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O “fator Aécio Neves” nas eleições bolivianas

por André Takahashi — publicado 10/10/2014 11h29, última modificação 10/10/2014 18h10
Atrás nas pesquisas, candidatos da oposição a Evo Morales usam exemplo brasileiro para dizer que podem ganhar eleição deste domingo
Andre Takahashi / CartaCapital
Evo Morales

Atual presidente, Evo Morales quer ter 70% dos votos

De Cochabamba, Bolívia

Os bolivianos irão às urnas escolher seu presidente e legisladores no dia 12 de outubro. O atual presidente, Evo Morales, lidera com tranquilidade em todas as pesquisas eleitorais desta eleição, que pode ser considerada a mais calma da Bolívia desde a ascensão do partido Movimento ao Socialismo (MAS-IPSP) ao poder, em 2006. O último levantamento coloca Evo 40% acima do segundo colocado, Samuel Doria Medina, da coalizão direitista Unidade Democrática (UD).  Se essa vantagem se confirmar, Evo venceria no primeiro turno e continuaria sua gestão sem sobressaltos.

O resultado das eleições brasileiras no último 5 de outubro, porém, deu um novo ânimo para a dividida oposição boliviana. A ultrapassagem de Aécio Neves (PSDB) sobre Marina Silva (PSB) fez opositores colocarem em dúvidas as pesquisas bolivianas. O candidato do Partido Democrata Cristão Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente e terceiro colocado nas pesquisas, já é chamado por seus aliados de “Neves boliviano”.  Um dos fatores que o animam é que as mesmas pesquisas que ele tanto critica ao se comparar com Aécio o colocam como o único candidato que cresce entre os opositores.

“Hoje, Neves está a caminho de ser o novo presidente do Brasil e essa é uma lição para os bolivianos. Se as pesquisas fracassaram no Brasil, aqui será pior. Somos o único projeto que não para de subir”, disse Quiroga. O candidato, que tem em torno de 8% dos votos, está tão otimista que, segundo o jornal El Deber, em uma carreata de 20 carros na cidade de Santa Cruz, apostou que comeria seu próprio relógio se Evo Morales alcançar 65% dos votos. Evo colocou como meta ultrapassar os 70% dos votos.

O segundo colocado, com 14% das intenções de voto, Samuel Doria Medina, também tem explorado a virada de Aécio em seus comícios de encerramento de campanha. Seu candidato a vice-presidente, Ernesto Suárez, aproveitou um comício de encerramento em Cochabamba para lembrar do crescimento do tucano e fazer um trocadilho com o nome do partido de Evo e do instituto que tem lhe dado vantagem nas pesquisas (Ipsos), falando que o MAS-IPSP deveria se fundir com o instituto e virar o “MAS-Ipsos”.

Não foram só os opositores que sentiram o impacto das eleições brasileiras. Ao caminhar pela praça central de Cochabamba, onde diariamente ocorre uma Assembleia Popular com painéis informativos e debates, via-se dezenas de ativistas discutindo os resultados das eleições brasileiras.  A principal questão dos debates girava em torno da incerteza na integração latino-americana com uma possível vitória de Aécio Neves. “Se Neves ganhar, o alinhamento com o império será automático e o Brasil, que já não dá muita importância para a gente, vai virar as costas para a Bolívia e toda América Latina,” disse Hernán, que passava pela praça e assistiu parte das discussões.

Quando questionado da possibilidade do “fator Neves” se repetir na Bolívia, ele riu. “Isso é desespero dos opositores, sabem que não vão vencer e querem semear desestabilização para questionar os resultados. Se eles forem loucos de tentar um golpe, estamos prontos para garantir nosso processo de mudança além das urnas, nas ruas”.

Antes da virada nas eleições brasileiras, as últimas semanas de campanha foram marcadas por discussões sobre quem seria mais apto a levar Evo para o segundo turno. A discussão a respeito do “voto útil” contra Evo marcou os debates, levando a oposição a fazer declarações pesadas um contra o outro. Até o último momento de campanha Samuel Doria Medina repetia que os bolivianos tinham que se concentrar em votar nele, pois por estar em segundo lugar é o único que tem chances de derrotar Evo.  Sua campanha também repreendeu Quiroga, mais de uma vez, por não abdicar de sua candidatura em favor dele.

A oposição, além de desunida, enfrenta um candidato que parece imbatível, a ponto de recusar convites para os debates presidenciais. Para muitos bolivianos, Evo Morales e o MAS estão associados com estabilidade, indicadores sociais positivos, soberania, obras de saneamento, infraestrutura e industrialização. A Bolívia do MAS vive um período inédito de crescimento econômico, que combinado com o sucesso dos programas sociais, projetos de forte impacto como o satélite de telecomunicações Tupak Katari e a projeção do país no cenário internacional, dão a Evo uma vantagem significativa.  A dúvida que resta é se Evo vai atingir seu ambicioso objetivo de superar os 70% dos votos.