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Do que os refugiados fogem?

Conheça as histórias de três refugiados na fronteira da Grécia com a Macedônia
por Gabriel Bonis publicado 08/01/2016 05h38
Gabriel Bonis
Refugiados em Idomeni

Refugiados em Idomeni: a situação é dramática, mas é melhor do que ficar no país de origem

De Idomeni (Grécia) 

Firas Al-Nahar interrompe a conversa para auxiliar a amiga a sentar-se em uma cadeira. Um acidente no barco que a trouxe da Turquia para Grécia provoca intensas dores nas costas da mulher que já não consegue andar ou segurar o choro. Al-Nahar, a mulher e o marido dela são sírios e se conheceram em um campo de refugiados turco. 

“Na minha cidade, primeiro chegaram as tropas de Bashar al-Assad [presidente da Síria], depois vieram os rebeldes e agora o Daesh [acrônimo em árabe para o Estado Islâmico]”, conta Al-Nahar. “Em todo lugar que se vê o Daesh, há morte.” 

O engenheiro químico de 29 anos fugiu de Raqqa, capital do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), para a Turquia há dois anos. Ele e o casal seguem juntos rumo ao norte da Europa e, de certa forma, são “sortudos”. Apenas pessoas nascidas no Afeganistão, no Iraque e na Síria estão autorizados a cruzar a fronteira da Grécia com a Macedônia, de onde poderão continuar sua rota.

Até a primeira semana de dezembro, cerca de 2,2 mil refugiados de outros países, como Irã, Somália, Paquistão e Algeria, seguiam barrados no centro de transição de Idomeni, no lado grego da fronteira. Mas a polícia grega realizou uma operação no centro, obrigando-os a embarcar em ônibus para a capital Atenas após três semanas sitiados no local.

A situação na Europa é tensa e degradante, mas é melhor do que o conflito deixado para trás. Segundo Al-Nahar, os jihadistas enxergam parte da população de Raqqa, área rica em petróleo, como “muçulmanos não crentes”, em especial os sunitas. Os jihadistas forçam os “não crentes” a se tornarem “novos muçulmanos” por meio de uma cerimônia com um imã do grupo. “Apenas assim, essas pessoas são aceitas como muçulmanas”, conta. “Veja bem, somos muçulmanos há mil anos e eles agem dessa forma? Não temos como dialogar com o Daesh.”

Quem se recusar a passar pelo ritual é punido, em geral, com a morte, conta o engenheiro. O EI também pune aqueles que não usam trajes religiosos adequados ou que não mantêm a barba da forma correta. “Se você não segue as normas deles, é um muçulmano infiel”, afirma.

O grupo também controla o envolvimento da população com a política e suas atividades nas redes sociais, de acordo com Al-Nahar. “Todos querem um país com Constituição e democracia, mas se alguém defende isso, é visto pelo Daesh como um muçulmano não crente”, diz. 

“Eles checam as suas redes sociais, se você fala sobre a situação do país é considerado um espião. O Daesh pergunta tudo sobre a sua vida quando invade casas”, completa. 

Al-Nahar se desculpa constantemente pelo seu inglês bem compreensível. Ele diz ter dominado a língua no passado, mas o tempo na Turquia o forçou a se dedicar ao idioma local, afetando a sua fluência. 

O engenheiro fugiu para a Turquia porque defende a liberdade e o Exército Livre da Síria, grupo rebelde que chegou a ser visto pelo Ocidente como uma alternativa viável a Assad. Ele tinha a imagem da bandeira do grupo em sua foto de perfil no Facebook. “Se o Daesh ver a bandeira no seu perfil, você estará em risco. Eu tinha essa imagem, mas a removi por medo do que poderia acontecer com a minha família, mesmo que eles não estejam em Raqqa”, fala enquanto mostra em seu iPad a imagem.

Segundo ele, o EI infiltra espiões na comunidade para saber o que as pessoas falam e identificar aqueles que cometem ofensas contra o grupo. “Eles vão te punir, por exemplo, porque viram uma foto sua de anos atrás bebendo. Não se pode ter uma vida normal, com liberdade porque o medo de ser punido é real”, desabafa. “Eles possuem uma mente criminosa.”

