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Gianni Carta

Hino Nacional no esporte é coisa do passado

por Gianni Carta publicado 01/08/2012 12h30, última modificação 06/06/2015 18h17
Bandeiras e God Save the Queen. Já dizia o doutor Johnson: 'O patriotismo é o último refúgio do canalha'
LONDRES 2012

Bandeiras e God Save the Queen. Já dizia o doutor Johnson: 'O patriotismo é o último refúgio do canalha' . Foto: Anthony Charlton / AFP

 

Ryan Giggs, o lendário capitão do time de futebol britânico na Olimpíada em Londres, não cantou o hino nacional do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, God Save the Queen. E nem Craig Bellamy, autor do primeiro gol.

Isso no jogo de estreia contra o Senegal, que era no mínimo importante: tratava-se da primeira partida de um time britânico nos Jogos Olímpicos desde 1960.

Giggs e Bellamy são galeses.

No entanto, após a partida o capitão do time britânico não fez nenhuma declaração à imprensa sobre seu silêncio durante o hino, que terminou em empate, 1 a 1.

Não sabemos, portanto, se Giggs não cantou porque os galeses têm seu próprio hino, Land of my Fathers, e, por tabela, ele não se sente britânico. Também não se pode descartar a hipótese de que seus lábios não se moveram porque Giggs desconhece a letra de God Save the Queen.

Isso, aliás, é comum mundo afora.

O técnico da equipe britânica, Stuart Pearce, foi sensato ao dizer: “Não há regras para como jogadores devem se portar durante o hino. Cada um faz o que quiser. Alguns gostam de cantá-lo, outros não”.

Mas um ex-técnico escocês disse que ao não entoar o hino “nacional”, Giggs desrespeitou o Reino Unido. Tweets a exigir a demissão de Giggs não escassearam. Outros disseram, não sem razão, que o mais importante é a atuação dos jogadores – e não se respeitam ou não a nação.

Na verdade, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte não é uma nação no mundo dos esportes. É somente durante os Jogos Olímpicos que Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte se unem sob a bandeira britânica. No entanto, em outros eventos esportivos, como a Copa do Mundo de futebol, cada país britânico tem seu time e respectivos hinos. A Inglaterra é o único dos quatro que só tem o hino a homenagear a rainha. E o premier David Cameron cogita um referendo para escolher um outro hino. Este escriba recomenda God Save the Queen, aquele single lançado pela banda punk Sex Pistols em 1977, ano no qual a Rainha Elizabeth II comemorava 25 anos de ascensão ao trono.

De qualquer forma, aqui chegamos à questão-mor: para que servem hinos nacionais?

Não passam de patriotadas anacrônicas. E, como já no século XVIII dizia um britânico, o doutor Samuel Johnson: “O patriotismo é o último refúgio do canalha”.

No caso de um esporte como o futebol, o hino é um canto de guerra cujo objetivo é instilar medo, ou pelo menos uma certa inquietação no inimigo. Por sua vez, a plateia fica comovida com a música, as bandeiras, os rostos pintados com as cores de sua nação. Lágrimas rolam, especialmente se o cidadão estiver longe de sua nação a torcer pelo seu atleta, ou time.

Tem gente, claro, que gosta do show. Mas quem quer ver o jogo, ou entrar em campo ou na pista, sente que aquilo tudo posterga o que realmente queremos: assistir a competição.

Em relação ao atleta que sobe no pódio numa Olimpíada, por que temos de ouvir o hino de seu país? Quem ganhou foi um o indivíduo, não o país. Mas não, países precisam angariar o maior número possível de medalhas. Na Guerra Fria, a disputa ferrenha era entre os países ocidentais e aqueles do bloco comunista. Era uma guerra dentro da guerra.

O quadro não mudou muito hoje. Quem ganha mais medalhas vence a batalha. E aí a nação vencedora é bombardeada por inúmeras ocasiões para outros tediosos hinos nacionais.

Fundamental é ter em mente o seguinte: futebol, 100 metros rasos e natação não passam de esportes.