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Entrevista exclusiva

Fernando Lugo contra-ataca

por Redação Carta Capital — publicado 19/04/2013 14h04, última modificação 19/04/2013 14h04
Dez meses após o golpe e às vésperas da nova eleição, o ex-presidente paraguaio tenta se eleger senador para fortalecer a base de apoio e retornar ao poder
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O ex-presidente Fernando Lugo, ao lado do candidato da Frente durante a campanha. Foto: Divulgação

Por Daniella Cambaúva e Murilo Machado, em Assunção

 

Em qualquer área da zona rural paraguaia, Fernando Lugo é recebido com festa. Homens e mulheres de todas as idades se acotovelam para ficar à frente das centenas de pessoas que se aglomeram nas primeiras filas de seus comícios. Aproximam-se dele, em busca de um aperto de mão, um beijo, um abraço. Alguns gritam e choram como se estivessem diante de um mito. O ex-presidente, que foi deposto pelo Parlamento após ser condenado por mau desempenho de suas funções, em um julgamento de apenas 17 horas, hoje trabalha para ser eleito para uma das 45 vagas do Senado do Paraguai. A eleição acontece no próximo 21. Há exatos dez meses, ele assumiu o comando da Frente Guasú, coalizão de esquerda formada em 2010. Junto dele está o candidato a presidente pela legenda, Aníbal Carrillo.

A despeito de não ser o presidenciável – a Constituição paraguaia não permite reeleição e, mesmo não tendo completado seu mandato, a batalha judicial para se viabilizar candidato seria interminável e possivelmente perdida –, Lugo é a figura central da campanha. São raras as propagandas eleitorais da legenda em que a foto ou o nome dele não estão em destaque. Segundo pesquisas encomendadas pela própria Frente - as únicas que, de acordo com Ricardo Canese, coordenador da campanha e candidato ao Parlasur, vão aos locais mais remotos do campo, onde está a maior parte de seus eleitores - a expectativa é que a coalizão seja eleita a segunda ou a terceira maior força política no Senado, com um número que pode variar entre 6 e 12 cadeiras.

Entre os candidatos à presidência, a pesquisa indica que Aníbal Carrillo é apenas o quarto colocado, atrás dos postulantes do Partido Colorado, que governou o Paraguai por 61 anos, dos Liberais, que ocupavam a vice-presidência no governo Lugo e hoje governam o país, e da Frente Avanza País, uma das três legendas progressistas, ao lado da Frente Guasú e do Movimiento Kuña Pyrenda. “Haverá uma possível derrota eleitoral, mas uma grande vitória política da Frente Guasú”, avalia Lugo, em entrevista concedida a CartaCapital no comitê de campanha da Frente, em Assunção.

De fato, esta parece ser a principal estratégia: ocupar o maior número possível de cadeiras no Parlamento para conseguir, caso um dia volte à Presidência, um mínimo de governabilidade. Durante seu governo, a base de apoio consistia em apenas 3 dos 80 deputados e 3 entre 45 senadores. “Nessa Constituição paraguaia, o Legislativo tem até mais poder do que o Executivo”, opina Maria Paz Valenzuela, jornalista que trabalhou no governo Lugo e é uma das apoiadora das Frente Guasú.

Quando foi deposto, Lugo tentou implementar uma espécie de gabinete paralelo. De sua casa, convocou alguns de seus ex-ministros e passou a despachar como se o golpe não tivesse acontecido. A estratégia não durou mais de dois meses, quando se optou por fortalecer a coalizão visando às próximas eleições. “Fernando Lugo se converteu na bandeira desse projeto”, diz o próprio ex-presidente, por conta dos três anos e dez meses em que esteve no Executivo.

Dois Paraguais. Do ponto de vista eleitoral, há um Paraguai urbano e outro rural. Este compreende mais de 40% da população do país e foi o que mais sentiu as transformações iniciadas pelo governo Lugo e prontamente abandonadas pelos Liberais.