Al-Nahar parece um homem inteligente e voluntarioso. “Não sou um criminoso, estou falando sobre o que ocorre na minha cidade. O Daesh é criminoso, não eu. Existem muitas pessoas pobres que não têm condições de juntar dinheiro para fugir para a Turquia, então são forçadas a ficarem lá.”

“Mal consigo pensar”

Há dois meses, Mohammed e sua família deixaram a província de Helmand, no sul do Afeganistão. Chegaram à Grécia após muitas dificuldades no caminho pela Turquia. O trajeto, diz o jovem de 18 anos, “é sempre dificil” e com momentos de muita espera, como a fila para cruzar a fronteira com a Macedônia, no centro de transição de Idomeni. “Quero ir para a Alemanha”, afirma sem saber bem o motivo quando questionado. “Só quero fugir da guerra”.

Refugiados em Idomeni
Refugiados em Idomeni: só afegãos, sírios e iraquianos podem passar (Foto: Gabriel Bonis)

No Afeganistão, Mohammed estava concluindo o ensino médio e ainda não trabalhava. A rotina era repleta de temor. “A vida lá é muito perigosa, quero estar em um país seguro”, conta. “Se o meu país um dia for seguro, vou retornar. Mas se nada mudar, porque eu deveria?”, questiona.

Ele quer continuar estudando, mas ainda não consegue pensar no futuro. “Não sei, ainda não consigo pensar sobre o que estudar. Talvez negócios”, afirma com uma expressão indecisa. “Talvez abrir um loja de comércio. É o que desejo poder se capaz de fazer”, sorri. 

Bombas que matam

O sírio Ahmad, de 37 anos, deixou parte da família em Homs para buscar a proteção na Europa. Ele demorou duas semanas para chegar a Grécia com o filho de nove anos. A esposa e a filha de cinco anos ficaram com a sogra, porque não havia dinheiro para trazê-las. “Gastei cinco mil euros para chegar até aqui. Vendi tudo o que tinha, inclusive a minha casa”, conta. 

O radiógrafo de oleodutos tinha uma vida confortável antes do conflito, mas a guerra destruiu tudo. “Antes, nossa vida era boa. Com a guerra, não tínhamos emprego, comida ou moradia. Metade de Homs foi destruída. Agora temos medo do exército, do governo, dos rebeldes, do EI. Se você fica, tem medo de tudo.” 

Ele quer chegar na Alemanha ou Holanda e trazer a família em até seis meses. “Nos falamos por telefone. Sinto a falta delas. Elas estão preocupadas conosco e a viagem, porque não é seguro fazer esse caminho. Você não dorme, não descansa, está sempre faminto”, revela.  

Ahmad diz que militantes do EI estavam próximos de Homs antes de deixar a cidade, frequentemente “coletando” pessoas com seus veículos. “Eles são quase todos estrangeiros, muitos deles europeus. E quem não gosta do grupo é decapitado. Todos correm riscos.”

O perigo na Síria é tamanho que ele preferiu arriscar a vida em um barco precário para cruzar o Mar Egeu e chegar na Grécia. “A jornada no mar é muito perigosa. É terrível. Senti como se fosse morrer a qualquer momento. Estava aterrorizado pelo meu filho”, lembra.

Ahmad foi impedido duas vezes pela polícia da Turquia de embarcar para a Grécia, mas não desistiu. “A polícia turca confiscou todo o nosso dinheiro. Eles estão sempre procurando por sírios para ficarem com nosso dinheiro”, afirma. “Na Grécia, as pessoas são gentis conosco, nos dão comida, água e nos ajudam.”

Ahmad relata desejar retornar à Síria quando o país estiver em paz novamente. “Antes da guerra, podíamos sair com a família para qualquer lugar a qualquer momento. Agora, tememos tudo. Bombas foram lançadas próximo a escola do meu filho. Não podemos viver assim. Isso é o que nos faz fugir”, desabafa.

Com os bombardeios, o garoto foi forçado a abandonar a escola no terceiro ano primário. A filha de Ahmad, no entanto, continua estudando em Homs. “As bombas são os que nos matam. Matam não apenas a nós, matam as escolas, a nossa terra, a todos. Não posso apoiar isso”, afirma em critica aos bombardeios de “quem quer que seja”.

Antes de continuar sua jornada, Ahmad diz: “Quero um lugar para ser a casa dos meus filhos, onde eles possam estudar e eu trabalhar. Não quero viver de benefícios do Estado, quero viver como qualquer pessoa normal.”