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Gianni Carta

Franceses divididos sobre a adoção homoparental

por Gianni Carta publicado 06/11/2012 10h34, última modificação 06/06/2015 19h23
Na sua cruzada contra o projeto do governo de Hollande, o chefe da Igreja Católica inventa bichos-papões
adoção

Foto: Flickr/Guillaume Paumier

“Casamento para todos” e adoção homoparental. Eis a primeira batalha de François Hollande, uma das promessas de seu programa. O projeto de lei será analisado pelo Conselho de Ministros na quarta-feira 7. Mas o debate será no mínimo longo, visto que deverá continuar no Parlamento e não escasseiam cidadãos favoráveis a um referendo.

O quadro é tão “explosivo”, escreveu um editorialista do semanário Journal du Dimanche, que o projeto “Casamento para todos” (que inclui a adoção homoparental) tem sido comparado com a abolição da pena de morte, em 1981. Uma comparação no mínimo grotesca que demonstra o conservadorismo francês. Nenhum país civilizado – inclusive os Estados Unidos – deveria exercer a pena capital. Por outro lado, o “Casamento para todos” é um direito de casais homossexuais.

No entanto, o problema principal para os franceses, que abordam esse debate pela primeira vez com décadas de atraso, não é tanto a união oficial de gays e lésbicas – e sim a adoção homoparental.

Segundo uma enquete realizada pela BVA para o vespertino Le Parisien, 58% dos franceses são favoráveis ao casamento homossexual, ante 63% no ano passado. Por outro lado, 50% entre eles não são contrários à adoção homoparental, ante 56% no ano passado.

A diferença entre os dois tópicos parece banal: no primeiro caso, as pessoas têm o direito de exercer sua sexualidade e com os devidos direitos de um casal homossexual. No segundo caso, numerosas pessoas se indagam: de que forma evoluem crianças criadas por pais gays ou mães lésbicas?

Em entrevista para o website Mediapart, a socióloga Martine Gross, pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e presidente de honra da Associação de pais gays e mães lésbicas, disse que “o incessante argumento avançado pelos oponentes da adoção homoparental é que uma criança deve ser criada por um pai e uma mãe”.

Mas Gross argumenta que desde os anos 1970 associações norte-americanas de psicologia, psiquiatria e pediatria provam que não há diferenças entre crianças de famílias homoparentais e aquelas oriundas de lares heterossexuais.

Enquanto a esquerda se inquieta com a situação, a direita ainda não se posicionou claramente por temer ser chamada de homofóbica.

Mais determinado, o cardeal André Vingt-Trois, o chefe da Igreja Católica, tenta mobilizar os cristãos contra o projeto do governo. Segundo ele, tudo não passaria de uma questão de “equilíbrio”, visto que a espécie humana dependeria “da distinção entre os dois sexos”.

“Não seria um ‘Casamento para Todos’, mas sim um casamento de algumas pessoas imposto por todos”, acrescentou o cardeal. Ele alertou, ainda, que, se aprovado, o novo projeto criaria uma discriminação entre crianças de casais heterossexuais e homossexuais. E vai saber quais outros bichos-papões o cardeal vai inventar na sua cruzada contra homossexuais.