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Gianni Carta

Nós vamos bem em Gaza. Como vão vocês?

por Gianni Carta publicado 20/11/2012 09h19, última modificação 06/06/2015 19h24
'No que parece uma constante repetição do passado, é difícil encontrar palavras para descrever a política sádica de Israel de caçar os palestinos', diz o cantor palestino Khaled El-Hibr
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Soldados israelenses inspecionam a metralhadora de um tanque de guerra posicionado na fronteira entre o sul de Israel e o norte de Gaza, nesta terça-feira 20. Foto: Jack Guez / AFP

Na Terra Santa se vive ou se morre. Faz mais de seis décadas que o problema central do Oriente Médio – a criação de um Estado Palestino -- divide o mundo árabe do ocidental. E não há esperança de paz quando o líder israelense responde por Benjamin Netanyahu. Também não ajuda o fato de o Hamas, a organização radical, não reconhecer Israel. E o quadro fica mais negro quando foguetes palestinos de produção iraniana agora alcançam as cercanias de Jerusalém.

A despeito do costumeiro balé diplomático, na segunda-feira 19 caças israelenses realizaram 100 ataques na Faixa de Gaza, ante 5 foguetes palestinos lançados contra Israel. Mais de 100 palestinos, entre os quais dezenas de crianças, perderam suas vidas desde quarta-feira em retaliação a foguetes palestinos. Em Israel morreram 3 pessoas.

A questão não é onde há o maior número de mortos. No entanto, é preciso reconhecer que a Faixa de Gaza, onde vivem 1,5 milhão de almas em sua maior parte em campos de refugiados, é a maior prisão do mundo. O conflito não é nada mais que uma guerra entre o truculento gigante Golias e o mirrado Davi.

Em tempos de Primavera Árabe, Netanyahu e seus falcões deveriam acabar com o bloqueio da prisão que é Gaza e reconhecer os Territórios Palestinos. Mas, como disse em uma entrevista telefônica Magid Shihade, professor da Universidade de Birzeit, na Cisjordãnia, 84% dos israelenses apoiam a invasão da Faixa de Gaza, segundo o diário israelense Haaretz. Isso às vésperas de legislativas em 2013, em Israel,

Shihade, ex-professor da Universidade da Califórnia e autor de Not a Soccer Game: Colonialism and Conflict among Palestinians in Israel (Syracuse University Press, 2011, US$30), cita o cantor palestino Khaled El-Hibr (leia a canção e comentários de El-Hibr abaixo) que recentemente cantou: “Quanto mais árabes mortos Netanyahu receberá mais votos”. Segundo Shihade, os israelenses queriam também testar a resistência palestina, e as reações de diferentes países árabes (especialmente o Egito) e ocidentais.

O Ocidente (leia Estados Unidos e União Europeia) está do lado de Israel, é óbvio.

Já o líder egípcio, Mohamed Morsi, da legenda Irmandade Muçulmana, que tem elos com o Hamas, chamou de volta seu embaixador em Tel Aviv, e na sexta-feira ameaçou o Estado hebreu de “medidas inabituais” caso o país não cesse as agressões. No entanto, nos últimos dias Morsi tem se mostrado mais diplomático. De qualquer forma, Netanyahu deve estar com saudades de seu fiel aliado, o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak.

Mesmo assim, como diz Shihade, com o apoio dos EUA e da UE, Netanyahu não teria maiores dificuldades em “invadir a Faixa de Gaza”.

Eis abaixo a letra do cantor e compositor palestino Khaled El-Hibr:

Nós vamos bem em Gaza

E vocês, como vão?

Nós vamos bem sob o ataque

E vocês?

Nossos mártires estão sob os escombros

Nossos filhos hoje vivem em tendas

Eles perguntam por vocês

Nós vamos bem em Gaza

E vocês, como vão?

...

O mar está às nossas costas

Mas nós lutamos de volta

O inimigo está à nossa frente

Mas nós ainda revidamos

Nós temos tudo de que precisamos:

Alimento e armas

Promessas de paz,

Nós agradecemos seu apoio!

Nós vamos bem em Gaza

E vocês, como vão?

...

Nossas almas

Nossas feridas

Nossas casas

Nossos céus

Nossos rostos

Nosso sangue

Nossos olhos

Nossos caixões

Nos protegem de suas armas,

Suas promessas,

Suas palavras,

Suas espadas

...

Nós vamos bem em Gaza

E vocês, como vão?

Aqui, o ensaio de Khaled El-Hibr sobre o conflito:

No que parece uma constante repetição do passado, é difícil encontrar palavras para descrever a política sádica de Israel (com o apoio ocidental) de caçar os palestinos, de tentar constantemente desalojar os nativos, usá-los como laboratório para armamentos, um laboratório para os jogos eleitorais israelenses -- quanto mais palestinos você matar, mais votos receberá nas próximas eleições.

Depois de uma grande rebelião na Jordânia que ocorreu horas antes da atual invasão israelense, onde pela primeira vez os jordanianos pediram a mudança de regime, e não apenas reformas cosméticas no governo, nos perguntamos por que Israel não se preocuparia com seu leal vizinho, o rei da Jordânia? Ou também faz parte do cálculo israelense nesta invasão chamar a atenção do público para a Palestina e permitir que o regime brutal da Jordânia reprima o levante?

