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O czar chega de moto

por Gianni Carta publicado 02/03/2012 13h18, última modificação 02/03/2012 13h46
A vitória de Putin nas eleições é certa, mas desta vez é muito menos fácil. E há problemas no ar
Vladimir Putin

Putin terá de enfrentar as crescentes resistências ao sistema autoritário, implantado para impor uma política neoliberal. Foto: Sergei Karpukhin / AFP

Vladimir putin será provavelmente eleito no primeiro turno do pleito presidencial no domingo 4. Segundo o diário russo Pravda, pesquisas de intenção de voto lhe conferem entre 53,5% e 58,6% dos votos. Ou seja, o premier tem larga margem acima dos 50% necessários para ocupar o cargo máximo do país sem enfrentar seus quatro oponentes num segundo turno.

Seu terceiro mandato presidencial não será, no entanto, um passeio no parque como foram os anteriores. De saída, ele já não tem popularidade para vencer o pleito como na presidencial de 2004, quando conquistou 71% dos votos. Terá de lidar com um crescente número de demonstrações contra seus 12 anos a promover reformas na selva neoliberal que impõe por meio de um brutal sistema autoritário. Jornalistas foram perseguidos, espancados, presos e mortos. Numerosos empresários que se opuseram ao regime de Putin, como Mikhail Khodorkovsky, estão atrás das grades. Até as elites beneficiadas pelo neo-liberalismo, inclusive a bela Ksenia Sobchak, anfitriã de um reality show e também conhecida como a Paris Hilton russa, estão fartas da falta de democracia no país. Mikhail Gorbachev, o último presidente da União Soviética, disse alto e claro que está na hora de Putin deixar o poder.

Ademais, a campanha à Presidência de Putin, de 59 anos, foi no mínimo patética. O “homem de ação” com a missão de salvar a pátria mostrou ter perdido apelo para numerosos compatriotas. Putin abriu sua campanha já no fim de agosto a bordo de uma Harley-Davidson. Os harleiros que o seguiam adentraram a cidade portuária de Novorossiysk, que comemorava sua libertação no tempo da Segunda Guerra Mundial. No seu discurso, Putin, ao som do hino dos motoqueiros, os Night Wolves, chamou os colegas de jornada de “irmãos patriotas”. Foi visto também, sempre em agosto, encontrar ânforas do século VI num espetacular mergulho. Houve quem ficasse impressionado com aquele premier munido de uma sofisticada máscara de oxigênio emergir das profundezas.

O judoca Putin voltou, como fez ao chegar ao Kremlin, a ser fotografado aplicando golpes indefensáveis. Fotos de uma histórica viagem à Sibéria, em 2008, voltaram a ser publicadas. Eis Putin, torso à vista, a caçar tigres, pescando, cavalgando. À época Putin, dizem, queria trabalhar sua imagem de machão para conquistar uma campeã russa de ginástica rítmica, então de 24 anos. Ele teria beijado a bela Alina Kabaeva, fotografada seminua em revistas russas, em um restaurante. Na campanha presidencial que acaba de ser encerrada, correu o rumor de que Kabaeva e Putin teriam um filho. Ao contrário de Nicolas Sarkozy, que ao longo da campanha eleitoral abraça Carla Bruni como se fosse um troféu, Putin não apareceu em momento algum ao lado de sua mulher, Lyudmila Putina. Estariam os dois à beira do divórcio? Murmura-se que Putin teria mandado a mulher para um mosteiro.

Houve outras encenações claramente orquestradas por Putin. O jornalista Slava Alekseyev contou a CartaCapital que a diretora da escola secundária onde trabalha sua mulher teve de assinar um documento oficial, no qual garantia sua participação em uma manifestação pró-Putin. Outros foram pagos para pronunciar-se a favor do futuro presidente.

Um comercial num website, a convocar eleitoras “virgens”, chamou especial atenção. No vídeo, intitulado Putin, Amor na Primeira Vez, uma jovem diz ao médico que está nervosa, embora esteja apaixonada. O doutor, compreensivo, responde que todo mundo fica nervoso. “O importante é acreditar na escolha, porque acreditar é amar.” No final do vídeo, a moça aparece ao lado de Putin a caminho das urnas.

Como nas eleições de 2000 e 2008, os serviços secretos informam ter conseguido evitar supostas tentativas de assassinato de Putin. Nesta semana que precede o voto do dia 4, o Canal 1 de tevê noticiou que dois sicários incumbidos de assassinar Putin pelo rebelde checheno Doku Umarov, líder do movimento separatista islâmico, foram presos em Odessa, na Ucrânia. Putin, o durão, altaneiro, desconversou: “Estou acostumado com esses terroristas”. Alekseyev, o jornalista, diz: “Essa última tentativa de assassinato de Putin foi, mais uma vez, pura invenção para aumentar sua popularidade”. Emenda Alekseyev: “Os ditos assassinos foram presos no início de fevereiro, mas só vieram à luz agora, às vésperas do pleito presidencial”. Em outras palavras, fundamental é deixar claro que ele, Putin, é quem pode lidar com os terroristas. Mesmo imaginários.

