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França

Em um ano, Hollande vai de sinônimo de esperança ao descrédito

por Deustche Welle — publicado 15/05/2013 12h37
Com desemprego crescente, escândalos no governo e série de promessas não cumpridas, presidente francês chega a um ano de gestão sem a confiança da população, que apostou nele durante a campanha
Bertrand Langlois / AFP
François Hollande

François Hollande em entrevista coletiva na sexta-feira 10, em frente ao Palácio do Eliseu, em Paris

Ele não quer celebrações. A popularidade do presidente da França, François Hollande, está em queda livre no primeiro aniversário da eleição dele. Em maio de 2012, os franceses optaram pela mudança – e as esperanças eram muitas. Mas depois de um ano e um recorde de desempregados, muitos se ressentem das promessas não cumpridas.

O francês Alain, que já passa dos 40 anos de idade, se diz desiludido. Segundo ele, Hollande precisava dos votos da esquerda para vencer as eleições e, apenas por isso, anunciou uma política de orientação esquerdista. Mas atualmente, afirma, teria acontecido justamente o contrário. "Muitos projetos de lei não trazem benefícios aos empregados", critica.

Uma república socialmente justa, uma ofensiva destemida contra a crise econômica e, principalmente, o fim da burlesca presidência de Nicolas Sarkozy, considerada embaraçosa por muitas pessoas – tudo isso era simbolizado pelo simpático candidato socialista. Hoje, no entanto, ele congelou na indecisão: na corda-bamba entre os pedidos por um Estado social maior, por parte da base partidária de esquerda, e as pressões por reformas, vindas da Europa.

Administrador questionado

Também sua imagem de homem idôneo foi substituída por uma de administrador impotente à frente do Estado. Hollande não conseguiu impedir que o escândalo de sonegação de impostos, que envolveu seu ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, manchasse o governo.

"Hollande nos havia prometido que seria um presidente normal. Mas, não, ele não é normal. Ele está muito distante de nós", afirma a francesa Colette, que há 15 anos é membro do Partido Socialista e diz que quer convidar Hollande para uma refeição, com o intuito de lembrá-lo dos grandes desafios de sua Presidência.

"Nós já discutimos longamente sobre o casamento gay", diz Colette, "mas o que acontece com o restante?" Para ela, há questões bem mais importantes, como, por exemplo, a reindustrialização do país: "Só conseguiremos isso com um pouco de patriotismo econômico na Europa. Há muitas questões que vejo não serem tratadas por esse governo."

O número de promessas de Hollande, que muitos consideram "não cumpridas", é de fato alto. O drama dos metalúrgicos de Florange, no norte da França, cujos altos-fornos foram finalmente desligados após uma longa disputa com a empresa proprietária ArcelorMittal, comoveu cidadãos em todo o país. Conhecido em toda a Europa, o imposto sobre a riqueza de 75% se tornou, com  veto do Conselho Constitucional, o símbolo de um governo diletante.

E houve ainda a prometida "inversão da curva do desemprego" até o final de 2013, na qual nenhum eleitor acredita mais. E, principalmente, o esperado "não" às medidas de austeridade econômica defendidas pela Alemanha. Que o "não" ficou sem efeito, o ministro francês de Assuntos Europeus, Thierry Repentin, não quer reconhecer.

Pessimismo

"Nós sabemos que Paris e Berlim têm pontos de vista diferentes. Mas isso não nos impede de falar e, principalmente, de levar adiante também soluções francesas", disse Repentin à emissora RFI, mencionando o imposto sobre transações financeiras. "Não foi a Sra. Merkel que lutou por ele, também não foi Sarkozy, mas François Hollande. Essa ideia fixa de que a Alemanha decide por todos deve ter um fim."

Mas o clima de pessimismo domina a França. O jornal Le Monde dedicou duas páginas com tabelas e gráficos para demonstrar como a alma da nação e a situação do país andam mal. Nesse ponto, o cientista político Olivier Rouquan vê responsabilidade do presidente. A energia, diz o cientista político, deve fluir agora no trabalho de persuasão.

"Eu acho que foi Jacques Chirac que disse: 'na política, não é a verdade que vale, mas a percepção das pessoas'", afirma Rouquan. "O presidente precisa trabalhar, principalmente, em sua capacidade de comunicação. Ele deve relaxar um pouco a sua personalidade e empreender um diálogo mais emotivo com seu país."

No entanto, um ano após a eleição, os laços entre Hollande e seus eleitores foram desfeitos. Três quartos dos franceses avaliam negativamente a política de seu presidente. Isso nunca aconteceu antes – nem mesmo com Sarkozy, cujo vigor desenfreado é cada vez mais celebrado como modelo oposto à procrastinação de Hollande.

"Normal" demais

"Durante a campanha eleitoral, os candidatos tanto da esquerda quanto da direita diziam: 'se eu quiser ganhar, eu tenho que mobilizar o país'", opina Edwy Plenel, editor do jornal online Mediapart, que com suas revelações comprometeu muito o presidente francês. "Agora essa é justamente a cilada em que caiu nosso governo." Segundo Plenel, o governo foi eleito devido a promessas em três temas: finanças, Europa e democracia.

No mundo financeiro, ainda não há controle sobre os bancos. A Europa não foi renegociada nem reorientada. Pelo contrário: a relação de forças não pende para o lado dos franceses, diz Plenel. "Mas o problema central, para mim, é a democracia. Eleito como o 'presidente normal', François Hollande está se tornando apenas mais um presidente da Quinta República", finaliza.

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