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Embaixador americano na Líbia é vítima de duelo de fanáticos

por José Antonio Lima publicado 12/09/2012 12h16, última modificação 06/06/2015 18h28
Chris Stevens foi morto durante protesto convocado por religiosos contra filme americano que retrata Maomé como bissexual e pedófilo
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Imagem de 7 de junho mostra o embaixador Chris Steven (à esq.) cumprimentando o líder do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia, Mustafa Abdel Jalil. Stevens era conhecido por seu firme apoio aos rebeldes que derrubaram Muamar Kadafi. Foto: Mud Turkia / AFP

*Reportagem atualizada às 16h32 para acréscimo de informações

Horas depois de uma manifestação na embaixada dos Estados Unidos no Egito, um violento ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, matou o embaixador dos EUA, Chris Stevens, e outros três americanos. Há poucos detalhes sobre a morte de Stevens, que pode ter sido vítima de uma explosão provocada por uma granada lançada por foguete contra a representação diplomática ou da brutalidade dos manifestantes. A única certeza é o fato de que a violência no Egito e na Líbia é resultado da intolerância religiosa professada por fanáticos no mundo muçulmano e também nos Estados Unidos.

A ordem dos acontecimentos em Benghazi não está clara. O jornal Lybia Herald divulgou versões conflitantes de testemunhas. Uma delas afirmou que o protesto era pacífico e se tornou violento quando a polícia local tentou repelir os manifestantes. A outra dá conta de uma ofensiva violenta por parte dos manifestantes desde o início. Segundo a Al-Jazeera, Stevens teria morrido sufocado pela fumaça gerada pela explosão de granadas. O Guardian afirma que o embaixador teria sido atacado na manhã desta quarta-feira 12, quando chegou ao consulado para verificar os danos do ataque. Uma foto publicada pelo jornal Corriere della Sera mostra o que seria o corpo de Stevens, arrastado pelas ruas de Benghazi.

Se há dúvidas quanto à forma como Stevens e os outros americanos morreram, é clara a justificativa para o ataque. Como ocorreu no Egito, os manifestantes líbios atacaram a representação americana por conta de manifestações anti-Islã divulgadas recentemente. Uma delas é o “Dia Internacional do Julgamento de Maomé”, organizado pelo pastor evangélico Terry Jones, um radical religioso da Flórida conhecido por queimar cópias do Corão, o livro sagrado do Islã. "O ataque à embaixada no Cairo indica ainda mais a falta de respeito do Islã por qualquer outra religião", disse Jones ao jornal Orlando Sentinel. "O Islã é totalmente incompatível com a sociedade livre ocidental".

A outra justificativa é o filme Innocence of Muslims, uma produção divulgada no YouTube que retrata Maomé, o profeta muçulmano, como filho bastardo, bissexual, violento e pedófilo. Ao Wall Street Journal, o diretor do filme, Sam Bacile, afirmou que produziu o longa com 5 milhões de dólares arrecadados com 100 doadores judeus. "Este é um filme político, não religioso. O Islã é um câncer", disse. Uma reportagem publicada pelo jornal The New York Times indica que Sam Bacile pode ser um nome falso. O homem teria se identificado com Sam Bacile em duas entrevistas, mas deu idades diferentes (52 e 56 anos) aos jornalistas. O governo de Israel, segundo o NYT, disse desconhecer a existência de Bacile e se distanciou dos autores do filme, "completos idiotas" segundo Yigal Palmor, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores israelense.

O fanatismo religioso de Jones e Bacile encontra eco entre a fração mais radical dos muçulmanos. No Egito, os protestos de terça-feira foram convocados por Wesam Abdel-Warethpor, um líder salafita, grupo conservador ultrarradical. Na Líbia, tudo indica que salafitas também participaram dos protestos, incluindo a milícia islâmica Ansar Al-Sharia. Antes da Primavera Árabe, os salafitas classificavam a política como algo proibido e condenavam a participação de seus seguidores em qualquer tipo de debate público. Após as derrubadas de ditadores, os salafitas formaram partidos e mostraram sua popularidade, em particular no Egito, onde obtiveram 25% dos votos nas eleições para o Parlamento (hoje dissolvido). Nem todos os salafitas são violentos, mas a maioria dos grupos muçulmanos que pregam e usam a violência, como a rede terrorista Al-Qaeda, têm base salafita. Esses grupos não estão acostumados a conviver com a divergência, mesmo entre versões diferentes do Islã, e são obstinados em sua luta por fazer todo o mundo muçulmano, e a humanidade, adotarem o mesmo estilo de vida que Maomé tinha no século VII. São, como a maioria dos árabes e muçulmanos, anti-americanos.

Os salafitas se notabilizaram, também, por convocar protestos ruidosos pelo mundo árabe. Essas manifestações, muitas vezes, acabam atraindo grupos violentos não religiosos. No Cairo, a bandeira dos Estados Unidos foi retirada do mastro principal da embaixada, aparentemente, por torcedores organizados de futebol, sempre presentes na linha de frente de protestos. Na Líbia, o protesto também tinha a presença de setores seculares.

Ocorre que o discurso religioso serve para insuflar os ânimos. O que torna o duelo de fanáticos ainda mais perigoso é o fato de ambos não conseguirem matizar as diferenças entre religião, sociedade e política. Como faz Terry Jones, para quem o ataque à embaixada americana no Egito é prova de intolerância religiosa, os salafitas são incapazes de diferenciar uma iniciativa de um pastor evangélico daquela do governo americano. Foi esta a "lógica" que contribuiu para matar o embaixador Chris Stevens e os outros americanos. É o mesmo raciocínio de Osama Bin Laden que, em sua sanha de atacar os Estados Unidos, promoveu um ataque em 11 de setembro de 2001 e deixou mais de três mil civis inocentes mortos.

A resposta do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao ocorrido na Líbia foi exemplar. "Os Estados Unidos rejeitam esforços para denegrir as crenças religiosas dos outros, mas todos devemos nos opor inequivocamente a este tipo de violência sem sentido que tirou as vidas desses funcionários públicos". Da mesma forma, o primeiro-ministro da Líbia, Abdurrahim el-Keib, pediu desculpas a "todo o povo americano e ao governo, e também a todo o mundo" pelo que chamou de "ato criminoso covarde".

A semana do 11º aniversário do 11 de setembro mostrou que a Primavera Árabe foi capaz apenas de libertar diversas forças políticas em sociedades que passaram décadas sob uma dura opressão, muitas vezes patrocinada pelos Estados Unidos. A Primavera, sozinha, não vai gerar democracias de forma espontânea. A semana deixou claro, também, que a questão religiosa é central para o futuro do mundo árabe. As ações de Jones e Bacile podem ser criticadas e condenadas, mas não criminalizadas. A violência por parte de grupos salafitas, e de criminosos que usam questões religiosas como justificativa, entretanto, deve ser combatida a todo custo. Após décadas de opressão, o mundo árabe precisa reconhecer que, atualmente, este tipo de violência, gerada internamente, é o maior risco para o futuro da região.

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