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Entrevista - Moniz Bandeira

"Dessa vez Wall Street perdeu", diz Moniz Bandeira sobre Trump

por Sérgio Lírio publicado 10/11/2016 00h29
Segundo o cientista político brasileiro, a vitória do republicano representa o repúdio do eleitor comum ao establishment
hmtvalerio/Flickr

Quando lançou em outubro seu mais recente livro, intitulado A Desordem Mundial, o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira não previa exatamente a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Mas o caldo de cultura que alimentou a surpreendente vitória do republicano está fartamente analisado na obra, uma minuciosa descrição do predomínio do sistema financeiro e do esforço militar para espalhar pelo planeta o “espectro da dominação total” dos EUA.

A desordem, no fim das contas, não foi só externa. “Um outsider venceu como franco repúdio ao establishment”, afirma Moniz Bandeira nesta entrevista.

CartaCapital: Como interpretar a vitória de Donald Trump?

Luiz Alberto Moniz Bandeira: Os grandes bancos e corporações concentrados em Wall Street sempre foram, de fato, os eleitores do presidente dos Estados Unidos. Agora, porém, a tentativa de colocar Hillary Clinton na chefia do governo falhou. Um outsider da política venceu como franco repúdio ao establishment.

Ele recebeu, em larga medida, o apoio dos trabalhadores brancos empobrecidos pela globalização. A política do presidente Barack Obama, do Partido Democrata, foi igual ou pior do que aquela do presidente George W. Bush, do Partido Republicano. E o sistema político nos Estados Unidos está corrompido e apodrecido como no Brasil.

CC: O senhor acha que o republicano conseguirá cumprir a promessa de tornar os EUA mais protecionistas, barrar produtos chineses e recuar em acordos de livre comércio?

LB:
Creio que, de certo modo, Donald Trump, como presidente, tomará medidas protecionistas. É uma necessidade econômica para conter o desemprego. São mais de 45 milhões de americanos desempregados, número equivalente ao da população da Argentina.

Os acordos de livre comércio agravariam a crise. Tanto nos EUA quanto na União Europeia, a rejeição a esses tratados é enorme. Eles visam a dar soberania econômica e jurídica às grandes corporações, ao capital financeiro internacional e diminuir significativamente o poder do Estado nacional.

CC: A atuação militar dos EUA tende a aumentar ou a diminuir?

LB: Os EUA gastam 900 bilhões de dólares por ano com as instalações militares e serviço de inteligência, entre outras despesas. De 2001 a 2016, gastaram cerca de 4,7 trilhões apenas nas guerras no Afeganistão e no Iraque, segundo estudo realizado na Brown University. Com a sua "arrogância imperial", para usar um termo do professor Jeffrey Sachs, da Columbia University, produzem um massivo déficit público.

O país se vê obrigado a cortar investimentos urgentes em infraestrutura para sustentar uma disfuncional, militarizada e custosa política exterior. Creio que Trump terá de diminuir a ação militar para não levar os EUA à bancarrota. Ele será o síndico de uma nação cujo déficit fiscal é calculado em 534 bilhões de dólares.

CC: Como a vitória de Trump irá afetar a América Latina e o Brasil em particular?

LB: Diante dos problemas domésticos, onde expressiva parte da população sequer tem dinheiro suficiente para pagar o seguro de saúde, Trump provavelmente não cuidará tanto do exterior, incluída a América Latina. Suponho que não haverá diferença nas relações com o Brasil.