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Israelenses atiram em palestinos desarmados

por José Antonio Lima publicado 23/05/2012 11h48, última modificação 23/05/2012 12h06
Sequência de vídeos mostra de forma clara como os assentamentos na Cisjordânia contribuem para travar o processo de paz. Assista
Video_Israel

Imagem capturada do vídeo da B'Tselem mostra assentado atirando contra palestinos enquanto soldados de Israel observam. Foto: AFP

Uma sequência de três vídeos divulgados pela organização não governamental israelense B'Tselem mostrou de forma clara como a existência de assentamentos nos territórios ocupados da Cisjordânia é destrutiva para o processo de paz entre Israel e os palestinos.

Os vídeos, gravados no sábado 19, flagram um confronto entre israelenses do assentamento de Yitzhar e palestinos da vila vizinha de Asira al-Qibliya. É possível ver nas imagens gente dos dois lados atirando pedras contra os rivais, num confronto, aparentemente, em igualdade de condições. Em determinado momento, no entanto, as coisas mudam. Entre os assentados, há pelo menos três portanto armas automáticas. Dois estão com fuzis (provavelmente do tipo M4), um com uma pistola automática; os três atiram contra os palestinos enquanto são observados por homens fardados, aparentemente soldados israelenses. Momentos depois, um rapaz palestino (que antes jogava pedras contra os israelenses) é carregado com um ferimento na cabeça e muito sangue escorrendo em seu rosto e pescoço.

De acordo com a B'Tselem, o confronto teve início quando um grupo de israelenses deixou o assentamento e tentou colocar fogo em construções na vila palestina. Avraham Binyamin, porta-voz do assentados daquela área, disse à agência Associated Press que os palestinos atacaram os israelenses quando estes estavam tentando apagar um incêndio. Descobrir quem está certo servirá apenas para resolver o caso do jovem ferido (mais tarde identificado como Fathi Asayira, de 24 anos), mas esta investigação não pode esconder duas verdades que Israel teima em negar. A primeira tem repercussões práticas e diplomáticas para o processo de paz: os assentamentos, e os assentados, não poderiam nem mesmo estar neste pedaço de terra chamado de Cisjordânia e constituem uma violação da lei internacional. A segunda tem consequências emocionais: os conflitos na região corroem ainda mais o relacionamento entre os dois povos.

Os assentamentos, comunidades que podem ter poucos habitantes em trailers móveis ou milhares constituindo pequenas cidades, surgiram em todos os territórios conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). Na Cisjordânia, a maior porção do que pode vir a ser o estado palestino, continuam a crescer, embora sejam considerados ilegais pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, pelo Tribunal Penal Internacional e até mesmo pela Suprema Corte de Israel.

Os assentamentos cresceram a ponto de, hoje, entrecortarem os territórios palestinos de tal forma que praticamente impossibilitam a formação de um estado contíguo na Cisjordânia. Os processos de paz dos anos 1990, cujas diretrizes servirão de base para um novo processo de paz, vetam a mudança do status quo na região por israelenses e palestinos. Ainda assim os governos de Israel, especialmente o do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, continuam dando apoio tácito e, às vezes, prático, aos assentamentos. O apoio deriva, principalmente, da pressão de pequenos partidos de extrema-direita que, no parlamentarismo israelense, têm grande poder.

Os processos de paz também estabeleceram o princípio da troca de terras por paz nas negociações entre israelenses e palestinos. Ao ampliar os assentamentos, Israel torna mais complicada a chamada "realidade no terreno" e cria novos obstáculos para a retomada do processo de paz. Isso dá margem a mais desconfiança por parte dos palestinos de que Israel não tem um desejo genuíno de promover a paz.

Outra consequência negativa dos assentamentos é ampliar o ódio entre as duas partes. Na Cisjordânia, a missão oficial do Exército de Israel é proteger os colonos assentados. Uma força policial muito menor e menos efetiva tem a função de proteger os palestinos dos assentados. Como mostraram as imagens divulgadas pela ONG B'Tselem, o Exército extrapola sua missão e é conivente com a violência contra os palestinos. Segundo o jornal israelense Haaretz, as Forças Armadas de Israel investigam 15 denúncias semelhantes contra soldados que não evitaram ataques aos palestinos. O resultado de atos como esse é um só: amplificar o ódio mútuo entre israelenses e palestinos.

Destacar o papel destrutivo dos assentamentos para o processo de paz não significa que a culpa pela paralisação das negociações seja exclusivamente de Israel. Ela não é. Ao longo do tempo, lideranças palestinas cometeram inúmeros erros graves. Nos anos 1990, Yasser Arafat não levou à frente uma negociação mediada por Bill Clinton que poderia ter culminado num acordo histórico de paz. Hoje em dia, o grupo radical Hamas e sua retórica voltada para a destruição de Israel aliena qualquer negociador sério. Mas, no mundo de hoje, Israel é o ator mais forte, o mais estável e o mais democrático. Assim, seria razoável esperar de Israel ações cuja intenção seria colocar o processo de paz novamente nos trilhos. Como demonstram os recentes episódios na Cisjordânia, não é isso o que Israel faz.