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The Observer

Mon Dieu, ministra francesa usa vestido no Parlamento

por The Observer — publicado 24/07/2012 10h04, última modificação 06/06/2015 16h55
Os assobios e rugidos deixaram claro que mulheres não recebem um tratamento igualitário na política
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A ministra Cecile Duflot, que causou frisson ao aparecer de saia durante evento político. Foto: Patrick Kovarik/AFP Photo

Por Barbara Ellen

Cécile Duflot, a ministra da Habitação da França, causou comoção ao usar um vestido para falar na Assembleia Nacional (Parlamento). Espere, uma correção. Não foi Duflot que causou comoção, mas sim os ministros homens, que assobiaram e rugiram: "Uau!" De sua parte, Duflot reagiu calmamente, com uma piada seca -- "Senhoras e senhores, obviamente mais senhores que senhoras" -- antes de continuar seu discurso. Mais tarde ela disse: "Já trabalhei na construção e nunca vi nada parecido. Isso revela algo sobre alguns deputados. Penso nas mulheres deles". Sim, as pobres esposas, casadas com o que parecem ser "les troglodytes sérieux", mas esse não é o fim da história.

Que pena ver a França com uma Assembleia Nacional cheia do tipo de imbecis que não conseguem se conter quando uma ministra se ergue diante deles usando um vestido. "Uau!" Realmente? O que é isso, Confissões de uma Ministra Francesa? Cinquenta Tons de Risca-de-giz? O vestido de Duflot não era sequer uma coisa provocativa como o de Jessica Rabbit: justo, sinuoso, talvez com uma fenda até a coxa, com o próximo projeto de lei enfiado na liga. Era um modelo floral recatado -- algo que você poderia imaginar [a apresentadora de TV britânica] Kirstie Allsopp usando no casamento de sua terceira melhor amiga. Se isso é tudo o que é preciso para deixar os políticos perigosamente excitados, que os céus ajudem a França -- na próxima vez eles entrarão em êxtase ao ver o tornozelo das moças.

Duflot diz que nem todos os homens são assim, e ela prefere pensar em "homens feministas". Sim. Mas por que as mulheres políticas deveriam se endurecer tanto para esse tipo de terrível pantomima redutiva? Duflot ficou famosa por usar jeans em uma reunião de gabinete, mas foi necessário um vestido para expor a grosseria oportunista do poder político predominantemente masculino. Jacques Myard disse que os assobios de lobos foram apenas um tributo à beleza de Duflot. Para Patrick Balkany, a ministra provavelmente usou o vestido "para que não escutássemos o que ela dizia".

Não é de surpreender que esses dois, e muitos outros que assobiaram, fizeram olhares lascivos e rugiram, estão no partido de oposição União por um Movimento Popular (UMP). O que eles fizeram não foi apreciação, ou mesmo uma piada, foi fria estratégia política -- usar o gênero de uma mulher contra ela.

Escrevi anteriormente sobre como as mulheres políticas não podem vencer quando sua aparência está em jogo. Arrumadas demais, elas são rejeitadas como dondocas, desesperadas, ou ambos; de menos, são condenadas como monstras assexuadas que desistiram de si mesmas. É o destino da mulher política ser vista e não ouvida. Ou, de todo modo, muito mais vista (julgada, objetificada, zombada) do que consegue ser ouvida.

No entanto, qualquer político, homem ou mulher, não é nada se não for ouvido adequadamente. O que transforma em zombaria o raciocínio segundo o qual talvez essas mulheres apreciem incidentes como esse, porque lhes dão uma condição de mártires feministas e destacam seus perfis.

Na realidade, esses eventos fatalmente prejudicam a mulher envolvida, enfraquecendo sua mensagem e desperdiçando seu ímpeto. Depois da Assembleia Nacional, ninguém comentou o que Duflot realmente disse, apenas seu vestido florido. Um caso clássico de "política interrompida".

É uma questão que continua surgindo: esse é o modo padrão do homem político, sexista-juvenil? Existem "homens feministas" suficientes para fazer diferença? Na verdade, talvez esse incidente seja apenas mais um indicador da preocupação maior de se as mulheres podem esperar um tratamento completamente igualitário na política.

Do que aconteceu na França ao terrível e revelador "acalme-se, querida" de David Cameron para a trabalhista Angela Eagle, parece haver uma tendência desconcertante de mandar as mulheres se calarem assim que tentam abrir a boca.

Desta vez foi um vestido, mas na verdade poderia ser qualquer coisa -- a ponto de nunca ter a ver com o que uma mulher disse, mas com a rapidez e eficiência dos "rapazes" para silenciá-la antes que pudesse falar.

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