Putin se porta como czares e ditadores. Alega-se que a Rússia não tem uma sociedade civil funcional e, portanto, precisa da permanência de um líder forte. Ele foi reeleito presidente em 2004 e nomeado primeiro-ministro quatro anos depois. Isso porque a Constituição não lhe permitia um terceiro mandato consecutivo.

Graças ao atual presidente Dmitry Medvedev, fantoche de Putin, o mandato presidencial é agora de seis anos, em lugar de quatro. Assim sendo, é provável que Putin permaneça no poder até 2024, se for novamente candidato em 2018. Assim, ele superará Leonid Brezhnev, que ficou 18 anos na liderança da União Soviética. E só perderá para Stalin, ditador por 31 anos. E assim como czares e ditadores, Putin diz ser o homem que salvou a Rússia de sua instabilidade nos anos 90. Mais: o país voltou a ter status de poder global.

Nada disso, vale repetir, comove uma significante fatia dos russos. Escreveu no diário britânico The Guardian o presidente da gigante de petróleo Yukos, Mikhail Khodorkovsky, atrás das grades desde 2003 por fraude fiscal: “Os russos querem uma economia modernizada, uma genuína sociedade civil, um código penal apropriado e um crível ataque contra a corrupção”. Khodorkovsky, 48 anos, hoje potente voz da oposição, na verdade foi encarcerado por financiar legendas de oposição a Putin. Enquanto isso, uma caterva de empresários sonegadores, mas próximos a Putin, continua à solta.

Após o colapso da União Soviética em 1991, a sociedade russa, é claro, mudou. E, vale recapitular, integrantes de todas as classes sociais, incluindo as mais favorecidas e beneficiadas pelo neoliberalismo selvagem permeado de corrupção, não estão satisfeitos. Prova disso é a participação dos mais endinheirados em protestos.

Uma celebridade a participar da última manifestação, no domingo, foi Sobchak, a já citada Paris Hilton russa. Sobchak e outros integrantes das elites concordam que houve manipulação nas legislativas de dezembro por obra da legenda Rússia Unida, liderada por Medvedev. Segundo Yevgenia Albats, diretora do semanário Novoye Vremya, mais de 15% dos votos foram falsificados. “O resultado real da Rússia Unida não supera 35%”, afirmou Albats. De qualquer forma, a agremiação de Medvedev e Putin obteve apenas 12 cadeiras acima da maioria absoluta na Duma, a Câmara Baixa do Parlamento. E assim perdeu a maioria de dois terços para modificar a Constituição.

Ksenia, filha de Anatoly Sobchak, ex-prefeito de São Petersburgo nos anos 90, quando Putin era seu vice, ganhou montanhas de dinheiro como apresentadora de um reality show de baixo nível, comparável ao Big Brother global. Mas, ao contrário dos apresentadores brasileiros que raramente contrariam seus patrões e dirigentes políticos, Ksenia, de 30 anos, voltou-se contra o futuro presidente. Recentemente, escreveu: “Vladimir Vladimirovich (Putin) ainda tem uma chance. Ele pode dialogar, gradualmente introduzir reformas, eleições livres, juízes e mídia honestos, e, mais importante, burocratas que não sejam corruptos”.

Ksenia também entrou numa dividida com Vasily Yakemenko, fundador do movimento pró-Kremlin Nashi (Nosso). Nashi, explica Alekseyev, “é um agrupamento similar à juventude hitlerista, que na Alemanha nazista exterminava os inimigos do regime sem recorrer ao tribunal”. Algo como os esquadrões da morte no Brasil, compara Alekseyev, que já visitou o País diversas vezes. Sobchak não teme o grupo Nashi, que costuma recorrer à violência. Ela filmou seu líder, Vasily Yakemenko, num restaurante estrelado de Moscou com o objetivo de mostrar como ele tem bala para pratos caros. E quem os banca? Yakemenko rebateu: “Ela (Sobchak) não passa de uma simples prostituta”. Uma coisa é certa: Sobchak sai-se melhor que Paris Hilton.

Por sua vez, os trabalhadores, argumenta o semanário norte-americano The Nation, ainda não se unem numa revolta graças “à luta cotidiana pela sobrevivência”. Sob Putin, os trabalhadores não podem ter suas próprias legendas e muito menos sindicatos livres independentes do governo. Ademais, padecem, em grande parte, de passividade e medo, características por décadas incutidas nas suas mentes e que não podem ser superadas da noite para o dia.

Desiludido com a política de seu país, mas sempre bem-humorado, Alekseyev finaliza: “Essa eleição é como todas as precedentes: não passa de manipulação. Para resumir, é uma farsa para manter Putin no poder”. Alekseyev não votará.