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Internacional

Análise

Há um terrorista sírio foragido no Brasil?

por José Antonio Lima publicado 06/07/2016 16h37
A vida do ex-detento de Guantánamo que desapareceu no Uruguai foi marcada de forma perpétua pela "guerra ao terror"
Pablo Porciúncula / AFP
Jihad Diyab

Jihad Diyab em 20 de maio de 2015, durante a 20ª Marcha do Silêncio em Montevidéu

O recente desaparecimento do sírio Jihad Ahmed Mustafa Diyab, um dos seis ex-prisioneiros de Guantánamo recebidos pelo Uruguai em 2014, traz à tona a complexa história dos detentos e ex-detentos da prisão norte-americana baseada em Cuba. Estigmatizados pelos crimes imputados a eles, estão no limbo da "guerra ao terror" liderada pelos Estados Unidos desde o 11 de Setembro e terão para sempre vidas marcadas por suspeitas e incertezas.

Jihad Diyab, também conhecido como Abu Wa’el Dhiab, desapareceu na metade de junho de Montevidéu, onde estava desde dezembro de 2014. Em 1º de julho, o jornal O Estado de S.Paulo revelou que a companhia aérea colombiana Avianca emitiu a seus funcionários no Brasil um alerta solicitando que "caso seja detectada a presença" de Diyab no Brasil, a Polícia Federal seja comunicada imediatamente.

A procura é liderada pelo Departamento Antiterrorismo da PF e o ministro interino da Casa Civil, Eliseu Padilha, confirmou que a busca está sendo realizada. Veículos de imprensa como os jornais Estadão e O Globo, a revista Veja e a tevê Bandeirantes afirmam que Diyab é um "terrorista", mas essa afirmação contraria o que diz o governo dos Estados Unidos.

Diyab é parte do grupo de seis ex-detentos de Guantánamo que a administração Barack Obama enviou para o Uruguai após acordo com a gestão de José Mujica. O acerto fazia parte da iniciativa, por parte da Casa Branca, de fechar a prisão em Cuba, uma promessa de campanha de Obama. 

O compromisso entre os dois países foi adiado diversas vezes por conta da disputa política a respeito do tema nos EUA e das eleições presidenciais no Uruguai, mas acabou fechado no fim de 2014.

No dia 2 de dezembro daquele ano, Clifford Sloan, então enviado especial de Obama para o fechamento de Guantánamo, escreveu carta a Mujica (abaixo) afirmando que os seis detentos não representavam risco. "Não há nenhuma informação de que os indivíduos acima mencionados estivessem envolvidos na condução ou facilitação de atividades terroristas contra os Estados Unidos ou seu parceiros ou aliados".

A alegação do governo foi rechaçada pelo opositor Partido Republicano. Em 29 de abril de 2015, Edward Royce, presidente do Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes dos EUA, enviou uma carta (abaixo) ao Departamento de Estado criticando o envio dos seis ex-detentos ao Uruguai. Para Royce, o governo estava priorizando um objetivo político de Obama (fechar Guantánamo) em detrimento de lidar com a ameaça apresentada.

A argumentação de Royce tinha duas bases. A primeira é uma leva de memorandos secretos do Departamento de Defesa dos Estados Unidos tornada público pelo site WikiLeaks. São fichas dos detentos de Guantánamo, entre eles os seis que foram para o Uruguai. 

No caso de Diyab (abaixo), preso em abril de 2002 em Lahore, no Paquistão, o documento é de 2008 e o classifica como um preso de "alto risco" por "representar uma ameaça aos EUA, a seus interesses e aliados".

Segundo o relatório, Diyab integraria uma célula terrorista síria que fugiu para o Afeganistão no ano 2000 e teria associações com "membros significativos da Al-Qaeda", rede terrorista para a qual trabalharia como um falsificador de documentos. 

De acordo com o Departamento de Estado dos EUA, os documentos revelados pelo WikiLeaks eram apenas uma parte do quebra-cabeça a respeito da real periculosidade dessas pessoas. Todas as informações a respeito dos detidos foram analisadas por uma força-tarefa de múltiplas agências de inteligência, disse o Departamento de Estado, e a conclusão foi de que "era seguro libertar esses homens". 

"Esse rigoroso processo interagências coletou e considerou todas as informações razoáveis disponíveis que diziam respeito aos detentos da Baía de Guantánamo, incluindo os seis transferidos para o Uruguai", disse à Bloomberg, em outubro de 2015, Ian Moss, conselheiro de Lee Wolosky, novo enviado especial para o fechamento de Guantánamo. 

O documento final da Força-Tarefa de Revisão de Guantánamo (abaixo) afirma que a recomendação de soltar esses homens "não reflete a decisão de que o detento não representa ameaça ou risco de reincidência". De acordo com o relatório, a decisão "reflete o melhor julgamento de funcionários seniores do governo de que qualquer ameaça representada pelo detento pode ser suficientemente mitigada por meio de medidas de segurança viáveis e apropriadas no país de destino". 

