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Em jogada eleitoral, Obama suspende deportação de imigrantes ilegais jovens

por Gabriel Bonis publicado 16/06/2012 07h32, última modificação 06/06/2015 18h23
A menos de seis meses das eleições, medida é vista como política
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Estes jovens terão dois anos de anistia e poderão solicitar vistos de trabalho. Foto: Joe Raedle/AFP/Getty Images

A menos de seis meses da eleição presidencial nos Estados Unidos, em novembro, o Departamento de Segurança Interior norte-americano anunciou nesta sexta-feira 15 que não irá mais deportar imigrantes ilegais que chegaram ao país menores de 16 anos e que hoje possuem até 30 anos. Às pessoas dentro destes critérios, o governo vai oferecer a chance de um visto de trabalho de dois anos, que pode ser renovado sem restrições de vezes. Os imigrantes precisam ainda comprovar que moram no país continuamente por cinco anos, não terem antecedentes criminais e estudar. A medida deve abarcar cerca de 800 mil pessoas e pode ser encarada como uma ação política de Barack Obama para angariar apoio do cada vez mais importante (e crescente) eleitorado latino, cuja comunidade deve ser a maior beneficiada. O ato tenta contornar a insatisfação deste público com a atual administração, que em 2008 obteve o apoio de 67% dos votantes latinos e não conseguiu defender temas caros a esse eleitorado, como a imigração.

Obama está em dívida com a agenda da comunidade latina. O presidente prometeu uma reforma imigratória ainda em seu primeiro ano de mandato, mas perdeu a maioria no Congresso para os republicanos, que bloquearam as ações do governo neste tema. Por isso, a mudança de estratégia em matéria de deportação atende a uma das principais exigências de organizações de defesa dos imigrantes ilegais nos últimos anos. Após o anúncio, o Conselho Nacional de La Raza, a maior entidade hispânica dos EUA, considerou a ação "sensível" e "positiva". Uma reação que ressalta ainda mais um provável viés político no ato.

Para Cristina Soreanu Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em EUA, a medida é "compensatória". "O objetivo é apaziguar o ânimo da comunidade latina, principalmente porque eles têm se mostrado indiferentes a um segundo mandato de Obama ou até mesmo cooptáveis pelos republicanos”, diz. E isso se deve a diversos fatores, como o aumento recorde de deportações, cerca de 400 mil ao ano, e o fracasso da administração em aprovar reformas no Congresso para legalizar a situação de jovens que chegaram ao país de forma involuntária, acompanhando seus pais ou familiares. Entre elas está o Dream Act, que visava estabelecer um caminho para a cidadania norte-americana a esse público, permitindo que pudesse entrar no ensino superior.

Um revés ainda pior no tema veio em 2010. O estado do Arizona aprovou uma dura lei a criminalizar pela primeira vez a imigração ilegal e determinou que a polícia estatal detivesse suspeitos sem documentos em ordem. A iniciativa foi seguida pela Carolina do Sul, Utah e Alabama. Mas a administração Obama conseguiu lidar com o problema ao processar o Arizona alegando a inconstitucionalidade da lei. A Suprema Corte do país analisou o caso em abril, mas ainda não se manifestou em definitivo. "A eleição pode ter sido decidida [a favor de Obama] ali. Foi um movimento muito popular entre os latinos”, disse à época Rogan Kersh, reitor da Universidade de Nova York para Assuntos Acadêmicos e Ph.D em Ciências Políticas pela Universidade Yale, em entrevista a CartaCapital. O ato do governo funcionou tão bem que a decisão da corte pode ser irrelevante, argumentou o professor. “Se a lei for rejeitada, a administração vai poder dizer que derrubou uma medida odiada pela comunidade latina. Caso se decida pela validade, veremos eleitores latinos irritados indo em massa às urnas em novembro para se opor a essa decisão.”

 

Para Obama ter os eleitores latinos do seu lado é um fator preponderante para concretizar uma eventual vitória. Pecequilo acredita, porém, que o presidente vai precisar fazer mais que suspender a deportação de jovens em situação ilegal nos EUA para reconquistar a parcela da comunidade hispânica que se afatou de seu governo. “É um paliativo", diz. Por outro lado, Rubens Antonio Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA e em Londres, destaca que ela integra o programa de Obama de inserção de imigrantes no país, mas não nega o lado político da ação. Para ele, o ato pode ser uma estratégia de defesa contra a tentativa de Mitt Romney, candidato republicado à presidência, de se aproximar dos latinos. “Há a chance de Romney ter como seu vice o senador pela Flórida Marco Rubio, de origem cubana”, diz. Logo, prossegue Barbosa, Obama quer balancear os votos da comunidade latina, especialmente na Flórida, estado com grande peso político no sistema eleitoral americano e onde há enorme incerteza sobre a vitória dos democratas ou republicanos. Uma estratégia que pode ter sido desenhada há tempos. "Desde o início do ano, ninguém pensa em outra coisa a não ser na eleição”, afirma.

Segundo a La Raza, entidade hispânica, Obama precisa de ao menos 60% dos votos latinos para ganhar e Romney não pode ter menos de 40%. A pesquisa Gallup mais recente mostra o atual presidente com 67% de intenção de votos nesta parcela da população, contra 26% do republicano. Nos Estados Unidos vivem cerca de 11,5 milhões de imigrantes ilegais, a maioria de origem hispânica. Além disso, os latinos têm um peso de 9% no eleitorado. Mas Barbosa acredita que esse não será o único eleitorado decisivo. “Os latinos são uma fração muito importante em estados como Flórida, Califórnia e na região de Boston (Massachusetts). Mas os votos dos independentes, entre 10% e 15%, serão mais decisivos.”

Mas para Pecequilo, o maior problema para os democratas não é a perda de alguns eleitores latinos para Romney, mas que o desinteresse com a administração de Obama chegue a um nível de frustração que a comunidade não vá às urnas. “Em 2008, houve uma participação alta e uma mobilização grande do partido, o que foi decisivo para a vitória”, explica. “A desmobilização é muito perigosa para os democratas, pois hoje há um vácuo naquela campanha de 2008 baseada na esperança. E isso pode custar caro para Obama, que vai ter que reconquistar esses eleitores e leva-los às urnas.”

Com informações AFP.

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