A natureza violenta do Estado colonialista israelense, informado pela ideologia sionista racista, foi analisada pelo falecido Fayez Sayegh em seu livro de 1965 Zionist Colonization of Palestine [Colonização sionista da Palestina], o que ele analisou como um projeto de eliminação dos nativos, se possível, de desalojamento e segregação, ou de guerra constante contra os nativos e os que os cercam. Ele se originou na conquista e deve continuar pela força e a guerra, daí o perigo desse Estado militarizado para os nativos palestinos e para os árabes que vivem ao seu redor.

Sayegh continua: é um Estado percebido pelo Ocidente como sua frente contra o Oriente, daí o apoio que recebe. Tanto a União Europeia como os Estados Unidos declararam seu apoio à atual invasão israelense, afirmando que o Estado tem o direito de se proteger. De quê? De pessoas que são um laboratório para a política racista israelense e um laboratório para os armamentos israelenses financiados pelos Estados Unidos e a União Europeia, de uma população que só deseja viver dignamente, poder mover-se livremente e viver suas vidas como sempre: trabalhando, criando e recriando, sonhando?

Na análise de Sayegh, Israel não é apenas a frente ocidental contra o Oriente, mas também uma adaga no corpo unido da África e da Ásia, e se considerava, e continua a fazê-lo hoje, uma potência hegemônica nos dois continentes. Suas mãos alcançam o Sudão, a Etiópia e outras partes da África vendendo armas e apoiando qualquer regime que possa ajudar a hegemonia israelense. E fazem o mesmo na Ásia. As armas são o principal produto comercial de Israel, um produto natural de um Estado militarizado, e armas só levam a uma coisa: guerra e violência, daí a exportação de guerras e violência além da Palestina.

Os asiáticos e os africanos nunca foram consultados sobre as invasões e a colonização europeias, e tampouco são consultados hoje na ONU sobre questões relacionadas a suas regiões e relevantes para seu futuro. A decisão foi, e de modo geral continua sendo, especialmente sobre fazer guerra e violência, um privilégio do Ocidente. Pois falar de maneira diferente, planejar com autonomia, decidir por si mesmo e declarar suas opiniões, especialmente quando se trata de questões vitais para o consenso Washington/Ocidente, é cair em desgraça, tornar-se persona non grata, um terrorista. A dignidade do indivíduo nunca é respeitada, o que se procura é sua complacência.

Em seu filme Goya’s Ghosts [Os Fantasmas de Goya], lançado em 2006, o diretor checo Milos Forman nos lembra do interminável regime de inquisição sob o qual vivemos, que envolve a todos, mas especialmente brutaliza os fracos. Em uma cena que quase descreve muitas aventuras ocidentais no Terceiro Mundo, o rei Carlos 4º reúne seus homens armados, localiza uma área para caçar e ele e seu séquito cercam a área escolhida e começam a atirar nas aves, enquanto seus soldados/criados coletam as aves mortas e voltam para a cidade para exibir os animais à multidão, que parece admirar a valentia do rei e o que ele conseguiu caçar.

Quando o rei chegou em casa, o pintor Francisco Goya estava prestes a terminar o retrato da rainha Maria Luiza. Ao ver o retrato depois de pronto, a rainha se afastou furiosa, e o rei chamou Goya de lado para lhe dizer que havia feito um mau retrato. Então o pintor foi punido: teve de escutar o rei tocar violino, produzindo melodias muito dolorosas, de uma obra-prima de Beethoven. O que o rei quis lhe ensinar é que o retrato feio não era um verdadeiro reflexo da rainha, mas sim uma falta de habilidade do pintor.

Ambos os exemplos ilustram muitas políticas e práticas ocidentais contra a população do Terceiro Mundo; um terreno de caça para exibir sua masculinidade, que é admirada por boa parte do público, e ilustra muitas guerras sádicas, a última das quais é a guerra israelense em Gaza/Palestina.

A recusa a aceitar o trabalho do pintor como bem realizado é um reflexo da realidade que ele vê, de uma rejeição a olhar de perto no espelho e ver o horror da própria realidade. É também uma rejeição a aceitar como os outros veem a realidade, pois esta é a negação da natureza e do funcionamento da máquina de guerra e da dinâmica de dominação que estrutura a mentalidade dos que estão no poder no Ocidente, ao lidar com sua própria opinião pública e todas as outras do Terceiro Mundo.

Essa dominação e práticas sádicas são difíceis de abandonar pelos que detêm o poder. Pelo menos é difícil desistir por meio do raciocínio e por meio de lembrar a eles que tudo dá voltas e que tudo o que sobe acaba descendo.

Por outro lado, não devemos subestimar o poder do povo, e a canção que abriu este ensaio ilustra o poder do povo de continuar mantendo suas vidas e reagindo na luta:

Nós vamos bem em Gaza,

Vamos bem na Palestina,

Como vão vocês?