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O Catar e a escravidão moderna na Copa de 2022

por Gabriel Bonis publicado 29/09/2013 09h31
Entidade estima que 4 mil trabalhadores irão morrer na construção de estádios e infraestrutura do país se a legislação trabalhista continuar a ser ignorada
Comitê de Candidatura do Catar / Copa 2022
Catar

Um dos futuros estádios do Catar para a Copa de 2022

De Londres

O Catar, sede da Copa do Mundo de futebol de 2022, voltou a ser alvo de críticas devido ao mundial da Fifa. Após a revista France Football, tradicional publicação esportiva francesa, afirmar em janeiro deste ano que o país comprou o direito de hospedar o evento esportivo, a Confederação Sindical Internacional (ITUC, sigla em inglês) denunciou nesta semana que mais de 4 mil trabalhadores podem morrer no Catar antes mesmo de a competição começar, devido a precárias condições de trabalho.

No país, dono da maior renda per capita do mundo, é comum que empresas relacionadas a obras da Copa - e outras construções em geral - não respeitem leis trabalhistas internacionais, como as que estipulam a carga horária diária do funcionário e o uso de equipamentos de segurança. Com as regras de lado, acumulam-se casos de acidentes no setor de construção do país e de mortes de trabalhadores, em sua grande maioria imigrantes de países pobres da Ásia e da África.

Segundo a Confederação Sindical Internacional, que representa representa 178 milhões de filiados em 156 países, o número de trabalhadores imigrantes mortos no Catar chega a 400 por ano. A maioria deles vem do Nepal e Índia, em meio a uma população de 1,2 milhão de funcionários estrangeiros no país.

Em uma carta aberta, Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação, destacou que as autoridades do Catar esperam trazer até mais 1 milhão de trabalhadores estrangeiros para concluir toda a infraestrutura necessária à Copa. Mas se não houver reformas trabalhistas, o número de mortes aumentará concomitantemente à quantidade de novos trabalhadores. "Mais de 4 mil vidas de trabalhadores correm risco nos próximos sete anos conforme a construção das obras da Copa do Mundo comece, se nada for feito para dar direitos trabalhistas aos imigrantes", disse Burrow.

Segundo a sindicalista, após dois anos de conversas com a Fifa e o Catar nada foi feito para mudar o cenário no país que tem nível de fatalidades no setor de construção oito vezes maior que o registrado em países ricos. A carta ainda pede que o governo do Catar assuma a responsabilidade pelos trabalhadores imigrantes, associando-se a empresas de recrutamento responsáveis para garantir uma escolha ética de funcionários para as obras da Copa.

O Catar, destaca a ONG, não coleta ou publica dados relacionados a morte ou ferimentos de imigrantes.

Os casos de violações trabalhistas no país ganharam grande destaque nesta semana, após uma reportagem do jornal britânico The Guardian revelar dezenas de casos de imigrantes em condições de escravidão moderna nos canteiros de obras da Copa. Segundo as apurações, ao menos 44 nepaleses morreram entre 4 de junho e 8 de agosto deste ano, cerca de 50% deles em acidentes de trabalho ou por problemas no coração, acredita-se, causados pelas péssimas condições de trabalho e pelo calor que costuma chegar a 50 graus no verão. Muitos eram jovens com cerca de 20 anos.

A reportagem do jornal colheu relatos de imigrantes obrigados a trabalhar no calor elevado, pessoas com salários retidos por diversos meses e passaportes presos para que não pudessem fugir. Além disso, eles não teriam acesso à água potável gratuita e muitos passavam fome.

As fatalidades também atingem os indianos: ao menos 82 morreram nos primeiros cinco meses do ano. Entre 2010 e 2012, foram mais de 700.

Com as denúncias, a organização da Copa no Catar se disse preocupada com os casos de escravidão moderna, mas ressaltou que a construção dos estádios ainda não começou. As obras com irregularidades, no entanto, fazem parte dos projetos de infraestrutura para o mundial. A Fifa comentou apenas que vai contatar a organização do evento para discutir as denúncias do jornal.

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