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Análise

Bernie Sanders e a tradição radical nos Estados Unidos

por Roberto Saba — publicado 24/02/2016 03h37
Movimento que sustenta Sanders opõe-se a um sistema que, como a escravidão e a segregação racial, muitos acreditaram ser intocável
Joe Raedle / Getty Images North America / AFP
Bernie Sanders

Bernie Sanders durante discurso no domingo 21 em Greenville, na Carolina do Sul: ele integra tradição radical da política norte-americana

Não é somente no Brasil que forças de direita se tornam cada vez mais rançosas. Nos Estados Unidos, candidatos à presidência como Donald Trump e Ted Cruz têm atacado trabalhadores, minorias e imigrantes com tamanha violência que até mesmo o desastroso governo de George W. Bush e Dick Cheney parece fruto de uma era de moderação e entendimento.

No entanto, há luz no fim do túnel da democracia norte-americana e ela se chama Bernie Sanders. Quando examinado de perto, fica claro que o senador de 74 anos é muito mais do que um liberal da estirpe de Bill Clinton, Al Gore ou Barack Obama. Sanders bebe numa fonte histórica de radicalismo que confronta o status quo nos EUA desde o século XIX e que hoje renasce junto a um movimento que toma as redes sociais e promete logo ocupar as ruas do país para atacar o sistema neoliberal.

Sanders nasceu no Brooklyn, Nova York, filho de imigrante judeu-polonês que trabalhava como vendedor de tinta para sustentar a família. Estudante da Universidade de Chicago durante os anos 60, Sanders se tornou um ativista pela igualdade racial e participou do movimento pelos Direitos Civis, marchando junto aos seguidores de Martin Luther King Jr.

Após trabalhar como documentarista e carpinteiro, Sanders entrou para a política como candidato independente. Em 1981, se tornou prefeito de Burlington, maior cidade do Estado do Vermont. Reeleito três vezes com grande apoio, Sanders implementou medidas como expansão de casas populares e barrou a privatização de bens públicos. Nos anos 90, Sanders chegou ao Congresso.

Reeleito sete vezes pelo povo de Vermont, notabilizou-se por posicionamentos contra as intervenções militares no Oriente Médio e América Latina, a desregulamentação financeira e o famigerado Nafta.

Ainda durante os anos 90, Sanders continuamente lutou pelos direitos dos trabalhadores e das minorias. Em 2006, mais uma vez como independente, Sanders derrotou o homem mais rico de Vermont para se tornar senador.

O resumo de sua biografia mostra que Sanders está longe de ser um “outsider,” como muitos tentam descrevê-lo, chegando ao absurdo de compará-lo com Trump. No entanto, Sanders também está longe de ser um membro do establishment.

Quebrando tabus na capital política do neoliberalismo, Sanders não tem medo das palavras classe, socialismo, radicalismo ou revolução. Sanders também não tem papas na língua ao confrontar reacionários e descrentes para afirmar que, se países como a Noruega e o Canadá ainda podem manter um estado de bem estar social, tal sistema não é inalcançável nos EUA, país mais rico do mundo.

Caso se torne presidente, Sanders promete expandir as reformas na saúde iniciadas por Obama, aumentar o salário mínimo para 15 dólares/hora (hoje o valor são vergonhosos 7,25 dólares), promover o acesso à cidadania para imigrantes, fortalecer sindicatos diante dos patrões, fazer as universidades públicas gratuitas, além de muitos outros ambiciosos projetos. Como fazer tudo isso?

Para Sanders a resposta é simples: Wall Street e os bilionários (o 1% que controla 58% dos ganhos no país) devem pagar por seu parasitismo. Sanders promete desmontar os grandes bancos, acabar com a especulação financeira que Wall Street conduz com dinheiro alheio, impedir que empresas americanas usem paraísos fiscais para evadir impostos e impor pesadas taxas sobre o capital improdutivo e os ricos.

Mais impressionante do que as propostas de Sanders, porém, é a mobilização em torno dele. Sanders afirma com orgulho que não possui “Super PACs” (fundos formados por agentes ocultos que têm contribuído milhões não só para os republicanos como também para Hillary Clinton) e já por diversas vezes denunciou sua concorrente por receber, entre outros favores de Wall Street, a bagatela de 675.000 dólares por três palestras dadas ao Goldman Sachs (palestras cujo conteúdo continua secreto).

A candidatura de Sanders é financiada por doações que atingem uma média de meros 27 dólares. Mais de 4 milhões de indivíduos já contribuíram, porém, o que faz de sua campanha a maior mobilização eleitoral por parte de pessoas comuns da história dos EUA.

As maiores doações para a campanha vem de sindicatos e só uma delas passa (por pouco) de 100.000 dólares. Além do dinheiro, milhões de cidadãos têm doado seu tempo à campanha. Facebook, Twitter e Instagram são tomados por uma massa bem informada sobre os problemas do país e do mundo. 

A mobilização política em torno de Sanders pode parecer uma mera utopia e suas propostas inalcançáveis nos tempos do neoliberalismo triunfante, ainda mais no coração do capitalismo. No entanto, a história nos mostra que o progresso social nos EUA foi sempre movido por planos radicais, dos quais os donos do poder e os grupos conservadores riram.

