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Mais uma vez no Bahrein, a Fórmula 1 repete o vexame

por José Antonio Lima publicado 19/04/2013 09h03, última modificação 19/04/2013 09h03
O Grande Prêmio do Bahrein ajuda a monarquia sunita que controla o país a ganhar legitimidade e transmitir uma imagem de normalidade
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Manifestantes barenitas realizam protesto contra o GP de F1 na vila de Jid Ali, na quarta-feira 17. Foto: Mohammed Al-Shaikh / AFP

 

Dizem que o tempo é o melhor remédio, capaz de curar feridas e remediar grandes problemas. No caso dos ativistas pró-democracia do Bahrein, pequena monarquia do Golfo Pérsico, o efeito foi justamente o inverso. Passado um ano do último Grande Prêmio de Fórmula 1 realizado no local, a comunidade esportiva e jornalística parece ter esquecido que o governo do Bahrein é um dos vários que reprimem a chamada Primavera Árabe.

Em 2011, no auge das manifestações iniciadas na Tunísia, e que derrubaram três ditadores, o GP do Bahrein foi cancelado. Naquele ano, o governo sunita do Bahrein, apoiado por tropas da Arábia Saudita, uma das grandes forças contrarrevolucionárias do Oriente Médio, reprimiu duramente as manifestações da minoria xiita, inclusive com gás lacrimogêneo made in Brazil. A violência de lado a lado era tanta que o "circo" da Fórmula 1 não pode ser montado por lá.

Em 2012, a instabilidade continuou. Por questões pessoais (o temor da violência, ainda existente) e éticas (ir poderia ser visto como apoio à ditadura) pilotos e jornalistas cogitaram não viajar ao Bahrein. Houve discussões profundas e ponderações a respeito de qual seria a decisão mais acertada, para a Fórmula 1, os pilotos, e jornalistas. O evento, graças à falta de preocupação ética do chefão da F1, Bernie Ecclestone, ocorreu, e a grande maioria das pessoas ligadas à F1 foi ao país.

Neste ano, as coisas estão diferentes. Salvo honrosas exceções, o noticiário, no Brasil e no exterior, parece feito sob medida para o governo barenita. As garantias do governo sobre a segurança de pilotos e mecânicos têm recebido destaque, e os protestos são retratados como crimes ou atos de vandalismo. Até o dono do circuito ganhou espaço para chamar os manifestantes de "terroristas", tática conhecida de governos autoritários para deslegitimar a oposição.

Essa mudança de discurso se deu apesar de a situação no Bahrein continuar, em grande medida, exatamente igual à verificada no ano passado. Segundo a ONG Human Rights Watch, entre 1º e 10 de abril, "forças de segurança conduziram invasões residenciais e prenderam arbitrariamente manifestantes de oposição em Dar Khulaib, Shahrakan, Madinat Hamad e Karzakkan, cidades próximas ao Circuito Internacional do Bahrein". Durante a operação, afirma a HRW, "policiais, homens mascarados e à paisana prenderam pelo menos 20 pessoas, algumas delas proeminentes e bem conhecidos manifestantes anti-governo".

De fato, como afirmou ao jornal ABC o piloto espanhol Fernando Alonso, da Ferrari, se a Fórmula 1 fosse se preocupar com questões éticas em cada país, ela não poderia existir. Ocorre que o caso do Bahrein tem duas nuances que tornam a situação muito mais complexa e precisam ser levadas em consideração.

Em primeiro lugar, as violações aos direitos humanos no país árabe não são parte de uma situação social complexa, como a corrupção no Brasil e na Espanha, o trabalho de crianças na Índia ou as restrições à liberdade individual na China. No Bahrein, os abusos estão em curso e são provocados deliberadamente pelo governo. Em segundo lugar, como mostra a repressão preventiva denunciada pela Human Rights Watch, o GP é uma ferramenta do governo do Bahrein para propagar uma imagem de normalidade no país, que não existe na realidade. Assim, a Fórmula 1 deixa sua imagem ser usada por um governo repressor para legitimar sua ditadura. É um feito indecente, mas Ecclestone não se importa com isso. Para ele, negócios são negócios.

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