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Fim do silêncio?

Igreja Católica lança centro de informações para combater pedofilia

por AFP — publicado 09/02/2012 17h50, última modificação 06/06/2015 18h20
Iniciativa já tem site e terá sedes espalhadas pelo mundo para levar formação a padres, bispos e freiras e orientá-los em como agir para solucionar o problema
Vaticano

Entrada da Universidade que sedia o simpósio "Na Direção da Cura e da Renovação" para líderes da igreja. Foto: Filippo Monteforte

CIDADE DO VATICANO (AFP) - Após quatro dias de debates sem tabus, 200 líderes da Igreja católica participaram nesta quinta-feira 9 de uma palestra sobre as diferenças culturais na Ásia diante do escândalo dos abusos sexuais de menores.

Além disso, a Igreja Católica lançou um centro internacional de formação "on-line" de padres, bispos e freiras para a proteção da infância, com o objetivo de pôr fim a décadas de abusos e ocultação da instituição.

O Centro de Proteção à Criança terá sua sede na Alemanha, com filiais em Argentina, Equador, Gana, Índia, Indonésia, Itália e Quênia, buscando reunir pesquisas e outras maneiras de prevenir o abuso de crianças por membros do clero.

O centro de 'e-learning' "é apenas uma parte da renovação da Igreja," disse o Cardial Reinhard Marx, arcebispo de Munique, em uma coletiva de imprensa.

"Esse momento histórico nos obriga a uma atitude, ao mesmo tempo, de humildade e ação. A perda de credibilidade está longe do fim, mas reconstruiremos nossa credibilidade passo a passo," afirmou.

Participaram do seminário de formação diversos bispos que, segundo vários participantes, precisam trocar experiências, sobre um assunto que ainda é tabu. Temas como a violação de deficientes ou o tratamento das vítimas de abuso e de criminosos, foram abordados de maneira direta.

Desde maio do ano passado, bispos do mundo inteiro foram ordenados pela Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé a desenvolver, no período de um ano, dispositivos de luta contra a pedofilia, em conformidade com os requisitos de Roma e de colaborar com a justiça civil.

Este simpósio, organizado pela Universidade Jesuíta, é uma etapa para ajudar as conferências episcopais a cumprir este prazo, fornecendo diretrizes claras e informações.

O arcebispo de Manila, Luis Chito Tagle, reconheceu nesta quinta-feira que as conferências episcopais da Ásia ainda não colocaram em ação as novas disposições, que por vezes são confrontadas com dificuldades e com a não motivação de alguns bispos.

Quando são em pequeno número, por exemplo no Laos e no Camboja, simplesmente não há condições de responder de forma rápida as recomendações do Vaticano, observou.

O jornal da Santa Sé, o Osservatore Romano, ressaltou o papel do simpósio para acabar com a cultura do silêncio. "A justiça é sinônimo de verdade. O esclarecimento dos fatos, o reconhecimento das responsabilidades e o pedido de perdão são os fundamentos de um caminho de reconciliação que a igreja precisa percorrer com determinação", comentou o jornal.

Um especialista brasileiro e o arcebispo de Manila explicaram que as diretrizes do Vaticano podem ser mal interpretadas pelos padres e fiéis.

Segundo o professor Edenio Valle, psicólogo conselheiro dos bispos brasileiros, eles "não sabem o que devem fazer" contra a pedofilia, "tolerada culturalmente". "Nenhuma medida eficaz foi prevista pela igreja brasileira (a maior do mundo) em curto, médio ou longo prazo."

O bispo Tagle observou que na Ásia em geral, uma cultura de "vergonha" impede que as vítimas e suas famílias falem sobre o abuso pedófilo.

Diante da imprensa, Tagle, nomeado no fim de 2011 arcebispo da maior diocese da Ásia, explicou que uma vítima dificilmente iria expor o seu caso à justiça e procuraria de preferência a própria igreja.

Outra reação comum é a relutância: "Um pai deve entregar o seu filho?", é uma reação que se ouve entre os bispos, quando se trata de denunciar uma conduta de um padre. De acordo com Tagle, o celibato imposto aos sacerdotes da igreja católica deveria seria mais bem explicado, implicitamente reconhecendo que é um problema.

"Alguns acreditam que o celibato é apenas uma regra que uma igreja conservadora decidiu manter por causa da tradição", disse.

Reinhard Marx, arcebispo de Munique, admitiu que "os últimos dez anos, vários líderes da igreja passaram a considerar prioridade proteger as instituições e esconder a terrível verdade ao invés de reconhecê-la em todo o seu horror."

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