Durante o século XIX, os EUA formavam o maior império escravocrata do planeta. Foi então que David Walker denunciou o racismo dos fundadores da nação, Frederick Douglass fugiu do cativeiro para se tornar um grande líder abolicionista, Harriet Jacobs expôs o lado sórdido dos senhores, John Brown invadiu o arsenal de Harpers Ferry para conclamar os escravos a se rebelarem e Abraham Lincoln conduziu uma batalha popular que culminaria na abolição da escravidão (4 milhões de escravos, considerados propriedade privada, foram libertados então sem nenhuma compensação aos senhores).

Na passagem do século XIX para o XX, enquanto o capitalismo industrial triunfava, proletários, indígenas, mulheres, negros e agricultores passaram a ser tratados como sub-classes. Foi então que Sitting Bull lutou para preservar as terras de seus ancestrais, Emma Goldman adotou princípios anarquistas contra a opressão das mulheres e dos trabalhadores, William Jennings Bryan abraçou o populismo para defender os lavradores e Marcus Garvey ergueu a causa do Pan-Africanismo no campo e nas cidades.

Durante a segunda metade do século XX, a segregação racial enrijecia, minorias eram violentadas, imigrantes eram explorados e o imperialismo norte-americano se expandia. Foi então que Malcom X marchou junto à Nação do Islã contra a supremacia branca, Cesar Chavez organizou trabalhadores agrícolas por direitos trabalhistas, Harvey Milk defendeu os diretos da comunidade gay, Rosa Parks liderou atos de desobediência civil contra a segregação no sul, Angela Davis se uniu aos Black Panthers para denunciar a realidade dos guetos e milhões de jovens tomaram as ruas para exigir o fim da Guerra do Vietnã.

Ainda que liberdade e igualdade estejam longe de atingir a plenitude nos EUA, pode-se imaginar o quão monstruosa seria a realidade norte-americana não fosse pela luta de homens e mulheres, brancos e negros, nativos e estrangeiros que se agarraram a uma tradição radical.  

Hoje, quando Sanders ataca a ordem neoliberal, rejeita acordos com os poderosos e promete dar aos trabalhadores aquilo que lhes é de direito, ele abraça esta longa história de radicalismo.

É evidente que o senador do Vermont não é Douglass, Goldman ou Chavez. Hoje a sociedade é outra, os riscos outros e os meios de luta também. No entanto, o movimento que sustenta Sanders opõe-se a um sistema que – como a escravidão, a segregação racial ou a opressão da mulher –muitos acreditaram ser intocável.

O fascínio que Sanders exerce sobre os norte-americanos vem do fato de sua campanha falar o idioma de um radicalismo tão antigo quanto a própria república. Construída de baixo para cima, a campanha pode se tornar uma revolução. Construída sobre uma tradição radical que fez, por diversas vezes, aquilo que parecia impossível, a campanha pode abalar as estruturas de um sistema que parece invencível.

O movimento já começa a dar resultados concretos. Se, há alguns meses, Clinton tinha certeza de sua nomeação pelo partido democrata, hoje a disputa é acirrada: empate virtual nas primárias de Iowa (Clinton 49,9%, Sanders 49,6%), vitória esmagadora de Sanders em New Hampshire (Sanders 60,4%, Clinton 38%) e vitória tímida de Clinton em Nevada (Clinton 52,7%, Sanders 47,2%).

Mais importante, pesquisas recentes mostram que Sanders tem a preferência da maioria popular nas primárias e que teria mais sucesso contra os candidatos republicanos em possíveis eleições para presidente. Enquanto Clinton apostava no apoio das minorias, Sanders teve a preferência de 53% dos latinos em Nevada enquanto Clinton amargou 45%. Ainda que Clinton hoje tenha a preferência da maioria dos eleitores negros, muitos jovens e líderes de movimentos sociais negros já declaram seu apoio a Sanders.

Por fim, cabe lembrar que o momento político atual nos EUA é bem diferente dos anos Obama, o qual, ao apostar na moderação do discurso e na conciliação dos interesses, acabou quase sempre bloqueado por uma direita que não tem mais medo de ser fascista. Sanders e seus seguidores têm pouco apreço pelo deslavado pragmatismo do partido democrata.

O movimento pela nomeação de Sanders, assim como movimentos radicais do passado americano, promete reforçar a democracia direta ao mobilizar a massa por mudanças profundas.

Ainda que a máquina política dos Clintons vença Sanders, é possível que uma nova era ainda se abra. Vença quem vencer as primárias e a eleição presidencial, milhões de americanos (e estrangeiros vivendo nos EUA) estarão em sintonia com as tradições radicais do país, prontos para a luta contra o sistema sórdido que tem dominado o mundo desde o fim da Guerra Fria. 

*Roberto N. P. F. Saba é historiador, doutorando em História Transregional na Universidade da Pensilvânia e pesquisa as relações entre capitalismo e escravidão durante o século XIX

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