Aqui surge a segunda base da argumentação de Royce, o presidente republicano do Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara dos EUA, contra o envio dos detentos ao Uruguai. De acordo com ele, a única forma legal pela qual o Uruguai poderia receber os detentos de Guantánamo seria dando a eles o status de refugiados. Essa foi a alternativa aceita pelos Estados Unidos, mas o governo do Uruguai é proibido por lei de monitorar as pessoas a quem oferece o status de refugiados.

O sumiço de Diyab, entretanto, indica que tal proibição não é cumprida à risca, ao menos no atual momento. Segundo o jornal espanhol El País, o encarregado de negócios dos Estados Unidos em Montevidéu reconheceu que os dois países cooperam para localizar o ex-detento de Guantánamo.

De acordo com reportagem publicada na terça-feira 5 pelo jornal uruguaio El País (homônimo da publicação espanhola), Diyab foi visto na localidade de Chuy, que possui uma fronteira conturbada com Chuí, município do Rio Grande do Sul, e até então não teria participado de nenhuma atividade suspeita.

Caso a tese segundo a qual Diyab está planejando um ataque terrorista se confirme, sua eventual ação será estudada como um caso sui generis na literatura a respeito do terrorismo. Em vez das sombras, Diyab procurou os holofotes. 

Desde que chegou ao Uruguai, o sírio deu diversas entrevistas a veículos de imprensa, nas quais comentou sua prisão e a greve de fome da qual participou em Guantánamo, em 2013.

O caso se tornou famoso pois os defensores de Diyab, integrantes da ONG britânica Reprieve, pediram à Justiça dos EUA que tornem públicos os vídeos das sessões de alimentação forçada às quais ele foi submetido. Quase duas dezenas de veículos de imprensa fizeram petições reforçando o pedido, mas a disputa jurídica ainda não acabou e as imagens seguem secretas.

Nas entrevistas, Diyab fez apelos públicos para que fosse reunido com sua família – a mulher e três filhos (o quarto teria morrido durante a atual guerra civil na Síria). Ao que consta, isso ainda não ocorreu. Em 2015, à revista alemã Der Spiegel, Diyab chegou a solicitar, em troca da entrevista, que a jornalista agendasse um encontro com Dilma Rousseff. "Quero pedir a ela que aceite alguns dos meus irmãos", disse.

Em março passado, Diyab viajou de improviso a Buenos Aires, onde vestiu o uniforme laranja dos prisioneiros de Guantánamo para falar a um pequeno grupo de jornalistas de meios alternativos argentinos. Ele falou sobre as torturas e pediu que a Argentina seguisse o exemplo do Uruguai e se oferecesse para acolher os ex-prisioneiros.

Dois meses depois, Diyab esteve em um evento público em Montevidéu, a 20ª Marcha do Silêncio, que celebra a memória dos desaparecidos políticos uruguaios. 

Mais recentemente, em março deste ano, Diyab deu uma entrevista à revista uruguaia Búsqueda na qual não procurou esconder seus sentimentos. E fez elogios à Al-Qaeda. "Eu nunca tive nada a ver com a Al-Qaeda, mas com os maus tratos que recebi, agora gosto da Al-Qaeda", disse. "Eles [EUA] criam seus próprios inimigos, então estou contente com o que é a Al-Qaeda. Treze anos de maus tratos, 13 anos na prisão, 13 anos da minha vida que não estou com a minha família", disse.

A opinião de Diyab causa choque, mas não é exatamente incomum nas populações muçulmanas, ainda que seja minoritária. Em 2011, o Pew, instituto de pesquisa norte-americano, mostrou que 34% dos palestinos, 26% dos indonésios, 22% dos egípcios e 21% dos paquistaneses diziam "confiar" em Osama Bin Laden. Em 2012, o mesmo instituto revelou que 21% dos egípcios, 15% dos jordanianos e 13% dos paquistaneses tinham visões favoráveis a respeito da Al-Qaeda.

São números explicados pelo arraigado antiamericanismo no mundo muçulmano, bem como pelas inúmeras intervenções na região e pelo cenário político e social favorável ao fundamentalismo.

O caso de Jihad Diyab enseja uma reflexão sobre essa realidade. O sírio passou 13 anos em Guantánamo sem jamais ser processado ou julgado, tendo sido torturado em algumas ocasiões. Há desconfianças com relação a ele, mas nada mais que isso. Ele é considerado um refugiado pelo governo uruguaio e, assim, tem direito a trânsito pelo Mercosul. Eventualmente, pode vir ao Brasil, como foi a Buenos Aires no ano passado. Trata-se de uma vida indelevelmente marcada pela "guerra ao terror".

A reação a pessoas como Diyab pende entre um valor e uma necessidade. O primeiro é a liberdade individual, que tem entre suas balizas o direito básico de só responder por um crime após este ser cometido. O segundo é a segurança e a ânsia por evitar ameaças de maneira preemptiva, o que pode provocar a quebra de direitos individuais. As escolhas de cidadãos e de governos sobre o lado para o qual pender indica o que um país deseja ser. Qual será a resposta brasileira?