o oposto. “Esse é um tema político muito delicado e existe muita hipocrisia nele”, diz Santos. “Muitos líderes em particular dizem uma coisa e em público dizem ‘mas eu não posso fazer isso, porque meus eleitores realmente vão me crucificar’.”

Uma das contradições mais evidentes está nos Estados Unidos. Enquanto de um lado um número crescente de estados americanos semilegalizaram a maconha (é obtida gratuitamente em ambulatórios com uma receita médica fácil de conseguir), por outro lado o país despeja bilhões de dólares para ajudar os militares mexicanos a combater os cartéis da droga que ativamente colocam a maconha nos EUA.

Barack Obama declarou a guerra às drogas um “completo fracasso”. E continuou: “Precisamos repensar como estamos operando na guerra às drogas, porque atualmente não estamos fazendo um bom trabalho”. Mas isso foi em janeiro de 2004.

Santos esboça um novo futuro para a Colômbia e tenta imaginar um que não envolva seu país ser prejudicado pela guerra contra os narcóticos ou a guerrilha. Seus ataques militares às Farc acompanham uma tentativa determinada de eliminar a extrema pobreza do país, o problema social e econômico que deu origem ao grupo guerrilheiro.

Como a Colômbia reconhece, até 7 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza (moradias em favelas sem eletricidade ou água potável). Santos diz: “Queremos ser um país com uma vantagem competitiva no mundo. E um país com uma democracia sólida. Fazer o que for necessário para atacar os problemas sociais e a extrema pobreza, que são provavelmente os piores deles”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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