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Mulheres podem mudar o rumo do Paquistão

por Gianni Carta publicado 08/05/2013 15h16, última modificação 08/05/2013 17h18
Durante uma campanha fratricida, o voto feminino poderia fazer a diferença. Por Gianni Carta, de Karachi
Gianni Carta
Zora Yusuf

Zora Yusuf, presidente da ONG Comissão de Direitos Humanos do Paquistão

De Karachi, Paquistão

É uma daquelas costumeiras ironias: as mulheres, tidas como cidadãs de segunda classe nos países muçulmanos, poderão – finalmente – fazer uma enorme diferença nas eleições gerais de sábado 11.

Mesmo assim, há ainda agremiações religiosas a defender a não participação de mulheres em eleições. É o caso de partidos políticos de Khyber Paktunkhwa, uma das quatro províncias deste país.

Os integrantes de agremiações dessa província, uma das quatro do país, avisam aos homens a dizer às mulheres, incluindo aquelas com quem estão casados, e às irmãs e filhas, a não votar no dia 11.

Não seria um ato “muçulmano” elas votarem.

Esses “mandamentos” ocorrem em um país onde o Tehrik Talibã e-Paquistão (TTP), o Talibã Paquistanês, justifica sua campanha de assassinatos de três partidos liberais assim: foram eles os responsáveis pelo “genocídio” de populações tribais (leia Pashtun) e de muçulmanos. Isso durante o primeiro governo civil que durou cinco anos desde a criação do Paquistão, 66 anos atrás.

Durante a atual campanha, mais de 100 integrantes do Awami National Party (ANP), do Partido Popular Paquistanês (PPP), e do Movimento Muttahida Qaumi (MQM) foram assassinados. E até aqueles a integrar partidos religiosos perderam a vida. Na sexta-feira 3 a vítima respondeu por Chaudhry Zulfiqar, o procurador a investigar a morte, em dezembro de 2007, da ex-primeira-ministra do PPP.

Pessoas são mortas diariamente, especialmente em Karachi, a potência econômica ao sul do país de 180 milhões de habitantes, e nas zonas tribais nas fronteiras com o Afeganistão.

Karachi não parece uma cidade às vésperas de uma eleição, mas uma que se prepara para uma guerra civil.

O poder das mulheres

Na maioria dos países, as mulheres constituem uma maioria demográfica, e, portanto, podem ter grande poder sobre os eleitos.

Segundo Zora Yusuf, presidente da ONG Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, a população está dividida entre 49% de mulheres e 51% de homens.

E, ao contrário de outros países, a maioria dos eleitores são homens.

O poder dos homens

Nos países muçulmanos mulheres costumam ter um papel público, mas não político, coisa para homem.

Quando este repórter foi retirar um documento no centro de Karachi, havia filas para homens e outras para mulheres.

Mulheres são cidadãs de segunda classe.

E, no entanto, mulheres, as estatísticas no Paquistão, comprovam, se preocupam mais que seus maridos com a os planos de saúde e educação públicas de seus filhos.

Não surpreende que casos de discriminação contra mulheres e minorias abundem.

O caso de uma jovem de 16 anos acusada de ter queimado páginas do Corão em Islamabad, a capital, foi um evento coberto pela mídia. De acordo com as leis de blasfêmia, a jovem ficou 14 dias atrás das grades.

Mas, Yusuf, presidente da Comissão dos Direitos Humanos, alega que essas leis são exploradas por indivíduos para resolver casos pessoais. Segundo Yusuf, ficou provado que um homem queimou as páginas do Corão, e, assim, a jovem foi posta em liberdade.

No entanto, até hoje a jovem está traumatizada. E há casos semelhantes contra minorias, como outros cristãos, hindus, pobres, etc.

Segundo as leis de blasfêmia, uma pessoa pode passar anos presa, ou, se denigrir Maomé, ser condenada à morte.

Sentada em seu escritório no centro de Karachi, Yusuf diz: “Nos tempos do colonialismo britânico qualquer pessoa que insultasse qualquer religião pagaria uma multa e/ou seria presa. Mas não seria condenada à morte”.

Foi o general Mohammed Ziz-ul-Haq, sexto presidente do Paquistão, fundado em 1947, quem introduziu a pena de morte.

Antes de Ul-Haq, Muhammad Ali Jinnah, fundador do Paquistão, lembra Yusuf, “defendia que a religião não tinha nada a ver com a política”.

Os tempos mudaram.

Indago a Yusuf se os partidos liberais perseguidos pelo Talibã Paquistanês não são aqueles a lutar contra um país islâmico radical. “Essa seria uma visão simplista de ver as coisas. Temos de esperar para ver os resultado do pleito e que coalizões serão forjadas.”

Veremos.

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