 

Entre os eleitores do campo, muitos têm dificuldade de chegar às zonas de votação, o que é mais uma preocupação para a Frente. Já no Paraguai urbano, representado por centros como Assunção e Ciudad del Este, há grande penetração do Colorado e dos Liberais, embora o nome de Lugo também seja bem cotado para uma cadeira no Senado, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Nas ruas de Assunção, as propagandas mais visíveis são as do colorado Horacio Cartes e as de Efraín Alegre, do Liberal, partido do atual presidente, Federico Franco. É clara a desigualdade estrutural de condições em relação aos partidos tradicionais, cujo orçamento excede em mais de 10 vezes o da Frente Guasú.

O fato de haver três frentes representando os setores progressistas – a Avanza País se desligou da Frente Guasú em outubro do ano passado, lançando seu próprio candidato, Mario Ferreiro – não é visto como um problema por Lugo. “Em 2008, concorreram 12 listas. Agora temos três. Já é um passo processual rumo à unidade. O ideal seria que estivessem unidos em uma só legenda. Mas o mundo político é o real: há três candidatos diferentes, com propostas diferentes.”

 

Aníbal Carrillo, assim como Lugo, é fluente em guarani, idioma proibido durante a ditadura de Alfredo Strossner (1945-1989), mas que é, atualmente (junto do espanhol), a língua oficial do país. Médico formado pela tradicional Universidade Nacional de Assunção, Carillo tem um perfil discreto, mas crítico em relação ao golpe e ao modelo de desenvolvimento adotado pelo país nos últimos meses.

Em conversa com a reportagem, o candidato destacou que, diferente de 2008, agora a Frente Guasú tem seu projeto próprio de poder, referindo-se à malograda coligação com os Liberais nas últimas eleições. Proveniente do Paraguai urbano, tem em seu vice, Luis Aguayo, um típico representante do campo. O que parece dar liga a esses dois universos é justamente a figura de Lugo, cuja trajetória pessoal e profissional permitiu que transitasse por ambas.

Carrillo acredita que a Frente Guasú e os outros partidos de esquerda podem conquistar mais espaço no Parlamento, que seguirá dominado pelas forças tradicionais. Se for eleito presidente, prevê o enfrentamento da "situação de muita tensão no Legislativo". "Teríamos de encontrar caminhos para o diálogo", diz. "Para além das boas intenções do governo de Lugo, dos bons sinais em relação ao Congresso, de buscar pontos de acordo, não tivemos colaboração", afirmou.

A poucos dias das eleições, o clima eleitoral em Assunção é ameno e incerto. Por um lado, o golpe suscitou desconfianças em relação ao sistema político e da própria validade do voto. Por outro, as últimas pesquisas comerciais de intenção de voto variaram em até 10 pontos de diferença entre os colorados e os liberais. Por isso, espera-se que haja um baixo comparecimento às urnas – entre 45% e 60%. Para a Frente Guasú, no entanto, uma das principais preocupações é a fraude na contagem dos votos. Por isso, encabeçou uma frente suprapartidária de “controle eleitoral” com o intuito de fiscalizar os diversos setores envolvidos nas eleições.

Independentemente dos resultados eleitorais, a Frente Guasú se mostra otimista pelo fato de ter se reestruturado após o golpe e confiante ao sedimentar as bases para um Parlamento mais progressista. Antes de se despedir, Lugo conclui: “Voltaremos”. Questionado sobre a possibilidade de retornar em cinco anos, ele não nega, mas deixa clara sua aposta no nome de Carrillo. “Ele é mais jovem, tem muita força”. Era uma referência ao desgaste pelo qual passou quando esteve em tratamento, há dois anos, contra um câncer no sistema linfático.

Ox-presidente Fernando Lugo, ao lado do candidato da Frente,  Aníbal Carrillo

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