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Internacional

Associação de Pesquisadores e Estudiosos da América Latina e Caribe

Congresso da LASA expõe indignação de intelectuais com impeachment

por Eduardo Graça — publicado 31/05/2016 09h53
Manifestações contrárias ao ex-presidente FHC e ao interino Michel Temer marcaram edição que discutiu possível ruptura política na América Latina
Eduardo Graça
Bresser-Pereira

Bresser-Pereira: "É mentira dizer que garantias sociais estabelecidas pela Constituição não cabem no PIB”

De Nova York

Golpe jurídico-parlamentar. Luta de classes às avessas. Déficit humanitário em relação ao mundo real.

Os cerca de 200 pesquisadores reunidos em Manhattan no trigésimo-quatro congresso da LASA (a sigla em inglês para a Associação de Pesquisadores e Estudiosos da América Latina e Caribe, a mais importante organização do gênero), que termina nesta terça-feira 31, condenaram o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff e, aplaudiram, preocupados, o sociológico Adalberto Cardoso, diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Perira, da FGV, e a historiadora e cientista política Helcimara de Souza Telles (UFMG) afirmarem que a ruptura política e social no Brasil pode se estender para outros países da região.

Os três foram as atrações do painel mais disputado do evento na segunda-feira, intitulado Diálogo em Torno da Crise Brasileira, que contou com mediação do historiador Alexandre Fortes, da UFRRJ e entrou no programa do evento na semana passada, depois de a executiva-geral da LASA ter aprovado moção condenando o processo de impeachment da presidenta Dilma.

A moção será votada por todos os membros do congresso, formado por pesquisadores oriundos dos quatro cantos do planeta, especializados em estudos relacionados à América Latina e ao Caribe, e será aprovado se contar com pelos menos 2/3 dos votos. 

“A indignação dos intelectuais nos EUA e na América Latina com o que aconteceu no Brasil é enorme. As consequências são gravíssimas, foi uma violência contra a democracia e também contra os avanços sociais no país. A partir da ideia de se combater a crise fiscal no Brasil com austeridade, o que se quer é o desmantelamento do Estado de Bem-Estar social brasileiro, criado a duras penas. É uma mentira dizer que as garantias sociais estabelecidas pela Constituição de 1988 não cabem em nosso PIB”, disse Bresser-Pereira. 

O evento terminou com gritos de “Fora, Temer!” e com manifestações contrárias ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uma das atrações anunciadas pelo congresso, que marca meio século da LASA.

Depois que um grupo significativo de acadêmicos demonstrou não concordar com a presença de FHC em um dos painéis, justamente por seu apoio ao afastamento da presidenta eleita, o ‘príncipe da sociologia brasileira’ decidiu não comparecer ao encontro. 

“Foi uma covardia explícita. E mais do que isso, uma arrogância que expressa bem o que a elite brasileira pensa: não há o que se debater com esta gentalha que quer tratar a questão da democracia brasileira em um fórum mundial e de alto nível como a LASA. Trata-se de um senhor que já abandonou a reflexão intelectual ampla e crítica há muito tempo”, disse a professora da UFRJ Maria Luiza Franco Busse. 

Bresser-Pereira fez um paralelo entre o cenário político no Brasil e os EUA dos anos Reagan na virada dos anos 80. “Os EUA continuam crescendo, embora pouco, economicamente, mas houve uma retração social e política gerada na aplicação no receituário neoliberal radical nos anos 80. Agora iremos nós, a esta altura, no Brasil, fazer o mesmo?” 

A professora Maria Luiza Franco Busse enfatizou a importância de se disseminar a informação no exterior “de que o que está acontecendo no Brasil é um golpe de Estado”. E seguiu: “Especialmente aqui, com pesquisadores do mundo todo que estão formando outros futuros pesquisadores e cidadãos, é fundamental que a academia não esteja afastada do mundo real. O que está acontecendo em toda a América Latina são, como afirma o professor Bresser-Pereira, golpes jurídico-parlamentares, mas sobretudo midiáticos. É o suporte de uma política mais do que conservadora, e sim reacionária e retrógrada, no sentido de cooptar o Estado para servir unicamente ao 1% mais rico. Ali, não se admite sequer a possibilidade de inclusão social”. 

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