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Eleição no Egito é início de um período ainda mais incerto

por José Antonio Lima publicado 15/06/2012 16h31, última modificação 06/06/2015 17h37
Após 16 meses de transição, o novo presidente assumirá um país dividido e sob o jugo da obscura cúpula militar
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Egípcios protestam no centro do Cairo com um cartaz que mostra Shafik como o diabo. Foto: Marwan Naamani / AFP

Na próxima semana, o Egito terá um presidente eleito democraticamente. Será a primeira vez na história do país que um político chega ao poder escolhido pela população. É, certamente, um marco. Mas, ao mesmo tempo, é a abertura de um período de ainda mais incerteza na história egípcia, após 16 meses de "transição democrática" comandada por uma obscura junta militar. O novo presidente – o islamista Mohammed Morsi e o ex-militar Ahmed Shafik disputam as eleições no fim de semana – terá diante de si um cenário desolador. O sucessor de Hosni Mubarak assumirá um país sem Parlamento (dissolvido na quinta-feira), sem Constituição, sem Assembleia Constituinte, com uma economia devastada, uma sociedade profundamente dividida e sob a sombra dos generais. Neste contexto, terá a responsabilidade de tentar colocar o Egito nos trilhos.

A maior questão sobre o futuro imediato do Egito diz respeito ao tamanho do poder que os militares exercerão. Hoje, o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF, na sigla em inglês) controla o Executivo e o Legislativo e tem diante de si um Judiciário dócil. Com os poderes legislativos, os generais poderão nomear os parlamentares constituintes e, assim, moldar a nova Carta a seus interesses. Os principais são garantir um estado civil (e não religioso), sua influência política nos rumos do país e a manutenção do complexo econômico que comandam por meio de negócios civis e militares.

Não se sabe até onde o SCAF vai para conseguir isso. Tornar o futuro presidente um mero fantoche é uma possibilidade, mas esta alternativa certamente irritaria o governo dos Estados Unidos, que sustenta os militares com uma ajuda anual que supera 1 bilhão de dólares. A ajuda é uma espécie de "pagamento" pela manutenção da paz com Israel por parte do Egito, mas mesmo assim os EUA devem pressionar para que o Egito não se torne uma ditadura militar tão ou mais draconiana quanto foi nos 30 anos de governo Mubarak. Assim, a influência militar deve ter dimensões diferentes conforme quem vencer as eleições.

Ahmed Shafik, ex-chefe da Força Aérea do Egito e ex-primeiro-ministro de Mubarak, é, sem dúvida, o nome favorito dos militares. Ainda que não tenham declarado apoio oficial a ele, os militares sabem que Shafik não ameaçaria em nada os privilégios da junta. Ele conta com o apoio dos egípcios que gostavam do governo Mubarak, de funcionários públicos e de cristãos coptas, cerca de 10% da população. Todos esses setores têm, em comum, o medo de que a Irmandade Muçulmana, de onde vem o outro candidato, Mohammed Morsi, transforme o país em um "novo Irã". Este medo é altamente exagerado. Desde a queda de Mubarak, a Irmandade vem se esforçando, às vezes com muito afinco, às vezes com quase nenhum, em se mostrar um grupo moderado. No papel, o Partido Liberdade e Justiça (PLJ), o braço político do grupo, defende os direitos das mulheres e minorias (como os cristãos), bem como uma economia capitalista.

Mesmo assim, a vitória de Morsi certamente será vista com preocupação pelos militares. A Irmandade Muçulmana é fortíssima politicamente e, se detiver a presidência e puder exercer esse poder com alguma independência, vai fazer avançar algumas de suas visões de mundo. Em diversos momentos, sua agenda poderá contrapor interesses dos militares. Assim, eles precisarão garantir alguma forma de influência sobre os rumos do país que não envolva colocar tanques nas ruas e tomar o poder. A formação de uma Assembleia Constituinte favorável aos militares pode ser uma alternativa. Para tanto, a junta terá de nomear os constituintes enquanto detém o Poder Legislativo. Quando (e se) novas eleições parlamentares forem realizadas, tudo indica que a Irmandade Muçulmana e os partidos salafitas (religiosos radicais) vão novamente conseguir uma vitória avassaladora.

No meio desta divisão, estão os cerca de 50% de egípcios que votaram, nas eleições presidenciais, em candidatos moderados, como o esquerdista secular Hamdeen Sabahi, o ex-irmão muçulmano Abdel Moneim Aboul Fotouh e o ex-secretário-geral da Liga Árabe Amr Moussa. Para muitos desses eleitores, a escolha entre Morsi e Shafik é uma escolha entre dois fascismos, um religioso e outro secular. Muitos estão indecisos e muitos devem boicotar a votação.

Na verdade, a escolha deste fim de semana não é entre dois fascismos. Os sinais de moderação da Irmandade são encarados com seriedade pelos governos dos Estados Unidos e da Europa, que teriam todos os motivos para desconfiar dos irmãos muçulmanos. É muito difícil acreditar que o grupo, após décadas de moderação, mergulharia o Egito numa aventura teocrática. Como resumiu a revista liberal The Economist, ao recomendar voto em Morsi em sua edição desta semana, é melhor um "futuro cheio de risco que um retorno ao passado opressivo sob Shafik".

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